caixa de vida

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/06/2012

Rudy Rucker é um dos meus escritores preferidos. Poucos outros me deram tantas alegrias literárias, ou desafiaram minha imaginação com invenções ficcionais a cada livro mais desconcertantes. Penso que ele gostaria de ouvir essa declaração que classifica sua obra apenas como literatura. Geralmente os elogios que recebe são mais específicos: seus livros já ganharam prêmios importantes, mas quase todos só conhecidos por fãs de ficção científica (FC). Rucker cita o exemplo de Kurt Vonnegut como escritor que escapou do “gueto”, e conquistou respeito de críticos “sérios”, muitos dos quais tratam, quando estão com boa vontade, quem escreve ou lê FC como adolescentes nerds. Ao fazer esse tipo de reclamação em casa, sua mulher cai na gargalhada: “Não é FC? Você está escrevendo sobre robôs e lulas falantes e discos voadores e viagens para a quarta dimensão! Do que você espera que as pessoas chamem seus livros?”

Sylvia Rucker não acalma o marido. Ele quer encontrar legitimidade artística para sua literatura: “Os beats prezavam o gênero como uma forma de arte vanguardista e singularmente americana, um pouco como o jazz. Para mim, é assim como continuo a pensar sobre a FC quando estou escrevendo: como um surrealismo do mercado de massas, como uma literatura experimental, como a ficção de nosso tempo.”

Retirei essas citações de “Nested scrolls”, autobiografia de Rudy Rucker publicada recentemente. Como todos os seus livros, se não me engano, este também não foi publicado no Brasil. O que é sinal de problemas maiores: ninguém sabe direito o que fazer com sua obra, muito maluca até para padrões nada caretas. Rucker reconhece seu descolamento em qualquer lugar: “eu levo meus efeitos para novos níveis de esquisitice, minhas personagens são humanos realistas e sofredores – e não sou muito popular entre típicos fãs de FC.” Os não típicos também ficam inseguros. No prefácio que escreveu para a introdução da “Tetralogia Ware” – quando os alucinantes “Software”, “Wetware”, “Freeware” e “Realware” foram lançados em um só volume -, mesmo William Gibson ficou na defensiva: “A ficção de Rudy [os dois são íntimos e Rucker foi uma espécie de irmão mais velho para os melhores escritores cyberpunks] é provavelmente um pouco forte demais […] para alguns leitores […] O cara é sui generis.” Gibson amarelou. Afinal ele também quer ser considerado um escritor importante. Não deve pegar bem ser associado a companhias muito doidas.

Como não me interessa ser considerado crítico sério, posso elogiar rasgadamente todos meus ídolos (incluindo desenvolvedores de games, artistas de mangá e tantos outros que são habitués desta coluna). Rucker é gênio. Mas concordo com Gibson: um gênio sui generis. Para o leitor avaliar o quilate da maluquice santa do cara, preciso dizer que “Nested scrolls” é mais que autobiografia. Rucker acredita piamente que em pouco tempo poderemos “uploadar” o conteúdo de nossas consciências para a nuvem ciberespacial, e continuaremos vivendo por lá depois que nossos corpos físicos forem para o beleléu. Em outras palavras: seremos imortais. Mesmo agora, com as ferramentas já disponíveis online, há atalhos concretos para a imortalidade virtual.

Rucker criou o conceito de “life box”. Cada pessoa pode começar sua caixa de vida até com um blog, no qual depositaria todas suas recordações, pensamentos, fotos, vídeos, falas. Depois precisaria criar um mecanismo de busca dentro do blog, que é uma forma ainda primitiva de interação com o conteúdo ali disponibilizado, por caminhos não imaginados pelo seu autor. Algumas buscas já são feitas com voz. Logo as respostas também serão falas, imitando a voz do dono daquela “life box”. Tudo ficará parecido com uma conversa, a partir das memórias de alguém que pode até já estar morto. No momento em que novas memórias, post-mortem, forem acrescentadas ao conteúdo “original”, algo bizarro acontecerá: a caixa ganhará uma fagulha de “vida” própria.

“Nested scrolls” foi escrito como uma “life box”, não interativa. Por isso tantos detalhes, do nome de seus professores nas escolas primárias do Kentucky aos piolhos que seus filhos pegaram dos primos décadas depois. Quem não é tiete de Rucker vai ficar até constrangido com tanta intimidade, mesmo tendo oportunidade de conhecer tão profundamente o cotidiano de uma família americana nos últimos 70 anos. Mas quem quiser pode pular a infância e adolescência para chegar logo ao que tem mais interesse geral, a partir da pós-graduação em matemática, com direito até a um encontro com Kurt Gödel (para muitos o ser humano mais inteligente que já existiu). Diante de seu herói matemático, Rucker tem coragem de expor suas especulações sobre os paradoxos da viagem no tempo. Gödel responde: “Essa é uma ideia muito estranha. Uma ideia bizarra.” O pupilo fica orgulhoso. É uma espécie de Prêmio Nobel de bizarrice, vindo justamente do sumo sacerdote de um mundo bem esquisito: “De todas as subculturas exóticas com as quais eu eventualmente me envolvi, os matemáticos ganham a coroa de estranheza – e nem ligue para os hippies, escritores de FC, roqueiros punks, programadores de computador, e cibermalucos de Berkeley.”

Não acredito que o espaço desta coluna já chegou ao fim… Estou destrambelhado, escrevendo pelos cotovelos. Semana que vem: o cyberpunk, a Mondo 2000, os autômatos celulares. Enfim: o melhor de Rudy Rucker só na próxima sexta-feira.

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