aprendendo coreano

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/01/2013

Quando morei em Chicago (1991), conheci pessoas que, influenciadas por notícias violentas, nunca tinham pisado em Nova York. Eram jovens, com boas universidades no currículo e saldo bancário para viagens. Mesmo assim só se sentiam protegidos no “Meio-Oeste”. No quadro de sua pureza provinciana o que mais me impressionava não era a baixa milhagem, mas sim fenômeno linguístico bem estranho. Alguns deles me confessaram: não apenas não possuíam lembranças de música em português como também não recordavam exposição a qualquer artefato cultural cantado/escrito/filmado em outra língua fora o inglês. Como funciona o cérebro que só teve que lidar com palavras de um único dicionário? Penso nesses queridos caipiras sempre que escuto “Gangnam style”. Agora seus neurônios foram obrigados a processar informações em coreano. Como foi o choque “embromation”?

“Gangnam style” é sinal que o mundo vai ficar cada vez mais parecido com São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais poliglota que conheço. Nesse caminho para o futuro, 2012 foi o ano da Coréia. Todos já devem conhecer a história do sucesso pós-viral de mais de um bilhão de views, recorde absoluto na internet. Mais bacanas, como sempre na cibercultura, foram os vídeos respostas/paródias. Vi milhares de americanos embromando a letra sem entender uma palavra, repetindo brincadeira que antes era privilégio de povos periféricos. Engana-se quem pensa que é bloco do hit sozinho. Sai da frente porque atrás vem muito pop coreano, o k-pop.

Antes mesmo de todo mundo ter aprendido a dancinha do cavalo, ídolos coreanos já lotavam estádios (inclusive no Brasil, vide o concerto da cantora G.NA e dos grupos Beast e 4Minute em 2011) com fãs enlouquecidos. Procure, por exemplo, “k-pop” na Wikipedia em português. São centenas de verbetes, muitas vezes mais detalhados do que aqueles sobre MPB. Há inclusive textos enormes sobre canções específicas, como (minha preferida em termos de fofura) “Gee” da Girls’ Generation, ou sobre a biografia de membros de boy bands, como o incrível G-Dragon, estrela talvez principal da Big Bang (onde todos os membros têm potencial Lady Gaga). “Gangnam style” saiu da internet e conquistou as rádios. Os outros nomes do k-pop não precisam de mídia tradicional (incluindo discos) para sustentar seu fidelíssimo culto global.

Abordando a nova indústria cultural coreana, uma reportagem (que pode ser ouvida na internet – quem me avisou foi o Ronaldo Lemos) da NPR, rádio pública americana, entrevistou funcionário do Google especializado em “tendências” asiáticas. Ele afirma que as gravadoras de Seul foram também pegas de surpresa quando descobriram que os vídeos lançados para consumo nacional estavam sendo vistos majoritariamente na Europa.

Nem tudo aconteceu espontaneamente. O crescimento do k-pop, assim como o do novo cinema coreano (que não é só “de arte” e produz também as maiores bilheterias – superando blockbusters americanos – em seu país) recebeu apoio governamental, que enxerga nas artes elemento importante de sua economia voltada para exportação. A história das gravadoras coreanas, que desenvolveram seu megamodelo de negócios em menos de 20 anos, reflete a trajetória da economia de tigre asiático. A renda per capita da Coréia, que era US$ 72 no início do anos 60, em três décadas ultrapassou US$ 16 mil. O mundo aprendeu a comprar Samsung, LG ou Kia (e a Topic quase virou sinônimo de van no Brasil). Uma cultura considerada “cool”, atraente para jovens de todos os continentes, torna esses produtos ainda mais vendáveis.

Muito interessante é constatar que o sucesso cultural não se restringe ao pop ultracomercial. Citarei apenas o caso da dupla de artistas plásticos Moon Kyungwon e Jeon Joonho, que participaram em Documenta de Kassel em 2012 com um dos trabalhos mais comentados, a instalação “El fin del mundo”, que é parte da plataforma “News from nowhere”. No livro desse projeto é possível ter acesso a um mundo fervilhante de pensamento com o qual temos pouco contato, do cineasta Lee Changdong, que foi ministro da cultura, ao estilista Jung Kuho, passando pelo monge budista Misan.

Como sempre, fico torcendo para que possamos estabelecer laços diretos entre culturas do mundo inteiro, sem precisar de instituições do velho primeiro mundo (como a Documenta) para nos fazer as apresentações. Se não é para facilitar trocas realmente descentralizadas, para que a internet existe?

***

Domingo é 6 de janeiro. Rodrigo Veloso, irmão de Caetano, sempre surpreendia Dona Canô com festejo para os Santos Reis. Agora virou missão nacional: continuar surpreendendo Dona Canô com ternos e folias Brasil afora. Amor. Festa. Devoção.

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Uma resposta to “aprendendo coreano”

  1. Roberto Maxwell Says:

    Vejo tantas coisas fenomenais aqui no Japão e, ainda, na Ásia e não entendo as pessoas no Brasil só conhecerem o que a grande mídia oferece. Até o Gangnam Style é exeção à regra porque, de verdade, não foi o sucesso no YouTube que levou o negócio a explodir mas, sim, quando começaram a repercutir o sucesso através das mídias sociais, sim, porém com gente de ‘nome’ nestas novas formas de trocas da internet. Portanto, ainda passa pelo filtro US/UE. De qualquer modo, sempre me ofereço com canal e, claro, com repercussão mínima. Mas a ideia é a mesma: ser um link direto entre o Japão e o Brasil.

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