agradecimento

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/04/2012

Peço desculpas, mas preciso repetir aqui o último parágrafo dos agradecimentos que abrem o meu livro “O mistério do samba”, de 1995: “sou grato a meu orientador, professor Gilberto Velho, pelo estímulo intelectual infalível, pela amizade inquebrantável, pelos prazos inevitavelmente rígidos, pelos telefonemas de madrugada (dez horas da manhã para mim é madrugada) e, principalmente, pelo pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia. Ficaria muito honrado em ver meu trabalho considerado um pequeno desenvolvimento de algumas das ideias originais que integram sua obra.” Gilberto ficou um tanto constrangido, considerou minha declaração exagerada, e fora do tom academicamente correto. Não mudei nenhuma vírgula. Continuo tendo a certeza de que minhas palavras eram totalmente justas.

Ainda bem que expressei minha gratidão antes de sua morte, ocorrida no sábado passado. Não me interessam elogios póstumos. Porém, ao reler aquilo que escrevi anos atrás, percebo que fui até recatado, e tal constatação nada tem a ver com o doloroso luto: sei agora que tudo o que fiz depois, mesmo longe da antropologia, segue sua orientação, e procura olhar o mundo com as ferramentas que sua obra me forneceu. Se desconfio do simples, do homogêneo, e quero sempre revelar complexidade e heterogeneidade no mundo, a culpa é do Gilberto. Foi ele que treinou meu faro por mediadores, por pessoas que se alegram ao colocar estilos de vida diferentes em contato (e procuro ser uma delas em todos meus trabalhos, mesmo nesta coluna). Sua orientação me fortaleceu para encarar o desafio das cidades, das identidades nunca permanentes, das metamorfoses vibrantes da vida contemporânea, sem refúgio fácil naquilo que consideramos familiar.

No agradecimento de 1995, destaquei o “pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia”. É isto mesmo: não estava falando da antropologia brasileira, e sim da antropologia mundial. Muitas vezes somos tacanhos por não reconhecer inovações produzidas ao nosso redor, em nosso país. Sendo claro: Gilberto não importou ideias estrangeiras, adaptando-as às necessidades nacionais. Seu trabalho principal foi o desbravamento de um novo campo de estudos dentro da antropologia, sem similar “lá fora”. Encontrou inspiração em conceitos e práticas de uma vertente da sociologia dos EUA (a turma de BeckerGoffman, herdeira de mestres alemães como Schutz e Simmel, talvez os autores mais amados por Gilberto) para inventar uma maneira de estudar antropologicamente a realidade urbana. Naquela época, final dos anos 60, era raro encontrar no mundo etnógrafos pesquisando em suas próprias cidades. Até hoje, em vários países, antropologia urbana é “tendência”. O Brasil, seguindo os passos pioneiros do Gilberto, acumula há décadas um rico corpo de investigação antropológica sobre suas metrópoles.

Pioneirismo não era apenas fazer “trabalho de campo” nas cidades. A escolha dos temas que seriam estudados também foi ousada. Gilberto falava em complexidade, muito antes que os chamados estudos da complexidade virassem moda na física, economia ou informática. E procurava o complexo onde menos se esperava: num prédio de conjugados de Copacabana ou entre aristocráticos consumidores de drogas. Desde o início de sua carreira como professor, passou a orientar muitas teses com objetos que nunca tinham sido alvo de atenção acadêmica, conectando arquitetura e antropologia, psiquiatria e antropologia e por aí afora. Olhando a lista de orientações de seu currículo Lattes, encontramos de heavy-metal suburbano carioca a lan-houses em Porto Alegre.

Foi esse olhar atento para o não convencional que me levou a fazer antropologia. E não pensei duas vezes ao propor meu tema de mestrado: baile funk. Se até hoje, depois de tanto sucesso, funk ainda é vítima de tanto preconceito, imagine em 1986. Com Gilberto, eu tinha incentivo para estudar algo considerado na época sem importância ou desprezível. E também para mudar radicalmente de assunto e abordagem logo depois no doutorado, quando fiquei fascinado por um encontro entre Pixinguinha e Gilberto Freyre em 1926 na Rua do Catete, o embrião de “O mistério do samba”. Gilberto (Velho) era sim controlador, estabelecendo regras detalhistas para a execução da pesquisa de seus orientandos (os telefonemas de manhã cedo checavam se já estávamos trabalhando). Mas seu controle era paradoxal: no lugar de buscar resultados previsíveis, a disciplina deveria produzir o inesperado.

Quando convidei Gilberto para conhecer um baile funk, ele respondeu que só iria dentro de um papamóvel (aquele carro usado pelo Papa). Claro que acabou indo conhecer as terras do DJ Marlboro sem proteção alguma. Esse humor era típico do Gilberto, estratégia sempre usada para tirar seus interlocutores da zona de conforto. Nunca dizia quem eram os outros convidados dos jantares em sua casa. Quando muito falava que esperava uma antropóloga húngara ou a rainha da Jordânia. Lá chegando encontrávamos pessoas totalmente diferentes das anunciadas. Uma vez ele disse que eu jantaria com antropólogas portuguesas que estudavam o hip hop de Lisboa. Para variar, conheci realmente especialistas em rap lusitano. Como vou sentir falta dessas surpresas. Minha missão é procurar maneiras de tornar o mundo cada vez mais alegremente imprevisível. Assim continuarei empenhado no desenvolvimento da obra do Gilberto.

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2 Respostas to “agradecimento”

  1. Patrícia Monte-Mór Says:

    Hermano, amei o seu texto. Incrível a multiplicidade de caminhos abertos por nosso querido Mestre. O bacana é que vc está sabendo trilhá-los tão originalmente. Em frente!

  2. hermanovianna Says:

    oi Patrícia: que bom que você gostou – sim, muitos caminhos, inclusive a antropologia visual, não foi? ele sempre incentivou muito os orientandos e alunos que queriam ir além dos textos – precisamo seguir sem perder o espírito experimental da obra do Gilberto!

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