meteoros

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/03/2013

Vladimir Sorokin já foi chamado de Quentin Tarantino ou Marquês de Sade da literatura russa contemporânea. Prefiro chamá-lo de Fausto Fawcett de Moscou menos 40 graus. Quem me conhece sabe não tenho elogio melhor. Outras pessoas, menos exaltadas, decretam apenas que ele será o próximo Roberto Bolaño (isto é: obrigatório em rodas intelectuais chiques, assim como um caramelo com flor de sal). Os sinais de sua iminente celebridade global são claros. Em 2011, foi “escritor em residência” em Stanford. Este ano, concorre para o Man Booker International Prize que será anunciado dia 22 de maio, em jantar no museu Victoria & Albert, Londres.

Mas não foi instinto cool hunter que me levou a escrever agora sobre sua obra. O impulso veio de acontecimento pouco literário: a queda do meteoro sobre Chelyabinsk. Quando vi a fotografia do buraco na crosta de gelo do lago da região, aberto provavelmente por fragmento da estrela cadente, fiquei assustado: era imagem exatamente igual a que se formou em minha mente ao ler “Trilogia do Gelo”, de Sorokin. A farsa ficcional se repete em tragédia real?

“Trilogia do Gelo”, por sua vez, começa com a enorme explosão que ocorreu perto do rio Podkamennaya Tunguska, na Sibéria, em 1908 – e ficou conhecida como o “evento Tungus”, mote para tanta piração quanto o “incidente de Roswell”. Tem gente que acredita foi uma espaçonave alienígena que explodiu no ar. “Bro”, o primeiro livro da “Trilogia do Gelo” começa justamente com o efeito longínquo do “evento Tungus” no parto prematuro de Alexander Snegirev, em fazenda perto de São Peterburgo. Alexander, quando entra em contato com o Gelo, aprende que seu nome verdadeiro é Bro.

A trilogia, como outros livros de Sorokin, tem nível de bizarrice também explosivo. O meteoro seria uma grande bola de gelo que ficou escondida no fundo de lago siberiano. Bro descobre sua localização e utilidade: pedaços do Gelo acoplados a tiras de carne de cachorro viram martelos capazes de acordar os corações das 23 mil pessoas louras e de olhos azuis que formam a Irmandade da Luz Primordial, incumbida de preparar a destruição da Terra, cuja criação – com água instável, no lugar da ordem do Gelo – foi um grande erro e constitui anomalia maligna que, se não extirpada, vai acabar com a harmonia do resto do universo.

Olga Drobot, personagem decisiva no final da trilogia, pergunta se a Terra, por ser única, não é um milagre. Seu amigo alemão Ernest Wolf (que antes já tinha descrito a Rússia como um “buraco metafísico”) lhe responde com calma: “Milagres são anomalias, Olga. E qualquer anomalia é uma violação do equilíbrio, uma destruição da ordem. Uma linha reta pode ser traçada entre dois pontos, através de três, através de trinta e três. Mas não há sentido em traçar uma reta com um só ponto. Porque um ponto é só um ponto. Não é um caminho.”

É preciso suportar essa paródia séria, e muitas vezes irritante, de literatura new age, para atravessar as 694 páginas da trilogia. Há também debate na crítica russa sobre a especificidade da escrita de Sorokin: é uma volta ao absurdo? Tendo a concordar com outro partido, o que fala da volta do realismo, e de uma narrativa linear, depois das experimentações mais tipicamente pós-modernas dos seus primeiros livros. Tudo, mesmo os martelos de Gelo absurdos, são descritos com naturalidade, como se fossem as coisas mais normais do mundo, tão corriqueiras quanto um cachorro chamado Fidel (ou um poodle Arto), um executivo que usa isqueiro Gucci e só escuta Leonard Cohen, ou poster stalinista “Mulheres Soviéticas, Luta contra Preconceitos Burgueses” condenando manicures, batons, rouge e mesmo o costume de se raspar as axilas ou fazer as sobrancelhas. No fundo, a trilogia é um panorama realista dos absurdos da história do século XX, sob o ponto de vista de uma sociedade que tentou ser comunista.

Sorokin nasceu em 1955. Sua geração produziu os movimentos de arte “underground” dos anos 1980, que anteciparam – em clima punk – o final da União Soviética. A liberdade conquistada de repente, sobre os escombros de uma velha ordem que parecia eterna, logo revelou novos problemas no ritmo frenético de uma série de crises BRICs. Protestos e processos tentaram proibir a circulação de livros (sobretudo o que trazia cena de clone de Khrushchev sodomizando clone de Stalin) ou a estreia de ópera do Teatro Bolshoi escritos por Sorokin. É o fim da história, mas não como a vitória da paz capitalista. O autor da “Trilogia do Gelo” declarou para o New York Times: “O que está acontecendo agora não é estagnação, é destruição, é colapso.” Meteoros gelados não têm poder algum: nunca mais teremos a simplicidade e o repouso da ordem.

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