novo mestre

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/05/2012

Lucien Jerphagnon, historiador da filosofia, morreu em setembro, com 90 anos. Não tinha ouvido falar no seu nome até ler uma entrevista publicada postumamente. De lá para cá, virou um de meus mais jovens heróis. Como não ficar fascinado por alguém que tem coragem de declarar “vivo numa torre de marfim, e o marfim é excelente isolante”? Parece erudito ranzinza, que acha tudo chato, e quer distância das ruas? Que nada. Logo em seguida, ele se desdiz, para nos deixar perceber que seu marfim é bem maleável (devo sempre avisar: minha tradução é MUITO livre): “Eu efetivamente sempre procurei traiçoeiramente tocar a zona na cabeça dos outros, porque isso lhes prestava serviço. Sobretudo na cabeça de gente que é muito segura de si! Mas sempre com humor. O humor revela a profundidade que o sério não teria revelado. Ele toca a zona nas cabeças. E dali ninguém retorna, e fica feliz por não retornar.”

Não retornei mais para o ex-my-mundo depois do contato com os ensinamentos de Jerphagnon. Mergulhei em vários de seus livros ao mesmo tempo (pena que muitos estão esgotados). E estou felicíssimo com o regime bagunceiro que ele instituiu em minha mente (várias das citações a seguir foram tiradas do livro de entrevistas “De l’amour, de la mort, de Dieu et autres bagatelles”) . Provavelmente teria o conhecido antes se eu fosse fã de Michel Onfray. Mas nunca li Onfray, não sei bem explicar o motivo. Talvez porque ache que já sei tudo – e de certa forma concorde com tudo – o que está escrito em seus best-sellers filosóficos, que lá não vou aprender nada realmente surpreendente. Engano meu: teria pelo menos ouvido falar de Jerphagnon, mestre querido de Onfray, enquanto ele ainda vivia, e – quem sabe – teria saído em busca de algum acesso direto à sua torre de marfim zoneada.

Jerphagnon deve ter sido excelente professor. Bem-humorado, mas rigoroso, eruditíssimo. Queria ter sido seu aluno. Sobre sua relação com seu discípulo mais famoso: “Onfray foi excelente estudante. Ele ‘caiu’ no meu curso quando eu explicava ‘De rerum natura’ de Lucrécio. Notei que havia um estudante que me observava fixamente; voltou depois das provas e ficou como ouvinte livre de meus cursos por um bom tempo. Tinha grande capacidade de assimilação.” Como sempre em Jerphagnon, essa introdução não nos prepara para o que vem depois, um resumo de seu método pedagógico (que surpreendentemente inclui o elogio da decoreba), ou sua utopia de ensino: “Eu repito que nunca tentei forjar em meus estudantes, a minha própria maneira de pensar. O que me interessa é tirar deles um pensamento próprio, ainda nascente, e ajudá-los a fabricar uma inteligência e uma vida interior. Então ninguém deve se espantar que Michel Onfray seja agora, do ponto de vista filosófico, o oposto de seu ‘velho mestre’. E isso me deixa alegre, pois ele provou que não produzo clones.”

Se Onfray for considerado um hedonista grego, Jerphagnon seria um neoplatonista romano, um pagão encantado com o cristianismo. Uma educação que produz tal diferença mestre-discípulo só pode ser bacana. Conclusão: “O bom professor é um mestre que por sua ciência ou sabedoria dá a seu discípulo aquilo com o qual poderá ser plenamente ele mesmo, algo que ele não tinha ideia antes”. Ou melhor: “o bom professor é aquele que dá vontade de ser um bom estudante”. Obviedade? Platitude? Como dizia o escritor norte-americano David Foster Wallace: “nas trincheiras cotidianas da existência adulta, platitudes banais podem ter importância de vida-ou-morte.” Jerphagnon cultivava esses enunciados simples, claros. Por convicção: “ninguém tem jamais o direito de chatear um leitor que não nos fez nada! Eu mesmo tenho horror de me entediar lendo textos. Largo aquilo rapidinho.”

Que o estilo não nos engane: o que Jerphagnon diz de maneira fácil, nada pedante, pode ter conteúdo dificílimo, como um conceito bem esotérico de Plotino (seu filósofo preferido), ou uma nova ideia poderosa que nocauteia nossa visão de mundo anterior, tudo embasado em pesquisa detalhista do mais exigente rato de biblioteca e arquivos (muitos em línguas “mortas”). Sobre a relação dos romanos com a cultura grega, ele advoga que “Roma teve a elegância, a simplicidade e a inteligência, ela que os havia conquistado, de se deixar “tomar” pelo gregos. […] Roma descobriu bem cedo que se helenizar não seria perder sua identidade, mas melhorá-la, aprofundá-la.” (Muitos movimentos culturais contemporâneos, tão zelosos na defesa do que pensam ser princípios imutáveis de suas identidades, deveriam ouvir isso…)

Sobre a relação dos romanos com os primeiros cristãos, sua descrição não é convencional: “Desde que seus adeptos se mantivessem tranquilos, um deus a mais ou a menos não incomodava ninguém: em matéria de deuses, Roma era uma cidade aberta. Mas logo foi notada sua ausência [dos cristãos] de todas as cerimônias de culto. Aquilo era chocante: em que adorar o deus Fulano impediria de adorar os outros?” O mais diferente e ameaçador na nova seita era a confluência entre religião e moralidade, entre credo e consciência pessoal.

Jephargnon escreveu “A loba e o cordeiro”, romance sobre os tempos finais do Império (o primeiro livro que o autor indica para quem nunca o leu), com seus alto-funcionários cosmopolitas (os que como Pôncio Pilatos perguntavam “o que é a verdade?”) percebendo que aquilo que os chocava nos cristãos tinha mais poder que armas, mesmo as bárbaras. Uma civilização caça a outra, desde sempre. Jerphagnon pergunta: qual vai caçar a nossa?

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