longe daqui – aqui mesmo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/07/2012

Quando me mudei para o Rio, em 1977, o Teatro Ipanema já era referência. Não peguei seus tempos heroicos, quando se transformou da casa de Rubens Corrêa em palco com linha estética vigorosa. Mas foi ali que vi alguns dos espetáculos mais marcantes: da estreia da “Página do relâmpago elétrico”, de Beto Guedes, a várias apresentações de “Aquela coisa toda”, do Asdrúbal Trouxe o Trombone. Era uma programação eclética, de “abertura”, espécie de pré-comemoração do final dos anos controlados pela Censura Federal. Só aos poucos fui entendendo a história daquele teatro. E assim, na minha arqueologia artística carioca, sempre acabava me deparando com os tempos em que, “todos os dias”, “todo mundo” via “Hoje é dia de rock”.

Essa peça de José Vicente era bem mais que fenômeno teatral: virou rito geracional, símbolo de época que descobria as viagens contraculturais mesmo sob tortura. Não dava para entender direito como aquele colorido manifesto de resistência hippie se manteve em cartaz com tanto sucesso em anos de chumbo. Eu me sentia como alguém que chegara atrasado numa festa estranha com gente esquisita: “Hoje é dia de rock” ficou envolto por anos na nebulosidade que cerca mitos distantes.

Semana passada, no reinaugurado Teatro Ipanema, o Asdrúbal Trouxe o Trombone (numa raríssima e emocionante reunião de todos seus componentes) me apresentou o texto da peça, livre de meus devaneios. Foi como se várias etapas da minha vida, e da cultura brasileira, estivessem remixadas num mesmo palco, que nos transportou não para o Rock in Rio, mas para aldeia de Minas Gerais. Viagem surpreendente. Regina Casé, lendo as falas da personagem Isabel, afirmou – com tom de inocente autoestima – algo assim: “quem nasce aqui só pode ser caipira”. Lembrei do Esquenta! que foi ao ar no domingo de São João, quando fizemos homenagem ao novo interior pós-caipira do Brasil, agora motor econômico nacional. Longo caminho desde “Hoje é dia de rock”, início dos anos 1970, quando o país se descobria pós-rural, pós-grotões: hoje também nos redescobrimos modernos, cosmopolitas – mas ainda temos um pé na roça (mesmo uma roça que ouve Elvis pelo rádio, ou Alabama Shakes pela internet), e podemos até cultivar a nostalgia de uma pureza doidona perdida.

Antonio Bivar, em “Longe daqui aqui mesmo”, seu delicioso livro de memórias (que traz o mesmo título de sua peça que estreou um pouco antes de “Hoje é dia de rock”), lembra o ambiente dos ensaios: “enquanto o elenco de “Longe daqui” representava uma comunidade, o de “Hoje é dia” podia se dar ao luxo de viver a experiência comunitária. E, fazendo esse laboratório, viajavam em grupo para Parati e às montanhas, a cata de uma aproximação maior entre eles, e eles e a natureza, tanto no sentido humano quanto no sentido cósmico. O elenco de “Hoje em dia” era mais aristocrático, o de “Longe daqui” mais pop. “Hoje em dia” em Ipanema, “Longe daqui” em Copacabana.” Ando cada vez mais fascinado por esse momento do Rio, quando a cidade vivia ebulição criativa inigualável, apesar de regime político medonho.

Em Brasília, um casal de censores disse pessoalmente para Bivar que não liberaria “Longe daqui”: “a peça é pornográfica e atenta contra a moral e os bons costumes, além de passar uma mensagem pessimista.” Para tentar a liberação com outro censor, seguiu a recomendação de Odete Lara para ser bem charmoso: “Telefono à recepção pedindo que me providenciem um secador. Lavo os cabelos, seco-os com o secador, agito-o com os dedos e pronto. Tipo Gal Costa.” Mesmo assim teve que mudar o final da peça, “com todo mundo se arrependendo da liberdade”. Incrível, parece uma viagem coletiva – censores e censurados – de ácido que, paradoxalmente, acabou produzindo muito daquilo que houve de mais consistente e experimental na cultura brasileira.

Recentemente, André Midani me presenteou com a audição de material nunca lançado do festival Phono 73. Só maluco beleza, inclusive Raul Seixas, em seus momentos de mais esplendorosa ousadia sonora, mesmo com a Censura ali colada, cortando os microfones de Gil e Chico em Cálice. Essa peculiar conjunção de repressão política com liberdade criativa ainda precisa de estudo aprofundado.

Em outro livro de memórias, “Verdes vales do fim do mundo”, Bivar descreve muitos detalhes do cotidiano dos brasileiros em seu exílio – mais ou menos imposto ou voluntário – londrino. Gil, Caetano, Dedé, Sandra, Sganzerla, Helena Ignês, Hélio Oiticica, Jorge Mautner, Zé Vicente, Cláudio Prado, Bressane, Peticov, Péricles Cavalcanti, Haroldo de Campos e tantos outros, mandando brasa. Incrível que Londres não tenha aproveitado a presença brasileira e só agora comece a se dar conta do que perdeu. Havia uma incompatibilidade entre as experiências aqui e lá. Como escreveu Isabel Câmara, outra grande dramaturga, na época: “Não aceitamos o the dream is over de John Lennon porque nosso sonho sequer começou. […] E ainda, sim, estou viva, apesar do horror. A travessia do deserto ainda salvará muitos de nós. Tudo está começando. É tocar o barco.”

Deixo de lado a nostalgia. Muita gente continua tocando o barco do sonho carioca. Tudo que, por exemplo, Ernesto Neto faz ou promove me parece confirmação de que hoje continua a ser dia de nosso rock. Por sinal, sua exposição “Não tenha medo do seu corpo”, abre terça-feira em São Paulo, depois de uma festiva “instabilidade existencial” em ateliê do Centro do Rio.

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