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David Toop

30/11/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29/11/2013

David Toop é convidado de honra do festival Novas Frequências, que começa amanhã trazendo para o Rio um amplo panorama daquilo que existe de mais inovador na música contemporânea. Difícil escolher atrações para indicar. O melhor seria ver tudo, pois a diversidade das propostas é o que mais interessa: cada artista criando seu próprio movimento, incomparável, com estratégias bem diferentes de processamento sonoro e usos surpreendentes da tecnologia. Sou fiel seguidor, por exemplo, de Stephen O’Malley, nome central para a cena drone (nada a ver com aviões espiões não tripulados) e formas extremas de metal contemplativo (e nem por isso menos barulhentas). Mas se precisasse escolher, não teria dúvida. Como disse o crítico Simon Reynolds: nós somos todos David Toop agora. Vivemos em tempos toopianos, com sua própria toopografia.

Não tenho certeza, mas acho que meu primeiro contato com a obra de David Toop – que além de músico é curador, escritor, jornalista etc. – foi a leitura do seu artigo “Fresh Electro”, que a The Face publicou em maio de 1984. Naquela época era raro encontrar essa revista inglesa – que ainda não havia lançado 50 números – nas bancas cariocas. Mesmo raridade, não havia como não notá-la entre outras publicações. Essa edição trazia uma das capas mais icônicas criadas pelo designer Neville Brody. Sobre fundo amarelo ovo, apenas letras azuis, vermelhas e pretas. “Eletro” dominava com tipos garrafais.

Não era só a forma que chamava a atenção. O conteúdo do artigo desnorteava igualmente os leitores. Talvez tenha gerado a primeira capa de uma revista já tão na moda (antes mesmo de ser revista de moda) baseada na cultura ainda desconhecida do hip hop. Porém, não apenas os nomes Run DMC ou Arthur Baker soavam como novidades. A interpretação do fenômeno proposta por David Toop também me parecia deveras alienígena. Preciso traduzir o último parágrafo, absolutamente visionário: “Nada é sagrado na era dos computadores. Enquanto programadores de computador, advogados de copyright e corporações lutam para se proteger contra micropiratas e ‘mashers’, os ‘vidkids’ pululam do topo da tela, famintos de desastre cósmico.”

Em 1984, ano que foi bem diferente da descrição de George Orwell, eu não tinha os elementos para entender o que havia ali de profecia (oferecida como se fosse descrição de atualidade banal). Os computadores pessoais haviam sido lançados no mercado há apenas três anos (junto com a MTV), a Microsoft estava iniciando seu império, hacker era palavra só conhecida por ultranerds, “Planet rock” (a música de Afrika Bambaataa que citava Kraftwerk) tinha acabado de completar seu segundo aniversário. O artigo da The Face percebeu claramente que já vivíamos em admirável mundo novo. A ficha para geral foi caindo aos poucos. Ao cair fomos descobrindo que somos todos David Toop.

Em artigo mais recente – este publicado em 2010 pela revista também inglesa The Wire -, descobri que elemento importante na formação de David Toop foi, em 1966 com 17 anos, a leitura de uma edição especial de outra revista, Art and Artists, inteiramente dedicada ao conceito e à prática de “arte autodestrutiva”. Era ainda um aprendiz de artes visuais. Nos anos 1970, ficou cada vez mais próximo dos sons (mas não perdeu o contato com o visual, tanto que em 2001 foi curador de “Sonic Boom”, a mais influente exposição pioneira daquilo que agora chamamos de “sound art”), é claro que em suas vertentes mais experimentais, da eletrônica ao jazz , passando a se envolver igualmente com músicas étnicas raramente documentadas (Toop fez alguns dos primeiros registros da música ianomâmi, em viagem pela floresta amazônica venezuelana em 1978).

