onças na W3

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 07/12/2012

Marco Veloso – artista plástico e filósofo da arte – sempre me apresenta o que preciso conhecer. Faz isso há muito tempo, desde nosso encontro nas Ciências Sociais da UFF, mais especificamente nos cursos de Cláudio Ulpiano e Clauze Abreu (que saudade dos dois – ninguém os supera dentro da sala de aula: eram essencialmente professores, os melhores que se pode ter; seus alunos nunca esquecerão seus ousados ensinamentos). Mesmo diante de tantas novidades, Marco dava jeito de sozinho descobrir autores que na época quase ninguém comentava. Como Vilém Flusser ou Arthur Danto, hoje na última moda. Por isso, cada vez que me anuncia novo nome, encaro tudo como ordem: Leia! Não é bom adiar o dever de casa.

Nos tempos de universidade, atravessando diariamente a Baía da Guanabara de barca, era fácil receber suas lições. Hoje, a vida anda corrida, cheia de distrações e perturbações. Por isso foi maravilha reencontrar o Marco semanas atrás no tempo diluído de evento já bem comentado por aqui: as projeções de Brian Eno nos Arcos da Lapa. Era o lugar certo para colocar a conversa em dia, com toda a calma do mundo (sem desrespeito: Eno diz que suas obras podem ser usadas para realizarmos melhor tarefas cotidianas).

Naquele ambiente, eu me sentia onça segundo Guimarães Rosa, que “pensa só uma coisa – é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar.” Ainda assim, com distanciamento saudável, falei sobre teoria nova que anda ocupando espaço cada vez maior nesta coluna: a que diz que o mundo caminha para o beleléu. Marco, também sem niilismo (como convém para aluno de Ulpiano e Clauze), concordou, e logo deu rumo denso para nosso diálogo com apresentação típica: “você conhece Samuel Rawet?” Alerta: não conhecia, mas já sabia que seria necessário conhecer. Não precisaria de argumento adicional para me convencer, porém Marco, advogando que Rawet teria criado talvez a única filosofia original brasileira junto com a antropofagia de Oswald (mas agora já não tenho certeza de que isso não é adendo meu), citou sua tese mais impressionante: “as eras da violência já passaram. Vivemos uma nova era: a da cafajestice.” Também me disse que Rawet tentou inventar uma “estética da traição”. Pesado?

Ao voltar para casa, passei a madrugada no Google, buscando Rawet (depois Fernanda Montenegro, amiga dele desde suas adolescências, me ensinou a pronúncia correta: é “rávét”, oxítona leve e – Caetano pode ficar tranquilo – sem “r” retroflexo). Percebi, pela quantidade de teses sobre sua obra, que houve tentativa recente de “resgate”. Neste início de século foram editados livros – “Contos e novelas reunidos” e “Ensaios reunidos” – tornando acessíveis publicações antes desaparecidas das livrarias. Apesar desses indícios auspiciosos, logo descobri que nada é permanente: não foi fácil comprar esses lançamentos. Já parecem condenados a se tornar novamente raridades.

Pena. Rawet, fui aprendendo com cada vez mais espanto, é sem dúvida nenhuma um dos autores mais importantes e originais que tanto a literatura quanto o pensamento brasileiro já produziu. Se tivesse editora inglesa ou francesa, também não tenho dúvida, uma novela brilhante como “Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um que já passou porque sonhado”, que teve sua primeira edição em 1970, ou ensaio como “Walter Benjamin, o cão de Pavlov e sua coleira, e o universo dos rufiões”, publicado em 1978, seriam objeto de culto mundial exaltado (ou motivo para criação de seita mística) como um filme de Alejandro Jodorowsky ou um tratado de Terence McKeena.

Tudo em Rawet para mim é novidade interessante, formando conjunto muito estranho: judeu, homossexual (publicou ensaio pioneiro sobre o assunto em 1970), nasceu na Polônia em 1929, passou juventude no subúrbio carioca (atenção querido Marcus Faustini, se ainda não conhece, leia esse cara: há ali um guia afetivo [afeto da pá bem virada] da periferia, que inclui “a viagem de bonde do Largo da Cancela ao ponto de parada da Rua Uranos, perto de uma loja com o nome de Kramer”), depois engenheiro (fez sozinho os cálculos do prédio do Congresso Nacional), passou por tratamento com eletrochoques, morreu numa cidade satélite de Brasília.

Ninguém consegue imitar seu estilo. Os ensaios, por exemplo, dão saltos vertiginosos entre um assunto e outro. Por exemplo: logo depois de decretar que vivemos a era da cafajestice (quem pode negar?), ele pega um atalho candango: “E realmente, além da escala Richter dos terremotos, uma coisa me atemoriza: um possível passeio de todas as onças goianas e matogrossenses pela W-3.” Bom, bonito.  Fico devendo mais essa ao Marco.

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