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texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/10/2012

No sábado passado participei de conversa pública com Brian Eno no Circo Voador (obrigado Marcello Dantas), bem atrás do trecho dos Arcos do Lapa onde ele projetou suas 77 milhões de pinturas. Sua fala mais surpreendente foi resposta para questão de Alê Youssef sobre a relação entre novas possibilidades de produção artística e ativismo político, principalmente em países com longo histórico de injustiças sociais como o Brasil. Nunca escutei elogio nacional tão objetivo e convicto. Nada de país do futuro. Para Eno já somos o lugar do planeta onde as experiências sociais e políticas mais avançadas acontecem, coisas impossíveis na China ou Reino Unido (as outras duas nações citadas, como referências comparativas). Aqui e agora. Simples assim.

Eu pensava que Caetano Veloso seria o único componente da banda “Artistas (quase não músicos) filhos de funcionários dos Correios e que amam os escritos de Roberto Mangabeira Unger“. Estava enganado. Eno, cujo pai era “postman” em  Woodbridge (a Santo Amaro da Purificação britânica?), também se revelou maravilhado com a leitura de Mangabeira, autor que conheceu através de citação de Richard Rorty, um de seus filósofos preferidos. Ficou mais impressionado com a descoberta posterior das conexões, mesmo turbulentas, entre Mangabeira e o governo brasileiro. Na Inglaterra, pessoas com ideias tão originais e radicais não poderiam ter nenhum laço próximo com a política oficial.

Outro brasileiro que Eno declarou admirar é José Júnior, do AfroReggae. Disse até que tem vontade de aprender português só para entender, sem tradução, o que Júnior fala. Ao que tudo indica, a admiração pode se transformar em projetos comuns. Interessante a configuração cultural que o Rio vem ganhando. Alan de Botton no Complexo do Alemão. Brian Eno em Vigário Geral. Seremos a nova Barcelona? É só hype?

Seja o que for: nossa responsabilidade, diante do mundo, já aumentou. Esse povo gringo todo espera de nós alguma lição (logo eu, falando por nós…). Antes, temos que encontrar maneira de explicar para o mundo o que somos, sem pudor. Não podemos tentar apenas agradar suas expectativas de civilização “avançada”. Pensei em indicar para Eno a leitura de Gilberto Freyre. Não deu tempo (mas talvez ele leia este texto, como leu o da coluna da semana passada, com a ajuda – geralmente engraçada – do Google Translate). Gilberto adorava jardins. Eno descreve o trabalho de jardineiro como atividade oposta àquela do arquiteto controlador, que conhece a forma final do edifício que vai construir. Os jardins incorporam o acaso, o imprevisível. Mas Gilberto ia além e classificava os jardins em dois tipos: o chinês, mais anárquico [“Irregulares, variados, cheios de imprevistos.”], e o francês, mais geométrico. O jardim brasileiro seria mais chinês, talvez com um grão de perverso barroquismo: aqui o ornamental, o pomar (e mesmo a horta medicinal) e o quintal se misturam, desafiando qualquer lógica, mesmo taoísta.

(Não sei onde eu estava com a cabeça, mas nas filmagens de Além-Mar, série de programas para TV sobre as terras onde se fala português, pedi para um imigrante angolano ler trecho sobre jardins de “Sobrados e mucambos” tendo como locação o Jardim de Lou Lim Ieoc, o mais bonito de Macau, onde Eugénio de Andrade escreveu os seguintes versos: “Deste jardim o que levo comigo / é um ramo de bambu para servir / de espelho ao resto dos meus dias.” Copiei Eugénio e também trouxe meu ramo, que me serve de marcador de páginas para seus livros.)

Eno se recusou a responder uma de minhas perguntas. Talvez tenha pensado que eu queria conversar sobre o Roxy Music. Não fui explícito: eu estava falando do Brasil. Simon Reynolds escreveu artigo sobre os 40 anos do lançamento do primeiro disco do Roxy Music. Defende que o visual glam não envelheceu bem (mesmo as capas seriam hoje politicamente incorretas), mas o som continua novo. Não concordo: quando vi a roupa que Eno usava nos shows do Roxy Music exposta no museu Victoria & Albert, achei tudo novíssimo e bem brasileiro. Onde anda aquela extravagância na sua obra atual? É um anjinho barroco enrustido dentro um “armário” minimalista?

Arto Lindsay, que também participou da conversa no Circo Voador e conhece Eno desde que ele produziu o disco No New York, depois veio ponderar: as roupas e os batons usados no Roxy Music foram uma aventura juvenil, em ambiente que exigia homens mais femininos; aquilo não teria a densidade estética que eu estava imaginando. Porém, penso eu, a não resposta à minha pergunta indica a vontade de uma ruptura extrema, como se tal passado não tivesse nenhuma consequência no artista de hoje. Estranho: Eno para mim se torna artista muito mais interessante justamente por ter tido aquele passado, que percebo ainda atuante, mesmo negado, na sua obra atual. Tal ideia só ganha força dentro de mim: desenvolvi mais uma teoria do antropólogo doido que tenta explicar os problemas do mundo atual, e a missão do Brasil, com o tal armário minimalista dominante (mesmo quando há modinhas maximalistas). É coisa séria, maluca e longa: fica para outra coluna.

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