ex-my-público

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/04/2012

Casey Hudson não deve ser nome familiar para leitores de cadernos culturais. Fiz busca em acervos de jornais e encontrei pouquíssimas menções ao seu trabalho – quase todas em suplementos de informática. Portanto, se eu disser que ele é um dos mais influentes artistas contemporâneos, ninguém vai acreditar. Pode me levar a sério: o cara já conquistou espaço no imaginário contemporâneo comparável ao de George Lucas ou J. R. R. Tolkien. Exagero meu como sempre? Abaixe o dedo acusatório. Não são poucos os criadores que têm direito de bater no peito e afirmar: “eu inventei um universo.” Há a Terra Média do “Senhor dos anéis”, a República Galáctica de “Guerra nas estrelas”. Agora temos também a Aliança Terrestre de Mass Effect, trilogia de jogos eletrônicos desenvolvida por Casey Hudson. Mass Effect 3 foi o maior lançamento de 2012 para a indústria de entretenimento, o que inclui filmes e discos. O game vendeu 890 mil cópias, só na América do Norte, no primeiro dia nas lojas.

Poderia escrever esta coluna apenas sobre a BioWare, empresa canadense onde Hudson trabalha. Sua história é fascinante, desde a fundação em 1995 por três médicos recém-formados. Um dos fundadores deixou a empresa para voltar para medicina. Os outros dois, carinhosamente conhecidos no mundo dos games como Ray e Greg, se tornaram milionários com lançamentos como “Dragon age” ou “Jade Empire”. Poderia também ocupar todo este texto com considerações sobre a mitologia de Mass Effect, com sua luta épica entre seres orgânicos e artificiais (nada da harmonia blasé dos homens-robôs do Kraftwerk), ou sobre sua inovadora utilização de narrativas abertas, que levou a trilogia a ser considerada obra-prima pioneira pelos mais importantes sites e revistas de games. O assunto é muito rico, é preciso um recorte: vou tratar apenas da polêmica sobre o final de Mass Effect 3.

Muitos fãs, que reverenciavam Mass Effect e Mass Effect 2 como maravilhas da humanidade, ficaram revoltados quando zeraram Mass Effect 3. Logo uma multidão foi para as redes sociais manifestar seu ultraje: o final foi considerado um atentado contra o que havia de mais inovador na trilogia. Geralmente os games seguem uma linha narrativa mais rígida. Em Mass Effect não: cada escolha do jogador influencia decisivamente as próximas etapas do jogo. Acredito que a trilogia foi a primeira onde, para cada jogador, tudo que aconteceu no game anterior era transportado para o lançamento seguinte. O final de Mass Effect 3 decepcionou por parecer pré-determinado na fábrica, sem levar em consideração a riqueza das trajetórias anteriores. O barulho na internet foi tão grande – era a revolta do aberto contra o fechado, da abundância contra a escassez – que Casey Hudson e a BioWare tiveram que anunciar rapidinho uma sequência, carregada de inúmeras possibilidades de finais, que ficará disponível gratuitamente para download em breve.

Tal anúncio foi recebido com desconfiança. Houve gente que acusou a BioWare, que foi comprada pela gigantesca Electronic Arts, de ter planejado maquiavelicamente tudo desde o início: o final fraquinho aumentaria as vendas de conteúdos opcionais downlodáveis. O que não estava nos planos era a reação contrária tão poderosa: daí a única saída foi liberar conteúdo de graça. Casey Hudson ficou indignado com tal insinuação. Ele jura que imaginava ter criado a melhor conclusão para sua saga.

O melhor para Hudson provou não ser o melhor para todo mundo – ou pelo menos não para a parcela mais fanática, influente e falante de seu público. Lição número 1 também para toda indústria do entretenimento: não existe mais público como antigamente, passivo, que aceita sem reclamar o que os geniais criadores imaginam ser o melhor. A ironia é isso ter se tornado totalmente evidente justamente numa revolta contra Hudson, um dos artistas que mais ajudou a transformar o público em coautor de seu trabalho, com infinitas opções que modificavam a narrativa. Como dizia o velho ditado: deu a mão, o povo – que ficou mal-acostumado, e agora se instala no poder – quer o braço, o corpo inteiro, mesmo o final de tudo. Ô gente insatisfeita! Mas é bom se acostumar com a nova realidade de sempre querer mais… O protesto, para provar sua seriedade, chegou a arrecadar 80 mil dólares que foram doados para a Child’s Play, instituição que tenta melhorar a vida de crianças hospitalizadas.

A confusão está armada: a quem pertence a obra, aos criadores ou ao público (ou diferentes públicos)? E se acontece racha criador-público, quem resolve, quem vence? Diante desse panelaço contra o final de Mass Effect 3, houve uma reação engraçada logo da parte interessada em que os games passem a ter o cobiçado status de arte. Um dos sites mais visitados de cobertura do mundo dos jogos eletrônicos é o Gamespot. Laura Parker, sua editora assistente ficou revoltada contra os revoltados com o final proposto por Casey Hudson, e partiu para sua defesa. Repare só como ela ficou descontrolada: “Imagine que vivamos em um mundo onde artistas regularmente mudem suas obras atendendo a demanda do público. Imagine Monet repintando “Nenúfares” em preto e branco porque as pessoas não gostaram das cores.” A intenção era nobre: equiparar Casey Hudson a Claude Monet. Só que Monet nunca vendeu o que pintava como interativo.

Ajoelhou? Agora tem que rezar em coro com o público, o público que quer criar sua própria oração.

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