o tempo de Eno

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/10/2012

Brian Eno projetará, de hoje a domingo, 77 milhões de pinturas sobre os Arcos da Lapa. O número – 77 milhões (que está no título da instalação) – impressiona. Mas não espere avalanche frenética de imagens, como em videoclipe anos 80. As pinturas de Eno se sucedem lentamente, buscando produzir outra temporalidade, na contramão da disparada tecnológica que transformou nossa história contemporânea numa era de revoluções – quase sempre em vão – por segundo. A experiência pode ser pensada como um “corretivo” diante da diminuição “patológica” de nossa capacidade de atenção. Em entrevista, comentando a reação das pessoas – que chegaram a passar horas imersas na desaceleração dos sentidos – diante de outras montagens dessa mesma instalação, Eno profetizou com otimismo: estamos na verdade ficando mais capazes de focar (ou dispersar) nossa atenção em processos cada vez mais longos e “paradões”.

Não por acaso, Eno é membro do Conselho de Diretores da The Long Now, uma fundação que escreve nosso ano corrente como 02012 e quer estimular pensamentos sobre os próximos milênios. Já citei, no primeiro texto desta coluna, a conversa entre Eno e Will Wright (o criador do game The Sims – Eno compôs a música de “Spore”, outro jogo de Wright), um dos arquivos mais preciosos disponíveis na internet, cortesia da The Long Now Foundation. Numa de suas primeiras falas, Eno descreve – de forma resumida e provocativa – seu método de composição. Não é de “cima para baixo”, com a camisa de força de um todo pré-concebido imposta ao material sonoro; é mais como o trabalho de um jardineiro que lança a semente para ver o que acontece.

Ao contrário da música “narrativa”, linear, que tenta ostensivamente capturar nossa atenção (excitando-a ao extremo, como se estivesse numa maratona – sendo assim, a diminuição da capacidade de atenção é, paradoxalmente, atenção redobrada, anabolizada, que não consegue capturar nada), seu objetivo é criar um ambiente no qual podemos flanar despreocupados. Quem precisa de pressa?

Lentamente, porém viralmente, as ideias de Eno tomaram conta da realidade cultural contemporânea, cada vez mais semelhante a uma de suas instalações. Sua estreia na cena musical, com a banda Roxy Music, completa agora 40 anos. Desde aquela época se intitulava “organizador de eventos musicais”, um não-músico (hoje são muitos os não-músicos levando a música adiante; em 1972 tal atitude era novidade espantosa), que fazia “tratamento” nos sons dos outros instrumentos do palco. Ainda na década de 1970 partiu para carreira solo (e de produtor) exuberantemente heterogênea e influente: o disco “Music for airports” (com o manifesto da “música ambiente”), a triologia berlinense de David Bowie (e muito tempo depois o “Outside”, que sempre redescubro com maior admiração), o “My life in a bush of ghosts” (o primeiro – quando não havia sampler-  a samplear o folclore planetário?) com David Byrne , a primeira gravação da no wave, os lançamentos de maior sucesso comercial do U2, e muito mais. Chegou até a fazer o som para a inicialização o Windows 95, versão do sistema operacional da Microsoft.

Algumas das obras de Eno estão entre os discos que mais escutei (e que gosto de escutar) na vida (vale indicar “The Pearl”, lançado em parceria com o pianista Harold Budd). O não-músico é um dos meus músicos preferidos de todos os tempos, tão amado como Claudio Monteverdi, Dorival Caymmi, Miles Davis ou Lata Magenshkar. Como se isso não fosse o bastante, é também um dos pensadores – também de todos os tempos – com quem mais aprendo (dentro de uma linhagem que vai de Epicuro/Sófocles/Sêneca/Plotino a Cage/Caetano/Gil/Clarice/Deleuze). O que mais valorizo nas pessoas é a capacidade de ter boas ideias. E Eno não para de ter ideias cada vez melhores, nas áreas mais variadas (urbanismo, ciência, filosofia etc.)

Por exemplo: seu trabalho com música/pintura generativa (como a instalação que veremos na Lapa) transpõe questões de ponta da teoria da complexidade (como regras simples podem gerar sistemas cada vez mais complexos) para nossa vida cotidiana e educação de nossos sentidos. O que nos leva a reconfirmar algumas de suas intuições sobre o rumo que as coisas estão tomando. São palavras de Eno em 1992, mas a ficha ainda está caindo hoje: “a história é substituída por estórias, o curador se transforma num contador de estórias”. Por isso devemos aproveitar bem a presença desse excelente “storyteller” (termo da moda?) no Rio. Agradeço ao projeto “Outras ideias para o Rio” por espalhar tantas boas ideias/estórias (como é que bom se perder no labirinto transparente de Robert Morris em plena Cinelândia!) pelas ruas da cidade.

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