pouca e muita

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/08/2012

“A realidade é pouca.” Foi assim que Ferreira Gullar, em texto recente para a Folha de S. Paulo, fez a defesa de uma arte que não imita e sim inventa a vida (descobri que ele escreveu a mesma coisa em texto mais antigo). Muitos pensadores já fizeram declarações semelhantes: lemos romances, ou vemos Game of Thrones, pois nossa vida apenas não nos basta. Queremos mais, outras aventuras que o cotidiano não pode nos oferecer. Concordo. Mas como sou contraditório, ando cultivando sentimento oposto. A realidade é muita. Impossível dar conta de tudo que minha vida, mesmo limitada, propõe. O tempo é que é pouco para fazer o muito. Acabo deletando áreas completas de interesse, para poder me dedicar a outras com o mínimo de cuidado. É um trabalho cruel. Fico sempre culpado por estar deixando escapar tantas coisas interessantes.

Por exemplo: não consegui ver nada das Olimpíadas. Para ser sincero vi apenas uma pequena cena da abertura. Procurei no YouTube o momento em que Tim Berners-Lee – um de meus maiores heróis, que inventou a web e luta para mantê-la livre e aberta – aparecia no estádio inglês. Soube disso porque, mesmo sem tempo para eventos olímpicos, não resistia e acompanhava sua repercussão na imprensa. Desse modo ansioso, li também os artigos do Veríssimo e do Ai Weiwei sobre a abertura dos Jogos de Londres. Fiquei surpreso com suas observações parecidas, apesar de tons divergentes.

Veríssimo escreveu, com distanciamento muito refinado, sem deixar claro se gostou ou não do que viu: “Os ingleses decidiram ser ingleses ao ponto de ostentação. Nada de espírito olímpico, o festejado, e bem festejado, foi o espírito nacional.” Ai Weiwei – artista que participou da criação do projeto arquitetônico do Estádio Nacional de Pequim, mas retirou sua assinatura por não concordarcom a condução dos Jogos planejada pelo Partido Comunista Chinês – foi efusivo, totalmente a favor: “Em Londres, eles fizeram da cerimônia uma festa de verdade – eles têm orgulho de si mesmos e respeitam suas origens, da Revolução Industrial aos dias de hoje.”

Esses comentários me lembraram o debate sobre identidade nacional entre historiadores e cientistas sociais. Norbert Elias, em seu magnífico “O processo civilizador”, afirmou: “as perguntas ‘O que é realmente francês? O que é realmente inglês?’ há muito deixaram de ser assunto de muito debate para os franceses e ingleses.” No Brasil, como sentimos na pele, nunca paramos de nos perguntar “O que é realmente brasileiro?”. Inseguros, criamos muitas diferentes barreiras para nos defender do que vem de fora, como se qualquer guitarra elétrica pudesse ameaçar nossas “origens”. Alguns autores já insinuaram que afirmações nacionalistas são bengalas de países fracos, que nunca estiveram no centro da cultura mundial, ditando as regras e as línguas do convívio entre os diferentes povos.

Então me peguei indagando: a opção por uma cerimônia tão claramente nacionalista pode ser interpretada – ao contrário do que diz Ai Weiwei – não como demonstração de “orgulho de si mesmo”, mas sim de cansaço ou de decadência, com a volta com tudo da pergunta “O que é realmente inglês?”, que seria não apenas britânica, mas “ocidental”? Seguindo essa linha de raciocínio pós-Brics, a decisão chinesa de fazer uma festa global é bem coerente com sua nova posição de “dono do poder” (o que já se reflete no aumento do número de cursinhos de mandarim mesmo em escolas primárias europeias).

Luís Barrucho, jornalista da BBC Brasil, me mandou um email pedindo resposta para a seguinte pergunta: “Se eu fosse responsável pela cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio em 2016, o que eu mostraria e como eu organizaria essa festa?” Não tive tempo (a realidade é muita…) para fazer esse curioso exercício de ficção, que me deixaria em pânico. Porém, atrasado, depois de ler Veríssimo e Weiwei, agora sei que quero uma abertura bem diferente tanto da inglesa, com seu apego ao original, quanto da chinesa, com sua promessa de globalismo autoritário. Já fizemos bem (li na imprensa) o “remix de clichês nacionais”, do malandro ao maracatu atômico, na cerimônia de encerramento da Londres 2012. Em 2016, quero festa mesmo, animada, que saia do estádio e tome conta das ruas (se tem uma coisa que o Rio sabe fazer é colocar o bloco na rua) e da web.

Uma festa para esquecermos de vez a pergunta “O que é realmente brasileiro?” No lugar de contar para o mundo a história do Brasil, devolveremos ao mundo sua própria história, sua história verdadeira, onde a identidade nacional fez o que pode para escamotear a mistura de culturas que sempre foi o motor do futuro. A mistura vencerá. Existe notícia melhor, e mais fiel ao espírito olímpico, para dar ao planeta?

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