metal

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/06/2012

Slayer foi a banda que me fez gostar de heavy metal. Claro, antes eu já admirava Led Zeppelin ou Black Sabbath. Mas pensava as músicas “Black Dog” e “Paranoid” apenas como rock. Quando, no final dos anos 1970, Jimmy Page ou Tony Iommi passaram a ser considerados precursores de um estilo de rock que já era chamado de metal, toda minha atenção estava voltada para o punk, cuja cartilha anarquista me colocava em extremo oposto estético: avisem a seus discípulos que solos de guitarra não vão me conquistar, nem bate cabeças com chicotadas de cabelos longos. Até que o Slayer lançou “Reign in Blood”, sua obra prima de 1986. De lá pra cá o jogo virou: heavy metal é a única vertente, com inúmeras subdivisões cada vez mais esquisitas, que acompanho com entusiasmo no rock contemporâneo.

Tudo isso se confirmou, e ficou mais claro, quando tive o privilégio de ver o Slayer tocando todas as faixas de “Reign in Blood” ao vivo em Londres poucas semanas atrás, comemoração um pouco tardia dos 25 anos do lançamento deste disco. Era noite de gala para a comunidade heavy metal mundial. Fãs vieram até do Japão especialmente para a ocasião única (ao que tudo indica não haverá repetição deste show especial em nenhum outro palco). Para quem não tem familiaridade com o estilo: era ocasião equivalente a um concerto com Bob Dylan tocando todo “Bringing It All Back Home” ou Ornette Coleman com todo “Free Jazz”, discos que inauguraram novos universos sonoros, abrindo espaço para muitas outras inovações posteriores. O metal contemporâneo, do grindcore ao doom, não seria o mesmo sem “Reign in Blood”. Vou além: a música mais inovadora atual, de qualquer ramo, tem nesse disco um de seus mais sólidos fundamentos.

O Slayer que tocou “Reign in Blood” em Londres não era a mesma banda de 25 anos atrás, não apenas por causa da substituição de um dos guitarristas (Jeff Hanneman foi picado por uma aranha e ainda está se recuperando de algo que em inglês se chama “necrotizing fasciitis”, provocado por uma bactéria que literalmente come a carne humana – e poderia, ironia macabra, ser título de álbum de death metal. No show londrino, quem tocou em seu lugar foi o não menos sensacional Gary Holt, da banda Exodus – seus solos absurdos, em dueto com Kerry King, pareciam ser produzidos por um theremin descontrolado.) O resultado sonoro no palco não podia deixar de levar em consideração tudo o que aconteceu na história do metal, depois – e por causa – do lançamento do disco, quando peso e barulho atingiram intensidades radicalíssimas. Então “Reign in Blood” ficou mais atual do que já seria se tivesse sido tocado exatamente como foi gravado em 1986 (naquela época sua novidade vinha principalmente de um encontro entre metal e punk abençoado pela produção de Rick Rubin, que estava também ajudando a inventar a sonoridade mais pesada do hip hop).

Outro elemento tornava o show mais especial: era a noite de abertura da edição 2012 de I’ll Be Your Mirror (IBYM), um dos eventos da família de festivais All Tomorrow’s Parties (ATP), conhecida por suas escalações vanguardistas, livres da obrigação de apresentar os sucessos do momento. Os organizadores das ATP geralmente convidam músicos, como os componentes do Sonic Youth ou do Portishead, para serem curadores. A segunda noite deste IBYM foi programada pelo Mogwai (não assisti pois do Mogwai quero ficar apenas com a memória de seu show no cais do porto do Rio em 2002, com aquela santa barulheira na qual submergi em algum lugar da platéia entre a Paula Toller e o Daniel Galera). Então o convite para o Slayer tocar no festival também significava uma declaração como esta: metal é música de qualidade, arte prafentex – é mundo que deve conviver bem com o resto da vanguarda musical contemporânea.

Dava para perceber esse novo status artístico olhando para o público. Longe está o tempo em que era possível identificar um fã de metal pela sua roupa ou seu cabelo. No IBYM havia calça skinny (muita, ainda) ao lado do x-large hip hop/skatista, ao lado do coturno punk e assim por diante, como se toda a história da cultura juvenil inglesa se reunisse ou embaralhasse num mesmo tempo. Cabelos brancos e curtos também eram encontrados facilmente em cabeças balançando agitadas ao som de “Angel of Death”. Afinal, o adolescente que tinha 15 anos quando escutou “Reign in Blood” em 1986 agora tem um pouco mais de 40. Eu tenho 52 e não me senti velho no local (como tenho me sentido em vários outros shows, onde pareço ter o dobro da idade do mais velho da platéia e do palco – é o preço que pago por manter minha curiosidade afiada como a de um garoto que está descobrindo o mundo agora). Sensação interessante de constatar que o que era antes marca de conflito geracional agora pode ser link entre todas as faixas etárias e os velhos se comportam de forma mais “doidona” que os novinhos. E todos usam essas bolsas de pano onipresentes nos “looks descolados” [como detesto essas duas palavras, “look” e “descolado”] deste início de verão olímpico inglês.

O ecletismo também era evidente nas estampas das camisetas: Deicide, Agnostic Front, Mastodon e até Burial. Cheguei atrasado, mas consegui ver o pré-doom do Sleep e o pós-doom do Wolves in The Throne Room. Um blog de metal só fez uma reclamaçõa:o vinho recém-lançado pelo Slayer, chamado – é claro – Reign in Blood, não estava a venda. Não senti falta: havia uma barraca com chá verde.

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