fatos

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 05/10/2012

Segunda-feira, ao abrir a secção Digital & Mídia deste jornal, encontrei a notícia: “Escândalos sobre artigos pagos abalou a Wikipedia”. Tenho ficado surpreso com o aumento do número de denúncias contra “a enciclopédia livre que todos podem editar”. Exemplos curiosos? Em setembro houve a carta aberta de Philip Roth exigindo que a Wikipedia modificasse o verbete sobre um de seus livros. Agora temos esse escândalo envolvendo um diretor do Conselho Curador da representação britânica da Wikimedia (a fundação que administra a enciclopédia), consultor de relações públicas que teria encontrado maneira de dar destaque para informações sobre Gilbratar (cujo governo seria seu cliente) na página principal da Wikipedia. Não se espante: é tudo bem complicado de entender/provar. Parece filme trash de espionagem internacional, sub-007.

Minha confiança na Wikipedia não ficou maior ou menor. Desconfio de qualquer informação, em qualquer mídia, tradicional ou não. Há casos de fraudes nas melhores redações. Sempre procuro pontos de vistas diferentes sobre qualquer fato. Como dizia uma velha canção dos Talking Heads: “fatos não mancham os móveis/ fatos saem e batem a porta/ fatos estão escritos sobre todo o teu rosto/ fatos continuam a modificar suas formas/ Eu continuo esperando…” Então continuo esperando evidências que comprovem que a Wikipedia está condenada a ser menos confiável do que outras fontes. Ainda venero minha Enciclopédia Mirador Internacional, pesadona. Mas descentralização e edição colaborativa têm outras vantagens.

Se Philip Roth, nos inúmeros verbetes sobre sua obra, só encontrou esse problema sobre quem teria sido a pessoa que inspirou a criação de uma de suas personagens, isso até me parece ponto para o processo de edição dos textos da enciclopédia online. Tudo poderia ser bem pior, não é mesmo? Anos atrás, em verbete precário da Wikipedia em português, percebi que a data da publicação do meu livro “O mundo funk carioca” estava errada. Nunca tinha editado nada na enciclopédia antes, mas foi fácil fazer a correção: cliquei no botão “editar” (há um ao lado de cada parágrafo), procurei no texto o ano errado e coloquei 1988 no seu lugar.

Não entendi a razão para Philip Roth não ter feito o mesmo. Sua carta aberta não esclarece se houve tentativa de revisão. Claro, pode ter editado o verbete e outra pessoa voltou com a informação suprimida. Assim teria que entrar na página de conversa sobre aquele verbete específico (todos têm página onde são discutidas divergências) e defendido sua versão dos fatos. Processo democrático, trabalhoso e demorado demais? Sim, democracia dá trabalho. Roth preferiu apelar para um “interlocutor oficial” (o que será isso? advogado?) que trocou cartas (?) com “o Administrador da Enciclopédia em Inglês” (qual deles?), cuja resposta não conhecemos inteira. Roth quis interagir com a Wikipedia como se ela tivesse um dono todo-poderoso. Só posso lhe dar um conselho: aperte o cinto de segurança, senhor Roth, pois o chefe de redação sumiu.

A Wikipedia não é perfeita. Alguns textos contêm erros cabeludos. Suas regras de edição podem ser manipuladas por espertinhos. A enciclopédia foi criada há apenas 11 anos. É obra em progresso, e uma experiência coletiva que, arrisco afirmar, nunca houve igual na história da Humanidade. Já se tornou patrimônio dessa pobre Humanidade, e de certa forma todos nós somos responsáveis por seu conteúdo (mesmo quando não melhoramos seu conteúdo por falta de tempo ou preguiça).

A Wikipedia é a cara da internet. O jornalista Andrew Smith, em texto sobre as origens da internet publicado este mês na Wired britânica, lançou ideia que vai virar meme: os destinos da internet e do programa espacial americano foram selados quando o presidente republicano (e ex-militar) Eisenhower deu o comando da Nasa e da ARPA (que criou a infraestrutura inicial da Rede) para civis malucos. A internet, na mão de outras pessoas, poderia ter nascido hierárquica, centralizada e censurável. No lugar disso ganhamos a criativa bagunça da qual a Wikipedia faz parte. Smith termina seu texto com sombria profecia: “a propagação de apps ponto-a-ponto, combinada com o clamor crescente acerca de copyright e pornografia, sugerem que seus dias anárquicos de faroeste podem estar chegando ao fim. Muitos de nós estamos apenas começando a entender que estranhas e sem precedentes foram essas poucas décadas que atravessamos recentemente.” Eu termino com outro conselho, agora não só para o senhor Roth: devemos aproveitar a liberdade enquanto é tempo, e lutar para que ela não desapareça só porque agora é mais difícil arrumar o mundo do nosso jeito.

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2 Respostas to “fatos”

  1. edesiofernandes Says:

    Caro Hermano Vianna,

    Como admirador de sua coluna, nao pude deixar de ficar algo decepcionado ao perceber que, na coluna de hoje – Wikipedia – voce aparentemente nao fez o seu “dever de casa” direito…. pois fez criticas ‘a atitude do Philip Roth sem aparentemente ter lido o que foi amplamente publicado nos jornais americanos e ingleses acerca do processo que levou ‘a carta aberta que ele publicou.

    Depois de tentar alterar a referencia errada naquele Website ‘a suposta inspiracao para um dos personagens que criou – como voce fez no que dizia respeito ‘a data de sua publicacao – ele teve sua tentativa recusada pelo editor do Website, que exigiu uma segunda “credible” fonte.

    A carta aberta foi entao o caminho encontrado – nao por arrogancia do autor – mas sim para mostrar o absurdo do sistema que nao aceita que o autor seja uma “credible source” suficiente para esclarecer suas proprias intencoes…

    Mais informacoes:

    http://www.guardian.co.uk/technology/2012/sep/19/why-philip-roth-needs-secondary-source?INTCMP=SRCH
    http://www.guardian.co.uk/books/2012/sep/11/philip-roth-wikipedia?INTCMP=ILCNETTXT3487

    Cordialmente,

    Edesio Fernandes

  2. hermanovianna Says:

    Caro Edesio Fernandes,

    Eu tinha lido os artigos do Guardian e vários outros. Continuo sem ter as informações completas para entender o que realmente aconteceu. A carta do Philip Roth apenas cita um trecho, que pode estar descontextualizado, da resposta do tal “administrador” da Wikipedia, que não sabemos exatamente quem é. Tudo me parece bem estranho…

    Cordialmente,

    Hermano

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