Então não foi inesperada a leitura do hip hop como tática estética de vanguarda, que também é o fio condutor de “Rap attack”, livro que David Toop lançou no final de 1984 e ainda é bibliografia fundamental para quem quer entender o sucesso de Frank Ocean ou Lil B. Eu me tornei David Toop bem no início de minha vida acadêmica. “Rap attack” é citado várias vezes na minha dissertação de mestrado sobre o circuito de baile funk no Rio.

Dos anos 1990 para cá, além de continuar sua carreira musical (no disco “Pink Noir”, meu preferido, ele toca de Telecaster a flauta de Papua Nova Guiné, passando por genggonk sekai e bateria eletrônica), David Toop publicou uma série de livros onde o foco na música é expandido para o universo sonoro como um todo. Em “Sinister ressonance” encontramos uma teoria dos sons como fantasmas e do ouvinte como médium. Ser David Toop é também voltar a ser feto dentro do útero, no escuro, assombrado com os sons que chegam lá de fora, do além.

biografias 2

23/11/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/11/2013

Outra lição da “Batalha das Biografias”: também foi impressionante ver a união de vários grupos, que até então me pareciam inconciliáveis, formando tropa de elite animadíssima contra os componentes do Procure Saber. Não me lembro de ter visto antes a imprensa xingada de PIG abraçada com seus detratores, os cibermalucos de direita elogiando os de esquerda, a(o)s dona(o)s de casa fazendo coro para o juridiquês de ex-ministro(a)s do STF, todos caminhando e cantando com as mesmas palavras de ordem, em manifestação nacional.

Dava para perceber a alegria da perda da virgindade: estamos pela primeira vez falando mal de Caetano, Gil e Chico! Os medalhões juntos e misturados na berlinda! O clima era de travessura, que tomou conta do país inteiro, ou pelo menos das multidões que acreditam – com alguma razão – que biografias são versões intelectualmente corretas – estilo New Yorker – de números antigos da revista Caras.

Para ser mais preciso: em muitos momentos as biografias não pareciam ser o foco, mas sim pretexto para linchamento, como se o público da MPB estivesse há anos esperando qualquer deslize de seus ídolos para dar vazão a um ódio que ninguém notava dentro de nossos corações vagabundos.

Logo surgiram tentativas para explicar a comoção carnavalesca, com pierrôs e colombinas decepcionados. Na Folha, Vinicius Mota celebrou a “derrota esmagadora do (ex-)grupo Procure Saber” como “sinal de amadurecimento do país” que finalmente deixa para trás um padrão no qual “Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil nunca perdiam.” Seria pensamento isolado, se não tivesse sido complementado dias depois por editorial da mesma Folha, transformando a opinião do jornalista em visão corporativa. O texto, algo panfletário, tinha como título “Crepúsculo dos ídolos”, mas com conteúdo distante da transvaloração dos valores pregada por Nietzsche.

O jornal paulistano apurou que Eduardo Campos e Marina Silva estariam programando encontro com artistas no Rio. Em tom professoral admite que “não há nada de condenável em tais confraternizações”, mas questiona sua eficácia eleitoral: “A dúvida é se a presença dessas celebridades ainda se reveste da importância que teve em momentos mais turvos da história política.” Mencionando a Batalha das Biografias, chega a um diagnóstico: “as celebridades, em especial as da música popular, veem diminuir a admiração que mereciam.” A Folha bate palmas encabuladas: “Melhor assim, talvez; humanizam-se todos”. Afinal a democracia estimula “a participação sem distinção”.

Ao ler esse editorial, foi inevitável me lembrar de outro filósofo alemão, Peter Sloterdijk. Em seu livro “O desprezo das massas”, ele afirma que a “mais poderosa máxima política” da modernidade está relacionada com o projeto de “desenvolver a massa como sujeito”, isto é, “vale a motivação de cuidar para que todo poder e todas as formas válidas de expressão partam de muitos.” Então, é preciso acabar com todas as hierarquias verticalizantes que antes distinguiam os poucos poderosos das multidões servis. As distinções se tornam “não apenas supérfluas como também indecentes”: “todo tipo de diferença antropológica teria de ser declarado irreal e inválido.”

