novo partido

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/06/2013

Sempre dou gargalhadas ao ler cada edição de “Tecnicamente incorreto”, coluna de Chris Matyszczyk no site CNET. Isso não quer dizer que seu conteúdo seja apenas piada. O bom humor embala uma das mais sérias investigações sobre o girar do mundo em torno do Vale do Silício. Por exemplo: seu artigo recente intitulado “Google: o terceiro partido político da América” é leitura obrigatória para quem realmente se preocupa com o lugar da democracia em nossas sociedades tecnicamente encantadas. Todas as frases provocam sorrisos de reconhecimento que logo se transformam em arrepios de lúcido apavoramento.

Larry Page, fundador e CEO do Google, fez discurso na última edição da I/O, conferência “para desenvolvedores” que sua empresa realiza com fanfarra todos os anos. Os comentários de Matyszczyk se esbaldavam com a mais explícita ironia: “O congresso é um cachorro que não quer sair para passear. Você pode dar um puxão na sua coleira, mas ele fica sentado no meio da calçada, rosnando um desafiador ‘não’. […] Então aparece o político mais ambicioso da América. […] O homem que é o Google […] fez sua turma pensar que ele estava falando sobre tecnologia. Sua agenda verdadeira, no entanto, é política. Onde o governo não pode fazer nada, o Google pode fazer tudo.”

O discurso abordava assuntos tão diversos quanto saúde pública ou ecologia. Para qualquer problema, o Google tem uma solução revolucionária, como aquele carro elétrico sem motorista. A política tradicional – vilã de sempre – dificulta a realização dessas experiências. A invenção tecnológica é o reino da rapidez; a mudança das leis insiste na lentidão. Page reclama: “Há muitas, muitas coisas importantes e sensacionais que podemos fazer, mas não podemos porque são ilegais ou não são permitidas pelas regulamentações.”

Parece Roberto Carlos cantando “será que tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda”? (Com uma diferença californiana: ninguém no Google deve gostar de nada que engorde.) Ou lembra episódio do seriado “Viagem ao fundo do mar” que vi quando criança: o submarino precisava de autorização para lançar mísseis e acabar com algo que destruiria o planeta. O Congresso em Washington precisava seguir seu lento processo de tomada de decisão. Os militares se revoltaram e salvaram a humanidade. Nesses casos, a democracia e o estado de direito são vistos como estorvos. Alguma mente iluminada sabe o rumo que as coisas devem tomar para a felicidade geral.

Page revela seu sonho: “Como tecnólogos devemos ter lugares seguros onde podemos experimentar coisas novas e descobrir o efeito sobre a sociedade e as pessoas, sem a necessidade de implantar no mundo normal. Pessoas que gostam de esse tipo de coisa podem ir lá e experimentar.” (A tradução foi feita com velocidade espantosa pelo Google Translate, é claro.) Qualquer semelhança com o anarquismo pós-moderno das Zonas Autônomas Temporárias de Hakim Bey, ou com o Burning Man realizado “fora da lei comum” no deserto de Nevada (o primeiro “doodle” do Google foi desenhado para avisar que Page e Serge Brin tinham viajado para esse festival) não deve causar espanto.

O sonho acabou? Se o Google é mesmo um partido político, Page pode proferir os discursos para animar as massas, mas o programa ideológico mais careta acaba de ser publicado em “A nova idade digital”, livro de Eric Schmidt (atual “executive chairman” da empresa) e Jared Cohen (diretor do “Google Ideas”). Os elogios na contracapa são assinados por nomes que já demonstram que o público alvo é tradicional: Bill Clinton, Henry Kissinger, Madeleine Allbright, Tony Blair. O tom é certamente moderado: a introdução começa definindo a internet como “o maior experimento envolvendo anarquia na História”, mas termina clamando pelo estabelecimento de pontes sobre o “cânion” que divide as pessoas que entendem de tecnologia e aquelas encarregadas de cuidar das questões geopolíticas mais difíceis.

Discursos, programas… Na prática, a tecnologia tem inventado suas próprias leis, na marra. Por exemplo: se os governos demoram com as reformas do direito autoral, o YouTube (do Google) inventa maneiras de reconhecer músicas usadas em qualquer vídeo. Resultado: mesmo pirateadas as músicas podem gerar dinheiro para seus autores e entram na contabilidade da parada do sucesso oficial. Isso é o mais perigoso: a mistura de legalidade e ilegalidade que se torna prática cotidiana. A democracia, para ter futuro, precisa enfrentar com vigor o novo desafio imposto pela velocidade tecnológica. Entre a velocidade e a lentidão, precisamos inventar outro tempo para não deixar que duas ou três empresas passem a ter o controle do mundo. Volto a este assunto semana que vem.

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