guerra e paz

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/10/2013

Eu também recebi o spam avisando que, dia 13 de novembro, a Nasa faria anúncio de “descoberta que vai chacoalhar a Terra, ela nunca mais será a mesma”. Claro que nem por um segundo acreditei na autenticidade do comunicado. Mas achei divertido imaginar que notícia poderia provocar tal comoção. A data exata do fim do mundo? A confirmação de que ETs vivem entre nós? A localização da morada de Deus na galáxia espiral NGC 4414? Resolvi visitar o site da Nasa para ver como desmentia oficialmente o rumor viral. Chegando lá me deparei com texto que realmente abalou minhas estruturas terráqueas. Nunca pensei que leria algo semelhante durante minha existência neste planeta.

A nota era curta e grossa. Em inglês: “Due to the lapse in federal government funding, this website is not available. We sincerely regret this inconvenience.” A tradução em espanhol era mais dramática: “Este sitio web no se está disponible durante el cierre del Gobierno. Lamentamos profundamente las molestias que esto pueda causar.” A “interrupção do financiamento governamental” virou “fechamento do governo”, a “inconveniência” se transformou em “moléstia”. Nunca, nem em manifestos dos anarquistas mais radicais, encontrei essa possibilidade de um governo – e logo o governo dos EUA – poder “fechar” sem revolução nenhuma. Tudo me parecia abstrato nas notícias dos jornais lidas daqui do Brasil (o impasse continua do momento em que finalizo este texto). Porém, diante do apagão do site da Nasa, percebi que aquela realidade não tinha nada de virtual.

Um link abaixo da nota nos encaminhava para o USA.gov com informações sobre serviços disponíveis durante o “government shutdown” (termo oficial). Respirei aliviado ao saber, por exemplo, que apesar da Estátua da Liberdade não poder receber turistas, os astronautas da Estação Espacial continuam a receber suporte. Outras consequências são mais graves: “Centenas de milhares de funcionários federais – incluindo muitos encarregados de nos proteger de ameaças terroristas, defender nossas fronteiras, inspecionar nossa comida, e manter nossos céus seguros – vão trabalhar sem remuneração, até o ‘shutdown’ terminar.” Não havia nenhuma referência à continuidade ou não dos serviços antiprivacidade da NSA (a Agência de Segurança Nacional local) denunciados por Edward Snowden (sei que ganhou um prêmio esta semana, mas o que ele anda fazendo mesmo na Rússia de Putin?)

Fico cada vez mais impressionado com os desdobramentos desse caso, agora também abalando as relações entre o Brasil e o Canadá. Onde vamos parar? Fechamento governamental mundial? Shutdown da internet?  Volto sempre a dois artigos antigos (algo publicado em julho já é descoberta arqueológica) que me parecem as maiores ajudas para entendermos nosso momento. O primeiro é de John Naughton, professor de “compreensão pública da tecnologia” na Open University britânica. O título é bem adequado: “Snowden não é a notícia, o destino da internet é”. Um dado sublinhado nesse texto, que poucos outros analistas comentaram com profundidade, é a terceirização da espionagem, com Estado contratando empresas privadas para capturar/interpretar o Big Data. Snowden não era funcionário público, mas sim empregado da Booz Allen Hamilton, megacorporação comercial. Que governo (agora ainda fragilizado por “shutdowns” inéditos) pode garantir que companhias poderosas não usem esses dados secretos em outros negócios particulares?

Outro texto de leitura obrigatória leva a assinatura de George Dyson (filho de Freeman, irmão da Esther – família bacana), historiador da tecnologia, autor do excelente “Turing’s Cathedral” sobre a invenção dos primeiros computadores ao redor da turma de John von Neumann, na Princeton pós-Segunda Guerra. Essa relação da tecnologia com guerra e espionagem é antiga e intricada. Dyson, no texto “NSA: the decision problem”, lembra o Corona. Sem esse programa secretíssimo de utilização de satélites para fotografar a União Soviética no tempo da Guerra Fria, que também contratava empresas comerciais do Stanford Industrial Park, provavelmente não teríamos o Vale do Silício ou – que peninha – o Google Earth.

Diferença dos dois segredos da NSA: na Guerra Fria havia um inimigo bem determinado; na guerra contra o terrorismo (desculpa para a espionagem atual, mesmo que – dados citados por Michel Serres questionando a “indústria do medo” – atos terroristas matem 15 mil pessoas por ano, número bem menor que o 1 milhão de vítimas de acidentes de carro) tudo é difuso, somos todos vigiados. Terrível mundo que precisa da ameaça de guerra para impulsionar avanço tecnológico. Quando vamos aprender a inventar progresso a partir da paz?

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