Abaixo os “achadores de diferenças”. Abaixo os nobres, os santos, os sábios, e – última trincheira – os talentosos. A abolição dos talentosos é “mais dificultosa para a sociedade moderna”, pois a burguesia, ao deslegitimar a nobreza feudal, “se reportou a uma nobreza mais válida, à aristocracia natural do talento e do gênio.” Não importa: o trator da “paixão da dignidade para todos” passa por cima de qualquer bastião hierárquico. Sloterdijk arremata: “Talento, como até agora foi entendido, só incomoda. Para aquele que o possui ele não passa de uma armadilha; para aquele que não o possui, somente um aborrecimento. Genius go home.”

No Brasil, a democratização política coincidiu com a invenção/popularização da internet. Seguindo “alguns intérpretes de Hegel”, Sloterdijk desenvolve a hipótese de ser o mundo moderno “uma arena de lutas generalizadas por reconhecimento”, cujo valor “está correlacionado com a escassez.” Ou estava. Agora temos a abundância da realidade virtual, com microespaços de reconhecimento até para o look do dia/verdade política de adolescentes de qualquer vereda do Grande Sertão. O crepúsculo não é só dos ídolos (que, afinal de contas, sempre perderam – lembro aqui apenas um exemplo: o disco “Muito”, com “Terra” e “Sampa”, foi estraçalhado pela crítica e fracasso de vendas), mas de todos os “formadores de opinião”, incluindo os órgãos de imprensa que antes comercializam a escassez de canais para emissão opinativa.

biografias

16/11/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/11/2013

Impressionante a quantidade de energia gasta no debate sobre as biografias. Poucos outros assuntos foram tratados recentemente com tanto destaque. Hoje, ultrapassados os momentos mais emocionantes daquilo que este jornal chamou de Batalha (com B maiúsculo – será que entrará para livros de história como a Guerra do Paraguai?) talvez já seja possível identificar aprendizados coletivos importantes. Muita gente produziu textos longos repetindo aquilo que pioneiros libertários da internet nos ensinaram: a informação quer ser livre.

Sim, liberdade e coletividade são palavras que se sobressaem na leitura de depoimentos que já decretaram que “a sociedade venceu o debate”. Fiquei alegre ao encontrar, mesmo entre advogados de editoras, o seguinte consenso: conhecimento é produção coletiva e seus resultados, ainda que provisórios e contraditórios, são – em última instância – bens públicos. Essa é a consequência lógica da tese – defendida por Roberto Feith – “de que a trajetória de Getúlio, Garrincha ou Noel Rosa, a de Lula, Pelé ou Caetano Veloso fazem parte de nossa ideia de Nação” e, por isso mesmo, “o acesso de historiadores e escritores às suas trajetórias deve ser pensado no contexto do direito dos brasileiros de acederem à história de seu país.” Em resumo: “sua história também faz parte da história de todos nós.”

Parece definição de domínio público. Na base de qualquer legislação sobre direito autoral está o entendimento de que criações artísticas, avanços científicos e ideias são – também em última instância – bens coletivos. A sociedade, buscando incentivar mais invenção, concede generosamente aos criadores a possibilidade de explorar comercialmente sua produção por períodos de tempo bem determinados. Depois tudo necessariamente deve voltar para seu lugar natural, o domínio público, contribuindo livremente para novas produções, aumentando o conhecimento da Humanidade sobre si mesma.

Espero que a Batalha das Biografias acelere a formulação de legislações de direitos autorais – no Brasil e em tratados internacionais – que coloque o bem público como fundamento de todo o resto (até para o bem, em termos de renda, dos artistas, que terão mais material livre para recriar – recriação é elemento essencial de toda arte). As editoras poderiam lutar pela redução do período para as obras voltarem ao domínio público. Que ninguém se preocupe: não estou advogando o retorno aos 14 anos depois da criação, como foi na época de Thomas Jefferson. Apenas considero que 70 anos depois da morte dos autores é um absurdo contra a memória nacional.

