velocidade

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/07/2013

Beto Villares tem ouvido bom. Ele é produtor de vários discos que sempre nos apresentam tratamentos sonoros originais. Por exemplo: “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, de Rodrigo Campos; “Vagarosa”, da Céu; “Siba e a Fuloresta”. Outro de seus talentos é captar invenções poéticas na fala cotidiana. Se não me engano foi uma criança tentando oferecer serviço informal de guia turístico no litoral nordestino que lhe deu a ideia para o título do seu único CD até agora: “Excelentes lugares bonitos”. De um agricultor pós-caipira com bem mais idade, convidando-o para outro café ao lado de seu roçado, guardou frase que virou bordão em nossas conversas: “bobagem pressa”. Adotamos, eu e Beto, essas palavras, como ideal de vida.

Por isso os recados que se dizem urgentes são os que eu mais demoro a responder. Aprendi que não requerem ação imediata. Quando ligo dias depois, as coisas já se resolveram ou ainda estão lá paradonas, sem prejuízo algum. A urgência foi banalizada de tal modo que precisamos usar “urgente mesmo!” ou “urgentíssimo!” quando o bicho está pegando. Porém, mesmo nesses casos, há controvérsias sobre a necessidade da pressa. Já vivi situações realmente graves na vida – dentro da sala de emergência de hospitais é onde descobrimos com sofrimento: só podemos ficar esperando, ninguém sabe dizer ao certo quanto vai demorar. Até que uma decisão (geralmente coletiva) seja tomada, ajuda manter a calma.

Volto então ao assunto iniciado seis colunas atrás. Parece que foi há uma eternidade. Quando comecei a escrever sobre o poder do Google, o mundo era diferente. Nunca tinha ouvido falar de Edward Snowden ou do projeto de ciberespionagem do governo americano (que deve ser classificado como urgentíssimo, e isso seria “desculpa” para furar a fila do processo legislativo comum). Também o gás lacrimogêneo e o coquetel molotov não tinham voltado com tudo nas ruas de todo o Brasil. A impressão é de atividade frenética, de nada será como antes, mais uma vez. As multidões estão tão ansiosas e apressadas como Larry Page, o cara do Google que reclamou da lentidão e das imperfeições do mundo real, querendo outro lugar – com outras leis que ninguém sabe ao certo como serão criadas: plebiscito? democracia direta? sábio ciberplatônico? – para “experimentar coisas novas e descobrir o efeito sobre a sociedade e as pessoas”.

Recomendo a todos a leitura vagarosa de livro fininho de entrevistas com autor que a velocidade das modas intelectuais parece ter transformado em relíquia dos anos 1980: “A administração do medo”, de Paul Virilio. Interessante como começa usando a palavra “ocupação” com sentido diferente do atual “occupy” (Virilio viveu na França ocupada pelos nazistas): “o medo é um ambiente, um meio, um mundo. Ele nos ocupa e nos preocupa.” O ataque atinge ponto central do discurso da pressa: “o medo e sua administração estão hoje fundamentados na incrível difusão do tempo real” ou na “ditadura do tempo real”. Hannah Arendt vem a seu socorro com palavras sombrias: “o terror é o consumação da lei do movimento.”

Virilio é pensador apocalíptico. Mas seu lema não é “pare o mundo que eu quero descer”. Ele sabe que não é possível parar – sua proposta é a diversificação de ritmos (a cronodiversidade), pois nossas sociedades ficaram arrítmicas, ou melhor, “elas só conhecem um ritmo, aquele da aceleração contínua. Até o crash, e ao crash sistêmico.” Não há mais tempo para pensar, debater: acelerando tudo, acabamos sendo obrigados a transferir o poder de decisão para mecanismos que podem “funcionar na velocidade imóvel da instantaneidade.”

O crash de 1987, por exemplo, foi resultado também da conexão quase instantânea de bolsas de todos os continentes, revelando a “impossibilidade de gestão dessa velocidade” por simples seres humanos. Já que os Estados não podem mais controlar a economia, o que lhes resta é “convencer os cidadãos que podem lhes assegurar sua segurança corporal”. Correria e trapalhada. Já descobrimos: num trem bala, é impossível enxergar qualquer coisa se olharmos diretamente para os lados. Sem a visão lateral ficamos cada vez mais perdidos. Virilio repete aquilo que um onceiro de Guimarães Rosa já sabia: “a sobrevivência está ligada à antecipação da surpresa; e a surpresa nunca é frontal.”

Em qualquer situação, só com tempo podemos escolher bem entre várias soluções possíveis, todas elas com vantagens e desvantagens. Democracia é arte lenta e muitas vezes chatérrima. Confiança não pode ser construída, ou ser merecida, na instantaneidade, na velocidade dopada. Virilio arremata: “o direito do mais rápido é a fonte do direito do mais forte. Hoje, o direito está submetido a um estado de urgência permanente.” Em resumo: além de “bobagem pressa” devemos aprender a dizer “perigo pressa”.

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