Michel Serres

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/10/2013

Michel Serres, com 83 anos e mais de 50 livros publicados, é finalmente best-seller. “Petite poucette”, lançado no Brasil como “Polegarzinha” (editora Betrand), já vendeu 100 mil exemplares na França, quantia impressionante para filósofo considerado difícil. No número mais recente da revista Art Forum, Serres é apresentado como “um dos observadores mais visionários e eloquentes das profundas instabilidades” contemporâneas. Mesmo assim, adverte: “permanece pouco conhecido no mundo da língua inglesa.” Bruno Latour abre sua entrevista com Serres (que deu no livro “Eclaircissements”, de 1992) mostrando que o problema não era de tradução: “Você é ao mesmo tempo muito conhecido e muito mal conhecido. Seus colegas filósofos o leem pouco.” O sucesso de “Polegarzinha” é sinal de que o “mistério Michel Serres” (para citar novamente Latour) começa a ser desvendado?

“Polegarzinha” deveria ganhar muitos leitores também no Brasil atual. Pode ter sido um acaso, mas a última palavra do livro – transcrição de discurso sobre educação – é “brasileiros”. Parece convocação, que chega a boa hora: justamente quando nas ruas tantos professores tentam mudar o futuro das escolas em nosso país. Precisamos de ousadia para inventar (Serres decreta: “O único ato intelectual autêntico é a invenção”) não apenas novos conteúdos a serem ensinados, mas principalmente novas maneiras de ensino, que escutem atentamente o “barulho de fundo” dos novos alunos, mesmo aquele produzido pela troca silenciosa de milhares de SMSs enviados com polegares escondidos embaixo dos cadernos, contra as regras de “diretoria”.

Descrição da arquitetura escolar atual: “Silêncio e prostração. O foco de todos na direção do estrado em que o porta-voz exige silêncio e imobilidade reproduz, na pedagogia, o mesmo do tribunal com relação ao juiz […] da multiplicidade com relação ao um. Bancos apertados, em fila, para os corpos imóveis dessas instituições-cavernas.” Sabemos que a estratégia não funciona mais: alunos fingindo aprender diante de professores que fingem ensinar, dentro de instituição criada num tempo em que o saber era matéria escassa. Agora, o saber “já está o tempo todo e por todo lugar transmitido”. A polegarzinha (Serres usa o feminino em homenagem à “vitória das mulheres” na história recente) é como São Denis, que decapitado carregou a cabeça nas mãos: ela “porta” seu cérebro na bolsa, dentro do celular. No lugar onde antes havia memorização devemos hoje cultivar a “intuição inovadora e vivaz” e a “alegria incandescente de inventar”.

Serres não tem dúvida: declara que vivemos “uma das mais fortes rupturas na história, desde o neolítico.” Ele foi pioneiro no estudo sobre essa nova grande transformação (no tempo de sua vida a população terrestre saltou de dois para sete bilhões de pessoas), enfrentando todo tipo de críticas. Quando, em 1969, lançou o primeiro volume de “Hermes”, obra que já percebia a centralidade das redes de comunicação em nossas sociedades, seu professor Althusser reagiu com “cólera louca” apontando o erro de “negligenciar as forças produtivas”. Tal condenação não calou o aluno: “Só aprendi a desobedecer. Entre 14 e 30 anos, todos os acontecimentos ao meu redor só me deixaram o gosto da desobediência. Eu tinha a impressão, durante meus estudos, e na universidade, que a guerra não tinha terminado, que a ocupação se perpetuava, que então era necessário resistir”. Sua resistência foi se tornando cada vez mais arriscada: escreveu livros sobre ecologia (a natureza vista como uma companheira, também falante, e não como uma escrava calada), parasitas, hermafroditas. Buscou inventar uma filosofia mestiça, acolhedora diante da diferença (“Aprender: tornar-se gordo dos outros e de si.”)

O resumo de sua trajetória está claro na apresentação do livro “A arte das pontes”: “Eu só sonhei com pontes, escrevi sobre elas, pensei sobre e sob elas; eu nunca amei outra coisa além delas. Este livro sobre as pontes termina como o livro de todos os meus livros.” Há um otimismo que foi crescendo obra a obra. A entrevista para Bruno Latour há duas décadas era mais sombria: “Toda minha vida, eu tive o sentimento patético de errar no deserto ou em alto mar.” Ou pior: “Hiroshima resta o objeto único de minha filosofia.” Agora, na entrevista para a Art Forum, em edição sobre “alto risco” ambiental, ele passa o tempo todo despistando quem queria ouvir anúncio de catástrofe. Com mais de 80 anos, em “Polegarzinha”, encontramos um espírito jovial e combativo: “Gostaria de ter 18 anos […] pois tudo tem que ser refeito, tudo tem que ser inventado. Espero que a vida me dê tempo suficiente para continuar trabalhando nisso”.

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Uma resposta to “Michel Serres”

  1. Dispersão | Comunicação e Tecnologia Says:

    […] é um problema que persiste mesmo na classe invertida. Assim, mais uma vez, o Polegarzinha de Michel Serres seria uma obra de […]

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