(Eu poderia lançar propostas mais radicais. Inspirado em licenças “copyleft” – que divulgaram a ideia de “ShareAlike” [todo produto derivado de um software livre deve ser livre também – lembro: muitos softwares livres podem ser comercializados; e cada vez mais indústrias/autores lucram liberando seus produtos] – talvez fosse educado sugerir que os produtos derivados de vidas-privadas-que-são-consideradas-domínio-público devessem ser domínio público também. Mas isso seria pregar a abolição do direito autoral, coisa que nunca fiz. Reconheço o direito dos biógrafos/editoras de terem exclusividade sobre as vendas dos seus trabalhos, mesmo que envolvam exploração privada do que é propriedade coletiva.)

Já que estamos falando nessa memória: por que não usamos pequena porcentagem da energia do debate sobre as biografias para a melhora dos verbetes biográficos na, por exemplo, Wikipedia em português? O acesso à história de nosso país ganharia “upgrade” imediato. Compare a maioria dos verbetes em inglês, mesmo sobre assuntos brasileiros, com os verbetes em português. Vergonha nacional?

Sabemos que, para a maioria da população, a principal fonte de informações biográficas será, predominantemente, a internet (e os primeiros resultados de qualquer busca on-line geralmente são da Wikipedia), e não os livros em papel (nada contra os livros em papel, vou amá-los/comprá-los compulsivamente enquanto estiverem à venda). Vi a proposta de biografia não-autorizada de Caetano no Facebook. Mas aquilo ali é território privado, cercado, sem garantias de preservação. O que estamos fazendo para tornar as informações on-line mais confiáveis, com vida longa assegurada? Iniciativas centralizadas como a do ItaúCultural ou do Dicionário Cravo Albin, excelentes fontes de dados biográficos de nossos artistas, vão infelizmente se mostrar insustentáveis (como a Enciclopédia Mirador). Não há escapatória: a construção dessa memória é tarefa coletiva. A qualidade dos resultados é responsabilidade de todos – e dá trabalho para todos.

Feliz dia da proclamação da “coisa pública”!

barulho novamente

09/11/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/11/2013

Ainda vou demorar muito tempo para aprender a viver num mundo sem Lou Reed. Saber que ele estava vivo em algum lugar entre Manhattan e Long Island servia para mim como garantia de sanidade ou – talvez contraditoriamente, como convém para discípulo de Andy Warhol – de radicalidade protopunk. Soube de sua morte primeiro por um tweet de Alê Youssef (pausa para comercial: amanhã estreia Navegador, programa que faço com Alê, Ronaldo Lemos e Zé Marcelo Zacchi na GloboNews, conversando sobre muitas das inovações que também formam a pauta desta coluna). Quase automaticamente, fui visitar o site do New York Times, para conferir como o principal jornal da cidade que foi inspiração central para a obra de Lou Reed dava a notícia.

Chegando lá, encontrei – com destaque na home, para mim um pouco surpreendente devido à tradicional distância que o jornalismo sério dos EUA tenta manter diante da cultura popular – texto de outro amigo, Ben Ratliff (autor de livro extraordinário sobre John Coltrane, que ainda vou comentar aqui), onde encontrei o link para aquela que pode ter sido a última intervenção artística de Lou Reed, um texto sobre o disco Yeezus, de Kanye West, publicado em julho no site The Talkhouse, que eu não conhecia mas aprendi que se especializa em músicos falando de música.

