para todos

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/07/2013

O campo de futebol é o novo rádio. Para estourar música hoje no Brasil o melhor caminho se chama Neymar. Receita: Neymar faz um gol e dança o futuro hit no gramado; o vídeo da comemoração vai para a internet, vira um dos mais compartilhados no YouTube e todas as rádios seguem seus passinhos. Na verdade, nem o gol é necessário: uma dança no vestiário filmada pelo celular já catapulta qualquer cantor de arrocha para o estrelato (Neymar – ou Cristiano Ronaldo, que dançou “Aí se eu te pego” – também sai ganhando, pois aparece conectado ao gosto da multidão, antes que a multidão saiba que tem esse gosto). A trilha da novela virou consequência e não o ponto de partida do sucesso.

Não se trata de fenômeno apenas brasileiro. O jogador Asamoah Gyan, o Baby Jet, é sempre citado em todo texto que tenta explicar o sucesso mundial do azonto, a dança surgida nas periferias de Acra, capital de Gana. Tudo foi anunciado nos estádios da Copa do Mundo da África do Sul. Agora está até nas ruas canadenses. E desde 2 de junho, data de lançamento de “Antenna” do cantor britânico-ganense Fuse ODG, passou a ocupar espaço entre os primeiros colocados – chegou ao sexto lugar – nas paradas musicais da Inglaterra, conquista raríssima (não me lembro de precedentes – talvez “Pata pata” ou “Soul makossa”?) para o pop africano, sempre isolado no gueto “world music”.

A história da divulgação de “Antenna” inclui estratégia inovadora de marketing para além do futebol. Fuse ODG – seu nome de passaporte é Richard Aboina – primeiro disponibilizou a base sonora na internet dando partida para concurso de azonto: os melhores dançarinos participariam do clipe oficial. O grupo competidor da Suiça fez um flash mob em estação ferroviária de Berna. As candidatas do Quênia se fantasiaram de matronas africanas. Comemorando o sucesso em rádios que nunca tocaram músicas africanas, Aboina apareceu em entrevista para BBC já fazendo propaganda de seu próximo lançamento: no seu boné – é claro que de aba dura – trazia a sigla TINA, abreviação de “This is new Africa”. Ele é realmente um novo africano.

Ou melhor: ninguém sabe como classificá-lo em termos de identidade. Nasceu em Londres, fez escola primária em Acra. Para o que resta da indústria fonográfica inglesa ele é africano. Em Gana, é saudado como o primeiro inglês a ganhar troféu em prêmio da música local. Talvez seja descrito melhor como exemplo bem sucedido do afropolitismo. Em coluna de 2011, citei o artigo onde a escritora (“nascida em Londres, criada em Boston, vive em Nova York, Nova Delhi, Roma” e tem família em Gana) Taiye Selasi definiu os afropolitas como pessoas que “não pertencem a uma geografia única, mas se sentem em casa em muitas.” O termo não virou título de seminários, festas, blogs apenas por modismo passageiro. Ele toca em tendência social profunda, e descreve um estilo de vida com cada vez mais adeptos.

Taiye Selasi finalmente lançou seu aguardado primeiro livro, “Ghana must go” (não resisto em fazer comentário que poderá ser interpretado como machista: nunca a foto do autor na segunda orelha revelou rosto mais bonito). A trama não poderia ser mais afropolita (com toques de Sam Shepard): reunião em Acra de quatro irmãos – entre eles dois gêmeos de beleza estonteante, tratados o tempo todo pelo iorubá ibeji – com a mãe nigeriana para o funeral do pai ganense, médico que teve início de carreira brilhante em hospital de Boston interrompida de forma cruel. Um dos filhos traz sua mulher chinesa. Um ibeji é pintor com cabelo mais rasta do que o de (e quadros mais caros do que os de) Basquiat. As referências de várias culturas (alguém tem voz de Luther Vandross) se misturam em todas as páginas com ritmo sufocantemente natural. A História (a Guerra de Biafra, o 11 de Setembro) está sempre por ali nos espreitando.

Recomendo a leitura simultânea de “Ghana must go” (título sampleado de campanha que queria expulsar os ganenses da Nigéria) e de “Jazz cosmopolitanism in Accra”, de Steven Feld, antropólogo que escreveu também sobre a vida sonora dos índios de Papua-Nova Guiné e fez documentários sobre a música – tocada com buzinas – dos motoristas dos caminhões-micro-ônibus de Acra. Entre um livro e outro a costura pode ser feita por “Cosmopolitanism”, de Kwame Anthony Appiah (filósofo ganense de Princeton), e “O cosmopolitismo do pobre”, de Silviano Santiago. Assim ficará cada vez mais claro: antes, ser cosmopolita era exclusividade de intelectuais e de gente rica (ainda hoje a conversa preferida em seus jantares demonstra como todos são íntimos das ruas de grandes cidades do planeta, onde andam “até de transporte público”); hoje, é destino imposto à maioria.

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