Rio Londres

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/07/2012

O Rio precisa ficar de olho em Londres. Claro, são cidades muito diferentes. Porém, como os Racionais cantam, periferia é periferia em qualquer lugar. Concordo, e acrescento: cidade é cidade em qualquer lugar. Todos os centros urbanos apresentam dinâmicas semelhantes, resultados da concentração de muita gente e muitos recursos (ou da falta deles) em pouco espaço geográfico. Hoje, são quase entidades com vida independente de seus países. Portanto, cada vez mais, qualquer cidade pode aprender com as experiências das outras, sobretudo quando passam por teste limite como a realização das Olimpíadas. Tudo que Londres fez e fará, antes e depois dos jogos, nos serve de lição. Olhando para o que ocorre lá, podemos pensar, não com muita calma: por que mesmo nos metemos nisso?

A revista The Economist, em “special report” sobre Londres, revela que a cidade justificou a aventura olímpica afirmando que os jogos revitalizariam uma de suas áreas mais pobres, em seu extremo leste, onde foram construídos muitos dos equipamentos a serem usados pelos atletas. É um mega do-in antropológico, com britadeiras. Veremos no que vai dar. Já é possível perceber algo do resultado, até porque a escolha do leste não foi arbitrária e sim aproveitou tendência que já transformava a cidade. Ninguém sabe direito explicar a razão para Londres, que perdeu um quarto de sua população desde a Segunda Guerra até os anos 1980, ter voltado a crescer na década seguinte.

Nesse novo crescimento, a arte atuou como vanguarda urbanística. Shoreditch, bairro então apagado no calendário cultural (a não ser para interessados na culinária de Bangladesh da rua Brick Lane – ou na padaria de bagel, da mesma rua, que foi locação exótica para fotografias de moda da saudosa revista The Face), virou destino cheio de hype. Atrás de aluguéis baratos, artistas se mudaram para seus arredores. Damien Hirst, sempre ele (não resisto e cito novamente a The Economist, que apresenta Hirst como “o gênio comercial que inventou a Brit Art”), foi pioneiro no estabelecimento de ateliê em Hoxton, bairro vizinho. Logo outros artistas vieram lhe fazer companhia – e até a galeria White Cube abriu instalações na Hoxton Square.

Artista atrai comércio bacaninha (como a loja de discos Rough Trade), bares, clubes noturnos – e isso atrai gente rica querendo dar uma volta no “wild side” criativo. Resultado: quase em frente ao centro cultural Rich Mix (onde hoje à noite acontece o evento Rio Occupation East, com artista cariocas), está sendo construída a Avant-garde Tower. Seu outdoor é explícito: “viva na torre residencial mais cool de Shoreditch”. Consequência: custo de vida mais caro, e nova migração de artistas, primeiro para Dalston, e até para Stratford, bairro que abriga o parque olímpico. E já insatisfação nostálgica, como a da revista Dazed and Confused, que este ano publicou capa com a pergunta “Is East London dead?” (todas essas citações são maneiras de declarar meu amor resistente por revistas de papel).

Não foi a primeira carona que a prefeitura de Londres e o governo britânico pegaram nessa recente etapa do nomadismo do cool, antecipando algo que talvez fosse acontecer “naturalmente” (a ocupação do lado leste pobre da cidade). O renascimento artístico de Shoreditch (local onde Shakespeare montou vários espetáculos, antes de se mudar para o Globe) já tinha sido aproveitado para programa muito esperto: a criação do Silicon Roundabout, com incentivo para estabelecimento de empresas de informática e novas mídias bem ao leste do centro londrino. É uma tentativa muito consciente de dar origem a um Vale do Silício inglês.

Parece que está dando certo. Há poucas semanas, participei do Digital Shoreditch, um seminário estilo pós-TED, que tem por objetivo estabelecer parcerias entre as empresas locais, divulgando seus trabalhos para fora. Fiquei impressionado com a diversidade de ideias: do futuro do entretenimento dentro de aviões até algo chamado “arquitetura 3.0”. Mesmo que termos como transmídia ou cross-plataforma tenham saído de moda, no fundo era disso (do encontro de nossas novas telas em breve totalmente geolocalizadas e “game-ficadas”) que todos falavam. Ainda vamos consumir muita coisa criaa por ali. Como o movimento “The new aesthetic”, fronteira final (até que apareça a próxima) da arte contemporânea, criação típica do novo leste londrino: um de seus QGs é o escritório do coletivo de design Really Interesting Group, do qual faz parte o guru tumblreiro James Bridle.

Na plateia interativa, fiquei com vontade de impressionar a todos com o “case” do vídeo das empreguetes em “Cheias de charme”, talvez a experiência transmídia mais popular já realizada no mundo. Seria referência “diferenciada” demais para quem vive em ambiente de vanguarda (a tv de massa pode ser mais vanguarda que a vanguarda?). Fiquei calado, confiante no talento carioca para mídia e comunicação. De volta ao Rio, tento descobrir se existe algum projeto ousado para também transformar nossa cidade em pólo de criação para o futuro certamente digital da humanidade (precisamos deixar de ser apenas consumidores vorazes de apps, redes sociais e interfaces corpos-máquinas). Alguma notícia? E o nosso Leste? Cais do Porto Maravilha? Santo Cristo? São Cristóvão? Barra? Será? Vamos fazer nossas Olimpíadas, isso é certo. Como aproveitar melhor oportunidade tão espetacular? Repito, mais específico e óbvio: é bom ficar de olho nos bastidores da festa londrina.

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