Foi assim, navegando, que me deparei com este parágrafo maravilhoso, que resume – com argumento oposto aos louvores de sua arte como simples “contestação” – a filosofia estética que guiou a criação de Lou Reed: “eu nunca pensei em música como um desafio – você sempre imagina que o público é pelo menos tão inteligente quanto você é. Você pode fazer isso, porque você gosta disso, você acha que você está fazendo é lindo. E se você pensa que é bonito, talvez eles pensem que é bonito. Quando eu fiz ‘Metal Machine Music’, o crítico do New York Times John Rockwell disse: ‘Isso é realmente um desafio.’ Eu nunca pensei nisso assim. Eu pensei nisso como: ‘Wow, se você gosta de guitarras, é guitarra pura, do começo ao fim, em todas as suas variações. E você não está preso a uma batida.’ Isso é o que eu pensava. Não, ‘eu vou desafiá-lo para ouvir algo que eu fiz.’ Eu não acho que [Kanye] West nem por um segundo tenha tentado fazer isso, também. Você faz coisas porque é o que você faz e você ama o que faz.”

Adoro Kanye West e sua vontade de fazer belas obras-primas. “Yeezus”, na minha opinião, é o melhor disco de 2013 (junto com o choro do violão de 7 cordas de Gian Correa em “Mistura 7”, é claro). É um barulho radical e divino, para o qual fomos preparados por “Metal Machine Music”, mesmo quem nunca escutou a lição de microfonia de Lou Reed. Não estou sendo original ao fazer essa ligação. Repito, com outras palavras, um trecho de “Words and music”, livro sagrado do crítico inglês Paul Morley: “Se você gosta mesmo desse tipo de coisa, o tipo de coisa que determina que sua vida seja vivida dentro do barulho, […] se você realmente pensa que o barulho pode ser libertação, […] então ‘Metal Machine Music’ é, você sabe, o Bill Haley and The Comets desse tipo desse tipo de coisa.”

Quando fui ouvir finalmente “Metal Machine Music”, eu já tinha passado pelo hip hop (que para mim sempre foi, antes de qualquer outra coisa, arte do barulho herdeira direta e sem dúvida da música concreta e eletroacústica), por performances do Chelpa Ferro e por shows de drone music/extreme metal sinistro e belo da banda encapuzada Sunn O))). Minha reação foi parecida com a de Alexandre Hacke, do Einstürzende Neubauten (também vi seu show com britadeiras e máquina de rodar concreto cheia de pedras no Cine Íris): “Eu realmente escutei o disco inteiro, muitas, muitas vezes, e me lembro de me perguntar qual a razão de tanta celeuma, tipo a decepção de não ter ficado assustado com um filme de horror muito esperado.”

Retirei essa declaração de Alexandre Hacke da homenagem póstuma para Lou Reed publicada no site da revista The Wire, onde também está disponível artigo de Alan Licht, um dos grandes criadores/pensadores da música atual. Licht cita entrevista que fez com Reed: “Tudo que eu queria fazer [com o Velvet Underground] era escrever canções nas quais pessoas como eu pudessem se reconhecer.” Que eu tenha me reconhecido em “Metal Machine Music” não tem a menor importância. Crucial foi o reconhecimento de outros músicos, como Irmin Schmidt, que falou para a The Wire, lembrando a primeira vez que ouviu o Velvet Underground: “foi como um súbito despertar. Eu deveria mudar minha vida. E mudei. Formei o Can.”

Que beleza que o último texto de Lou Reed tenha sido o elogio de Kanye West. Nada de nostalgia. Viva o futuro do barulho!

laboratórios públicos

02/11/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/11/2013

Terminei a coluna passada com a campanha “um hackerspace em cada praça”. Não expliquei o que é hackerspace para atiçar a curiosidade alheia. Quem correu atrás deve ter percebido: hackerspace não é lan-house turbinada com impressoras 3D. É muito mais. Melhor pensá-lo como laboratório público, aberto para os mais diversos tipos de experiências. Assim como há uma década o assunto do momento era “jornalismo cidadão”, agora o debate se ampliou: chegou a vez dos coletivos de “cientistas cidadãos”.

