perigo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/01/2013

Sexta-feira passada foi dia sombrio na internet. Sendo preciso: o problema começou na noite de quinta-feira, quando o departamento de “Homeland Security” do governo dos EUA recomendou a desabilitação do Java de nossos browsers. O período de notícias ruins se estendeu até a manhã de sábado, quando soube do suicídio de Aaron Swartz. Apesar da pouca idade (26), ele teve (e continuará tendo) importância decisiva para o modo como está organizado o melhor de nossa vida on-line. Nesta semana, minha tarefa foi refletir sobre a fragilidade extrema de tudo que contamos como garantido.

Sou muito influenciável. Levo a sério decretos de autoridades. Nunca tinha visto governo com posição tão explícita contra um programa de computador. Sou usuário (é o mesmo termo para drogados) que não teme mudar as “configurações avançadas” (escondidas) dos softwares. Até conserto sozinho o hardware. Meio em pânico, não entendi direito qual era o risco e, além do Java, desabilitei também o JavaScript (como leigos vão saber que não são a mesma coisa?) Nossos afazeres domésticos andam cada vez mais insuportavelmente complexos. [Aqui instruções para quem quer desabilitar ou desinstalar o Java de seu computador e de seu browser.]

Ali começaram outros problemas (e até a finalização deste texto, não há solução confiável para o bug do Java ). O Yahoo, por exemplo, parou de funcionar. Tive que fazer downgrade para versão antiga, reaprendendo comandos esquecidos. Alguns recursos já banais desapareceram. Como mandar email sem autocompletar os endereços? Pensei ter voltado para a ciberidade da pedra (e olha que uso email desde quando não havia web – para enviar mensagens era necessário decorar vários comandos Unix).

Sites como o Twitter simplesmente se tornaram inoperantes. Ao tentar acessá-lo recebia apenas o aviso: “O Twitter faz uso pesado do JavaScript. Se não pode habilitá-lo no seu browser, você deve ter uma experiência melhor no nosso site para celular.” Como viver sem trending topics no laptop? Como controlar a síndrome de abstinência? Autodiagnóstico: nunca pensei que era dependente de tanto serviço baseado nesse tal de JavaScript.

Pelo menos o vacilo foi meu: eu que desabilitei o Java – posso reabilitá-lo se não aguentar o cold turkey (como fiz com o JavaScript, que – depois descobri – também tem seus problemas). Li que os usuários de Mac receberam tratamento diferenciado. A Apple desabilitou remotamente o Java de quem possui seu sistema operacional mais recente. Desta vez foi para “nosso bem”, para facilitar nossas vidas, para poupar-nos de erros, para nossa proteção (lembrei da música da Plebe Rude). Mas é perigo óbvio: e se nossos fabricantes de computador puderem decidir tudo a que devemos ter acesso “sem risco”? Paranoia tipo Philip K. Dick?

Aaron Swartz dedicou sua vida para combater essa paranoia, inventando ferramentas que aceleram a livre circulação da informação pela rede e aumentam o poder dos usuários contra grandes empresas/governos. Com 14 anos, foi um dos principais criadores [depois de publicar a coluna descobri que ele foi co-autor da especificação do RSS 1.0, seja lá o que isso for] do RSS (do qual sou dependente – não visito mais nenhum site, os feeds de RSS trazem notícias e posts que me interessam; foi assim que soube do seu suicídio, mesmo com meu apagão do JavaScript, que fez meu leitor de RSS, o Google Reader, parar de funcionar). Essa foi apenas sua primeira criação importante (leia resumo de sua vida na coluna de Pedro Doria publicada terça-feira neste jornal, que deu foto de Aaron na primeira página).

Em fevereiro, aconteceria o julgamento que poderia condenar Aaron a três décadas de prisão. A acusação (nada ainda foi provado) era de ter roubado alguns milhões de artigos acadêmicos cujo acesso é comercializado a peso de ouro por uma organização chamada JSTOR. A intenção (também não provada) seria distribuir esse conteúdo livremente na internet (mas tudo não saiu de seu laptop). A perspectiva de ser preso (muita gente diz que o objetivo era usá-lo como bode expiatório contra hackers e “pirataria” – os procuradores responsáveis por seu caso precisam ser investigados – mas o sistema legal caduco é o que mais necessita de revisão urgente) e anos de convívio com depressão devem ter sido os motivos do suicídio.

Perdi a oportunidade de conhecer Aaron pessoalmente, quando esteve no Rio há quatro anos, e ficou hospedado na casa do Ronaldo Lemos. Como era muito jovem, pensei que seria fácil encontrá-lo em outras ocasiões. Lição: não deixe para hoje o que poderia ter feito ontem. Ronaldo, em coluna da Trip, publicou entrevista feita durante a visita brasileira. Vale a pena reler o trecho sobre escola. Ronaldo também me passou o link para post onde Aaron comentava os 100 livros que leu em 2008. Fiquei dependente dessa lista publicada todos os anos. A de 2012 não saiu. Vamos ter que conviver com essa nova abstinência. Terrível perda para quem acredita no potencial criativo da internet.

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