zoom back camera 2!

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/04/2013

Alejandro Jodorowsky – estrela desta coluna desde a semana passada – foi apresentado para o público nova-iorquino por Lennon e Yoko. O casal da Plastic Ono Band, no final da exibição de seus curtas, convidou a plateia para ficar no Elgin Theatre e assistir a “El Topo”. Estavam presentes vários “formadores de opinião” da cidade, que ainda era o centro do mundo. Resultado: o sucesso foi tão grande que esse estranho filme de cowboy ficou em cartaz por um ano, inaugurando um novo gênero/horário, os Midnight Movies.

Era programa obrigatório. Andy Warhol adorava a cena do beijo entre duas mulheres. Peter Gabriel concebeu o show de “The lamb lies down on Broadway”, disco lançado quando era cantor do Genesis, sob a influência de “El topo”. Sergio Leone procurou Jodorowsky para obter informações sobre como conseguiu realizar aquelas cenas sem gruas. Carlos Castaneda propôs versão cinematográfica de suas aventuras com Don Juan, mas a conversa foi interrompida com o autor de “A erva do Diabo” saindo apressado alegando súbita diarreia (segundo Jodorowsky, ele fugiu com atriz de “A montanha sagrada”). Tudo gente fina. Todos inventores do espírito daquele tempo desbundado.

John Lennon também apresentou Jodorowsky para Allen Klein, que comprou os direitos de “El Topo” e conseguiu dinheiro para “A montanha sagrada”. Klein é figura fascinante e polêmica. Foi mais ou menos empresário do Sam Cooke, dos Rolling Stones, dos Beatles. Tomava conta da aplicação do dinheiro dos componentes dos Beatles quando eles se separaram. Foi quem mandou o roteiro de “A montanha mágica” para George Harrison, que quase aceitou ser o protagonista desse filme. Depois do lançamento em Cannes, continuava empolgado. Queria ganhar muito dinheiro com Jodorowsky entrando no filão de filmes quase ou pós-pornôs como “A garganta profunda”. O diretor parece que desapareceu com o adiantamento. Klein tirou “El Topo” e “A montanha sagrada” de circulação por mais de três décadas.

Jodorowsky é Polyanna num nível punk ou dionisíaco, não se deixa abalar por nenhum problema. Contra Freud ou mesmo Buda, ele afirma o tempo todo a maravilha de ter nascido. São suas palavras: “Não existe iluminação. Somos todos iluminados. Estamos vivos.” Como Caetano, ele se diz adolescente. E completa sua autodefinição: “Não sou místico, não sou artista. Sou alguém que joga jogos. Um apostador.” Detalhe importante: apostador que aposta alto, e queima rios de dinheiro com lances sempre surpreendentes.

Nasceu no Chile. Chegando na França de madrugada numa estação de trem a primeira coisa que fez foi ligar para André Breton. “Vim salvar o surrealismo.” Queria encontrá-lo imediatamente, mas Breton sugeriu a manhã seguinte. Jodorowsky ficou indignado com o adiamento, e foi procurar outra turma. Trabalhou com Marcel Marceau. E depois com Fernando Arrabal, com quem montou uma série de espetáculos chamados “Evento pânico” (em homenagem ao deus Pã), obrigatórios na Paris dos anos 1960 como foram as exibições de “El topo” na Nova York dos anos 1970 (ou como foi a apresentação de “O boi no telhado” na Paris dos anos 1920 – ver o livro de Manoel Aranha Corrêa do Lago, já elogiado aqui neste cantinho por José Miguel Wisnik). Muitos desses acontecimentos estão descritos em “A dança da realidade”, autobiografia de Jodorowsky lançada no Brasil pela editora Devir.

Banido por Allen Klein, Jodorowsky aproveitou para tocar com Moebius, sumidade da ilustração de novelas gráficas, seu projeto mais querido: um filme baseado em “Duna”, ficção científica de Frank Herbert. A Documenta de Kassel publicou no ano passado um caderno de Jodorowsky que traz a palavra Duna na capa, com estudo sobre o tarot como conteúdo, mas há material abundante – em muitos outros cadernos – com desenhos de todas a cenas que nunca sairam do papel. Tanto esforço para nada poderia ser encarado como grande derrota por outros criadores. Para Jodorowsky e Moebius foi incentivo para aquela que é talvez a obra prima da carreira dos dois: a publicação de “Incal”, que em 2012 ganhou edição integral no Brasil (reunindo os três volumes lançados separados anteriormente). É uma história de Tudo, uma explicação para Tudo.

Moebius, no documentário “A constelação Jodorowsky”, diz que o cérebro de seu parceiro de “Incal”, funciona como 3.000 computadores loucos. Uma das vítimas de sua loucura sagrada (para Jodorowsky as máquinas são sagradas) foi Louis Mouchet, diretor desse documentário, que teve que sair de trás das câmeras para virar o centro de uma sessão de psicomagia. Novamente o encantamento às avessas: “zoom back camera.” Para Jodorowsky a realidade dançante é sempre o melhor de Tudo.

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