mais código

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/03/2013

Muitas vezes esta coluna aborda assuntos que aparentemente só são interesse de minoria. A vontade de divulgar aquilo que pouca gente conhece é consciente. Estou experimentando o experimental, falando sobre o que também é grego para mim, mas onde intuo linguagem comum no futuro, artigo que será de primeira necessidade. Isso é a tese, a carta de intenções. A realidade acontece diferente. Igualmente muitas vezes, logo depois de publicar texto sobre novidade que considerava totalmente esotérica, descubro multidão que só pensa naquilo, com militância exaltada. É o que Ágata, personagem de “O homem sem qualidades”, denomina “salvação pela estatística”.

“O homem sem qualidades”, de Robert Musil, é provavelmente meu romance preferido. Já citei várias vezes esta passagens que tem tudo a ver com a surpresa de descobrir o “vem com tudo” geral do que considerávamos apenas idiossincrasia secreta: “quem ousaria pretender hoje que a sua cólera seja verdadeiramente sua, quando tanta gente lhe vem falar dela e a compartilha até numa medida maior que a dele? […] chegar-se-ia mesmo a pensar que o homem, no caso ideal, acabará por já não dispor de uma experiência privada e que o fardo suave da responsabilidade pessoal se virá a dissolver na álgebra dos significados possíveis.” Foi mais ou menos – em estatística tudo tem margem de erro – assim que me senti ao defender aqui o estudo obrigatório de linguagens de programação de computadores nas escolas.

Pretensão: achava que estava levantando bandeira inédita, pura provocação algo absurda. A coluna tratando desse tema foi publicada 2 de fevereiro. 24 dias depois apareceu no YouTube um vídeo chamado “O que a maioria das escolas não ensina”. Virou viral rapidinho: já tem mais de 10 milhões de views. É uma produção da Code, organização dos EUA, estrelada por Bill Gates, Mark Zuckerberg, o jogador de basquete Chris Bosh, o músico (bem amigo do Brasil) Will.I.Am, entre muitos outros. Tudo é bem pop, animado, clipado. Muita gente repete que para escrever código ninguém precisa ser um gênio. Várias cenas tentam seduzir jovens mostrando como locais de trabalho nas empresas de tecnologia são “irados”.

A página de web da Code abre com o lema: “Todo estudante em toda escola deveria ter a oportunidade de aprender a fazer código”. Logo abaixo há o convite: “se você concorda, assine o seu nome”. Mais de 500 mil pessoas já assinaram. Na mesma página conhecemos “líderes e trendsetters” que apoiam a campanha.  Time poderoso: além dos Bill, Mark, Chris e Will acima, encontramos Bill Clinton, Richard Branson, Ashton Kutcher, Stephen Hawking, Snoop Dogg, Enrique Iglesias e até Arne Duncan, ministro da Educação dos EUA. Dá para pensar: se eles não conseguem, como a gente aqui vai conseguir?

O desafio é imenso. Clique na aba “Stats” no site da Code. Ali aprendemos que 9 de 10 escolas americanas não oferecem nenhum curso de programação. O primeiro gráfico é o mais estarrecedor: mostra uma projeção comparando números de empregos em computação com o de estudantes de ciências da computação. Em 2020 haverá 1,4 milhões de empregos para 400 mil estudantes. Resumindo: é uma oportunidade de 500 bilhões de dólares praticamente desperdiçada. Não sei se existem dados semelhantes para a situação brasileira. Imagino rombo maior.

Depois de publicar aquela primeira coluna sobre o ensino de programação na escola, eu descobri praticamente todos os dias um link para desdobramento estimulante da conversa (e nem vou me meter por enquanto no bom diálogo entre João Moreira Salles e Michel Laub sobre a falta de estudantes para cursos brasileiros de engenharia). Por exemplo: a coluna do escritor de ficção científica Cory Doctorow no superblog Boing Boing me mostrou (como vou viver sem o em futuro breve “aposentado” Google Reader? recuso-me a mudar para um Twitter que menospreza nossas inteligências) a palestra de Mitch Resnik, do Grupo de Jardim de Infância para Toda a Vida do Media Lab do MIT (o lugar onde foi criada a Scratch, linguagem de programação infantil já citada aqui na coluna), concordando “comigo”: “as crianças devem aprender programação tanto quanto ler e escrever”.

No Mashable, outro superblog, encontrei a seleção de dez inovadores com menos de 15 anos que criaram apps incríveis para smartphones. Tem até um menino que desenvolveu sua própria rede, a Grom Social, depois de ter sido proibido pelos seus pais de entrar no Facebook (a idade mínima por lá – pouca gente respeita isso – é 13).

Fico torcendo para encontrar garotas e garotos brasileiros em futuras listas como essa. O que estamos fazendo para que isso aconteça?

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Uma resposta to “mais código”

  1. Tambores da Selva» Percussões » Atividade. Prática. Disciplina. Técnica. Ofício. Says:

    […] Vianna cita hoje em sua coluna semanal no Globo que em 2020 nos Estados Unidos haverá 1,4 milhão de empregos em computação e […]

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