rastros de canto

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 05/07/2013

Domingo passado, do outro lado do mundo, no extremo norte da Austrália, foi realizado o “memorial service” – termo da língua inglesa denomina a cerimônia (podendo ou não ser acompanhada de ritual religioso) onde é celebrada a memória de uma pessoa recém-falecida – do dr. Yunupingu, educador e cantor da banda Yothu Yindi, principal responsável por colocar a música e a luta política “aborígene” no cenário pop internacional. O encontro de centenas de amigos, familiares e admiradores, que aconteceu no lugar onde – diz o mito – o instrumento didgeridoo apareceu na Terra, teve grande repercussão nacional, sendo transmitido ao vivo por duas cadeias de televisão. O primeiro ministro australiano estava presente. Peter Garrett, ex-cantor da banda de rock Midnight Oil e ex-ministro da educação, foi o mestre da cerimônia. Artistas do povo yolngu, a etnia do dr. Yunupingu, prestaram suas homenagens com música e dança.

Quando me deparei com essa notícia, fui tomado por sentimento ambíguo. De um lado, tristeza de saber que a perda de uma pessoa tão importante para a cultura planetária foi praticamente ignorada no Brasil. Do outro, alegria ao constatar a resistência da diversidade cultural: ainda podemos desconhecer o que acontece de mais popular em outros continentes – nem tudo se tornou homogêneo e numa viagem para a Oceania não vou encontrar apenas o que já é sucesso por aqui. A vida do dr. Yunupingu foi batalha constante procurando equilibrar essas duas tendências opostas: a busca do diálogo/fusão entre tradições diferentes e a defesa do direito de permanecer diferente.

Mesmo a divulgação de sua morte trouxe lições sobre a complexidade da relação transdiferenças. Com as melhores intenções, a mídia australiana cometeu erro cultural ao dar a notícia, publicando o primeiro nome do falecido. Como vários outros povos indígenas, os yolngus não falam o nome de seus mortos durante o luto, que pode durar vários anos. Mesmo quando o nome é o mesmo de objeto comum, outra palavra – até de outra língua – pode passar a ser usada como substituto (e em alguns casos vira o nome mais comum depois de encerrada a interdição). A família Yunupingu publicou comunicado – que continua na página principal do site da Yothu Yindi no momento em que escrevo este texto – com instruções para os jornalistas.

Vale a pena fazer uma citação longa (peço desculpas pela tradução não fiel): “Numa reunião com a família do cantor principal da banda Yothu Yindi, sr. Yunipingu, ontem 4 de junho em Gunyangara, Território do Norte, convocada por seu irmão mais velho Galarrwuy Yunupingu AM e que teve a participação de seu companheiro de banda Wituyana Marika e dos filhos e netos do falecido, foi estabelecido o seguinte acordo com relação a protocolos de mídia: a família pede que seguindo os protocolos culturais yolngus que o primeiro nome do falecido não deve ser usado por tempo ainda indeterminado. […] A família aceita que a imagem do sr. Yunupingu seja publicada em vários formatos incluindo televisão, vídeo, imprensa, internet (incluindo Facebook) e que a música do Yothu Yindi seja tocada no rádio. Obrigado pelo apoio e pelo respeito à cultura yolngu.”

Não se trata de nenhum capricho nem de tentativa de impor uma tradição antiquada para um mundo moderno. Tudo é coerente com a difícil e recente luta dos povos indígenas australianos (que depois de massacre brutal foram reduzidos a menos de 2% da população do país) por direitos e respeito. Uma vitória, só conquistada por resolução do Supremo Tribunal local em 1992, foi a anulação do princípio de “terra nullios”, que não reconhecia nenhum direito de posse de terras anterior à colonização. Outra conquista foi “Código de práticas da indústria da televisão comercial” que determina que as notícias devem “observar experiências e normas culturais dos povos indígenas” e que esses povos devem ser consultados ao se produzir reportagem sobre o que acontece com eles.

O povo yolngu esteve na vanguarda dessas batalhas, abrindo novos espaços de atuação pública. O dr. Yunupingu foi o primeiro “aborígene” da sua região a ter diploma universitário. Depois se tornou diretor da escola onde estudou, propondo uma pedagogia de “both ways” (mão dupla) que advoga ensino em várias línguas e tradições, onde o “conhecimento humano” vem primeiro, e o “conhecimento ocidental” depois. Suas teorias e práticas podem servir de inspiração para muitas empreitadas necessárias aqui no Brasil (como na Austrália, temos cerca de 200 línguas indígenas ainda vivas em nosso território – riqueza sem par, bem maior que a do pré-sal). Uma boa introdução: o discurso altivo de sua mulher, Yalmay Yunupingu, no “memorial service”. Há vários vídeos na internet com o registro completo.

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