Cito alguns exemplos: o Biocurious, da California, ou o Genspace, de Nova York. A missão do primeiro: “Nós acreditamos que inovações em biologia devem ser acessíveis, baratas e abertas para todo mundo. Nós estamos criando um laboratório comunitário de biologia para amadores, inventores, empreendedores e qualquer pessoa que queira fazer experiências com amigos.” Entre os equipamentos disponíveis estão freezer de -20 graus e sistema de purificação de proteína. Não por acaso a biologia está na vanguarda dessa mutação na produção de conhecimento. Deixamos a era em que só era possível programar código de computador; agora há cada vez mais gente tentando programar código genético.

A cena dos biohackers acaba de ganhar seu primeiro órgão de imprensa. Há três semanas, as empresas de Tim O’Reilly lançaram a newsletter BioCoder. É preciso prestar atenção em tudo que a O’Reilly Media se mete. Seu dono, já acusado de ser “gigolô de mimes”, sempre fareja o que vem com tudo por aí. Foi ele que popularizou expressões como Web 2.0, “open government”, “open source”, e também acelerou a articulação do movimento “Maker”. Mesmo esperando sempre boas surpresas de sua parte, devo confessar que a BioCoder me deixou em estado de choque. Nunca li nada tão radical.

Manifesto Black Bloc parece brincadeira de criança do século XIX se comparado com o seguinte trecho de post de divulgação da newsletter: “agora temos as ferramentas para escrever DNA, inserir esse código em uma célula, dar um “reboot” na célula e fazer essas células produzirem proteínas e substâncias personalizadas.” É ciência de rua, parecida com aquela do filme Blade Runner, em que barracas-laboratórios disputavam espaço nas feiras, ao lado do vendedor de ciberpeixe. O discurso é político: contra o monopólio da ciência nas mãos das grandes corporações, pesquisadores “impacientes com a estrutura de trabalho dos laboratórios tradicionais” querem “acelerar a marcha da inovação biotecnológica.” Até para produzir imortalidade o mais rápido possível.

Claro que tudo isso levanta questões éticas, legais, culturais e de segurança estonteantes. Um artigo da BioCoder mostra como os “cientistas cidadãos” se aproveitam de brechas em leis, muitas vezes no vácuo de laboratórios multibilionários multinacionais. Os advogados da Monsanto conseguiram contornar a legislação para produzir uma espécie de grama que não é considerada alimento para nenhum animal (portanto não é regulada pela Administração de Alimentos e Drogas do governo dos EUA). Os biólogos cidadãos passaram a usar a mesma técnica de “arma-genética” para produzir plantas ornamentais que brilham no escuro.

Se o objetivo fosse só a produção de beleza, não estaríamos em território tão perigoso. Em outro artigo da BioCoder descobrimos que o primeiro grande encontro dos biólogos “faça-você-mesmo” teve patrocínio do FBI (o “novo” FBI, que não quer ser novamente pego de surpresa por algo como a utilização terrorista de escola de pilotos de avião). Na estrutura do serviço de informações quem cuida da monitoração dos laboratórios comunitários é parte do departamento de “armamento de destruição de massa”.

Toda essa movimentação acontece em período de grandes descobertas na biologia mais oficial. Não falo apenas de Craig Venter e dos vários projetos envolvendo decifração de genomas. Penso mais no meu espanto ao me deparar, pendurada nas bancas, com uma capa da Scientific American de 2012 que perguntava: “No seu corpo, as bactérias são 10 vezes mais numerosas que suas próprias células – quem está no controle?” Estamos aprendendo que esses trilhões de bichinhos que vivem conosco podem ser até responsáveis pela nossa sensação momentânea de felicidade.

Mas só fiquei totalmente “caraca maluco” quando no início de outubro encontrei artigo de Michael White, biólogo de sistemas, revelando que nosso próprio DNA é um ecosistema, com até “pseudogenes zumbis” marcando presença. Indivíduos? Somos todos coletivos. E no futuro só laboratórios hackers vão produzir as biografias de todo o povo que vive dentro da gente.


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