cantar e zoar

versão ligeiramente modificada de texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/05/2013

Quando escuto alguém falando maravilhas sobre colégios públicos brasileiros de antes dos anos 1950, sempre pergunto: qual a porcentagem das crianças em idade escolar que estava matriculada naquele tempo? Havia sim qualidade em algumas salas de aula, e até o ensino de latim ou bordado. Mas esse serviço, incluindo as palmatórias, era privilégio de uma minoria. Da década final do século XX para cá, convivemos com a inédita universalização do acesso à escola, num país com população muitas vezes maior, no meio de uma baita crise mundial de fundamentos pedagógicos. Claro que todo o processo aconteceu aos trancos e barrancos. Vai demorar ainda muito tempo para haver nivelamento qualitativo geral, se é que isso vai acontecer numa realidade ostensivamente mutante. Mas não tenho dúvida: prefiro a situação atual, com todos os seus problemas, do que aquela anterior que servia biscoitos finos para poucos, assim contribuindo para a perpetuação de nossa vergonhosa desigualdade.

Muitos dos que suspiram ao lembrar seus liceus estaduais foram agentes da “decadência”. Ricos e poderosos, quando identificaram as primeiras dificuldades, retiraram seus filhos das escolas públicas, transformando-as em estorvo distante para o tal “Estado” (visto como entidade quase alienígena, mesmo quando quem reclama é seu funcionário de alto escalão). O “abandono” hoje se completa com a atual orkutização (leia o último artigo – página 48 – desta publicação e saiba que não uso “orkutização” de forma pejorativa) de escolas americanas e afins, subordinadas a diretrizes educacionais formuladas por governos estrangeiros que não elegemos e sobre os quais não temos nenhum controle – deixamos que povos mais “desenvolvidos” decidam o que e como nossas crianças devem aprender. (E, pronto, vou falar: MBA é o cacete! Também nada pode ser mais caipira do que esses escritórios que universidades do “primeiro mundo” tentam implantar por aqui para salvar seus “modelos de negócio” que não se sustentam mais apenas em ambiente G7).

Claro que reconheço: vivemos situação trágica em termos educacionais. Mas ensino não é só responsabilidade da escola, sobretudo no momento atual da história brasileira. Não houve tempo para formar professores ou mesmo construir salas de aulas para toda a população que de repente começou a estudar (e convive em casa com pais para quem essa oportunidade foi negada). Fico revoltado quando vejo os jornais zoando com o ENEM, numa tentativa de desqualificar toda essa experiência (que ninguém sabe se vai dar certo) de criar uma alternativa para o mecanismo ultrapassado do vestibular, tudo por causa de um aluno que copiou receita de miojo na sua redação. Esperavam o quê? Uma multidão de Machados de Assis?

Gostaria de saber como essa redação específica vazou para a imprensa. E por que as primeiras páginas dos jornais entraram na zoação. Não vou comprar essa briga. Quem leu minha coluna da semana passada já descobriu que eu acredito que “a vida foi feita para cantar e zoar”. Então vou zoar de volta. Devo confessar: adorei a redação do miojo. Coincidiu que na época eu estava lendo “Unoriginal genius”, o livro da professora emérita de Stanford (viu como também gosto de ser caipira?) Marjorie Perloff (obrigado, Arto Lindsay, pela indicação de leitura), que me parece a obra mais importante sobre literatura publicada em tempos recentes. É um tratado que nos prova que o lema de Gaby Amarantos (“eu vou samplear, eu vou te roubar”) está na base dos avanços mais importantes da poesia contemporânea. Ken Goldsmith, um dos autores analisados por Perloff (junto com os irmãos Campos e Walter Benjamin) e que já publicou livro só com colagem de textos de previsões do tempo, chama essa tendência de “uncreative writing”. Sendo assim, tenho o dever de indagar: não será o autor da redação do miojo um gênio não-original brasileiro, bem mais criativamente não-criativo que os jornalistas que zoaram com sua escrita?

Vou seguir o exemplo desse nosso gênio não-original anônimo – pode haver algo mais genial do que se apropriar de uma receita de miojo? nota máxima para a não-criatividade! – e terminar esta coluna abrupta e desconexamente, sampleando um bifão do livro do Roberto Calasso, “A folie Baudelaire” (que é feito para se ler aos poucos, uma página e uma iluminação por dia): “Toda a história da literatura – aquela secreta, que ninguém será capaz de escrever jamais, a não ser parcialmente, porque os escritores são muito hábeis em dissimular – pode ser vista como uma sinuosa guirlanda de plágios. Entenda-se: não aqueles ficcionais, devidos à pressa e à preguiça, como os operados por Stendhal sobre Lanzi; mas sim os outros, baseados na admiração e num processo de assimilação fisiológica que é um dos mistérios mais protegidos da literatura. Os dois trechos que Baudelaire subtraiu a Stendhal são perfeitamente harmonizados com sua prosa e intervêm num momento crucial da argumentação. Escrever é aquilo que, como o eros, faz oscilarem e torna porosos os anteparos do ego. E todo estilo se forma por sucessivas campanhas – com pelotões de invasores ou exércitos inteiros – em territórios alheios.”

Anúncios

Tags: , , , , , ,

2 Respostas to “cantar e zoar”

  1. Pablo Says:

    Se não me engano, Hermano, a tipologia textual solicitada pelo ENEM é, geralmente, o texto dissertativo. Trata-se, portanto, de avaliar como alguém que acaba de completar o ciclo básico de escolarização lida com o desafio de sustentar uma tese (o “desenvolvimento de um tema”, enfim) ao longo de uma reflexão com início, meio e fim. Uma “competência”, afinal, ligada ao próprio exercício da cidadania!

    Veja: não quero aqui com isso dizer que a vida não é feita pra “cantar e zoar”, mas que “ler e escrever” (no sentido mesmo de uma habilidade cívica, de manejo argumentativo dos suportes nos quais os valores circulam na forma de ideias) também fazem parte da festa. Nesse contexto, por que a preocupação talvez precipitada se o autor da redação do miojo é um gênio (“original” ou não)? Já não seria suficiente buscar saber se assimilou parte dos requisitos para se comunicar num código comum? “Cantar” e “zoar”, afinal, não pressupõem justamente a elaboração de um enredo em que outros também possam se divertir?

    P.S: Também não “curti” em nada o tratamento de parte da imprensa sobre o episódio.

    Abraços,

    Pablo

  2. Manifesto | ............Uzer........... Says:

    […] Até aqui falei muito de memes mas também de virais, da inserção de links ou QR Codes em poemas, e do uso de emoticons na literatura. Mas a proposta aqui posta de todo não exclui a utilização de modos de apropriação já estabelecidos. Penso que as práticas do remix e do mashup,  por exemplo, foram não apenas pouco, mas mal exploradas nas letras – por mal exploradas refiro-me ao fato de serem ainda etéreas, impalpáveis, sempre na base do “fulano faz um mix de referências único e com isso imprime um estilo próprio”. Se há aqui um juízo de valor? Certamente. Não posso deixar de me lembrar agora de um artigo que diz que o lema de Gaby Amarantos (“eu vou samplear, eu vou te roubar”) está na base dos avanço…. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: