cartografia

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/06/2013

Fábio Malini publicou o texto mais interessante que li a respeito dos protestos que tomaram conta das ruas brasileiras. O link completo: http://www.labic.net/cartografia-das-controversias/a-batalha-do-vinagre-por-que-o-protestosp-nao-teve-uma-mas-muitas-hashtags/. Escolhi não abreviar esse longo endereço no bitly.com porque todos seus elementos me ajudam a explicar do que se trata. “Labic” é o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, coordenado por Malini e Fábio Goveia, e localizado – no mundo real – na Universidade Federal do Espírito Santo. “Cartografia das controvérsias” é o nome de um dos projetos desse laboratório, em rede com outros pesquisadores e ativistas, que tem como objetivo “constituir novas abordagens teóricas e empíricas que se debrucem sobre as modalidades de poder e contrapoder que se apresentam na web 2.0”. Talvez o termo mais significativo seja “cartografia”:  nomeia novas e necessárias maneiras de mapear – e apresentar visualmente os resultados desse mapeamento – a comunicação online.

O título “A batalha do vinagre: por que o #protestoSP não teve uma, mas muitas hashtags” resume bem o conteúdo, mas não o método de investigação. O texto teve origem em conversa no Twitter. No dia 13, Marco Toledo Bastos – pesquisador da USP, da London School of Economics, e pioneiro nos estudos estatísticos de dados produzidos em redes sociais – lançou a pergunta: “quais hashtags ou keywords estão agregando as manifestações de protesto Brasil afora? Nenhuma?” Na busca por palavras-chave que pudessem ajudar a entender o que estava acontecendo, seus interlocutores – entre eles Malini e Raquel Recuero, pesquisadora da Universidade Católica de Pelotas (essa colaboração ágil entre gente de várias universidades, “centrais” e “periféricas”, também é produto do fenômeno estudado) – foram notando que não havia nada centralizador como #occupy ou #existeAmorEmSP.

A “ausência” virou “potência”. O texto de Malini demonstra a descentralização extrema da organização dos protestos, não na base do achismo, mas a partir de imagens gráficas que fazem a cartografia da enorme quantidade de mensagens que circularam em redes sociais enquanto os protestos aconteciam nas ruas. Fica claro que a conversa não tinha apenas um foco, nem circulava em torno de líderes. Também é fácil visualizar o efeito das primeiras notícias sobre violência policial gerando ainda mais descentralização no debate. Não tenho possibilidade de publicar imagens nesta coluna. Por isso recomendo a visita ao post no site do Labic. Há texto complementar da Raquel Recuero neste link. Além de tudo: os gráficos, gerados por programas como NodeXL, são bonitos a beça de se ver.

Citei tudo isso para chegar a uma anticonclusão: para analisar a novidade do que está acontecendo, precisamos de ferramentas e narrativas também novas. Textos lineares a procura de líder, causa, manifesto, ou grupo revolucionário timoneiro da História, não não explicam mais nada. Umberto Eco, em artigo pré-internet (de 1978 – publicado neste livro) injustamente pouco comentado ultimamente (e esgotado na editora brasileira), falava algo assim: não é mais possível “atingir o coração do Estado”. Talvez o poder estatal – que virou “sistema” sem coração ou cabeça, com “incrível capacidade de cicatrização” – tenha saído na frente porque tinha mais recursos para se descentralizar. Quando os computadores caíram nas mãos do povo, os movimentos populares também se pulverizaram nas redes e usam as mesmas teorias/práticas do caos antes apenas acessíveis para a vanguarda das corporações capitalistas globalizadas.

Na segunda-feira, Lula escreveu no Facebook que tudo deveria ser resolvido na “mesa de negociações”. Fiquei pensando: quem senta na mesa? Cabe “big data” na mesa? Quem representa politicamente a descentralização que vemos nos belos gráficos/modelagens (com todos aqueles “clusters”) do Labic? Quem quer representar? Outra recomendação: a leitura da série de artigos de Michael Greenberg, no New York Review of Books, sobre a saga do Occupy Wall Street, especialmente aquele que analisa a relação da polícia com os ocupantes. O pessoal lá era mais radical: recusava qualquer negociação. Exemplo de discurso comum em torno do Zuccotti Park: “Não falamos com gente com poder, porque fazendo isso reconhecemos a legitimidade de seu poder.” Aqui, onde não temos ainda nenhuma praça como A Praça, vi integrantes do Movimento Passe Livre conversando com autoridades de São Paulo. Mesmo que não tenham combinado o trajeto dos protestos (pois não estavam ali liderando nada), essa reunião já revelava alguma abertura para negociar. O que não torna as coisas mais ou menos fáceis. Sejamos bem-vindos ao mundo da total complexidade.

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2 Respostas to “cartografia”

  1. Fábio Malini Says:

    Hermano,
    Obrigado pelo seu texto. E pela sensibilidade de compartilhar o link inteiro.
    Fábio Malini

  2. hermanovianna Says:

    Fábio,

    eu que agradeço o trabalho inspirador e pioneiro do Labic

    abraços

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