barulho novamente

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/11/2013

Ainda vou demorar muito tempo para aprender a viver num mundo sem Lou Reed. Saber que ele estava vivo em algum lugar entre Manhattan e Long Island servia para mim como garantia de sanidade ou – talvez contraditoriamente, como convém para discípulo de Andy Warhol – de radicalidade protopunk. Soube de sua morte primeiro por um tweet de Alê Youssef (pausa para comercial: amanhã estreia Navegador, programa que faço com Alê, Ronaldo Lemos e Zé Marcelo Zacchi na GloboNews, conversando sobre muitas das inovações que também formam a pauta desta coluna). Quase automaticamente, fui visitar o site do New York Times, para conferir como o principal jornal da cidade que foi inspiração central para a obra de Lou Reed dava a notícia.

Chegando lá, encontrei – com destaque na home, para mim um pouco surpreendente devido à tradicional distância que o jornalismo sério dos EUA tenta manter diante da cultura popular – texto de outro amigo, Ben Ratliff (autor de livro extraordinário sobre John Coltrane, que ainda vou comentar aqui), onde encontrei o link para aquela que pode ter sido a última intervenção artística de Lou Reed, um texto sobre o disco Yeezus, de Kanye West, publicado em julho no site The Talkhouse, que eu não conhecia mas aprendi que se especializa em músicos falando de música.

Foi assim, navegando, que me deparei com este parágrafo maravilhoso, que resume – com argumento oposto aos louvores de sua arte como simples “contestação” – a filosofia estética que guiou a criação de Lou Reed: “eu nunca pensei em música como um desafio – você sempre imagina que o público é pelo menos tão inteligente quanto você é. Você pode fazer isso, porque você gosta disso, você acha que você está fazendo é lindo. E se você pensa que é bonito, talvez eles pensem que é bonito. Quando eu fiz ‘Metal Machine Music’, o crítico do New York Times John Rockwell disse: ‘Isso é realmente um desafio.’ Eu nunca pensei nisso assim. Eu pensei nisso como: ‘Wow, se você gosta de guitarras, é guitarra pura, do começo ao fim, em todas as suas variações. E você não está preso a uma batida.’ Isso é o que eu pensava. Não, ‘eu vou desafiá-lo para ouvir algo que eu fiz.’ Eu não acho que [Kanye] West nem por um segundo tenha tentado fazer isso, também. Você faz coisas porque é o que você faz e você ama o que faz.”

Adoro Kanye West e sua vontade de fazer belas obras-primas. “Yeezus”, na minha opinião, é o melhor disco de 2013 (junto com o choro do violão de 7 cordas de Gian Correa em “Mistura 7”, é claro). É um barulho radical e divino, para o qual fomos preparados por “Metal Machine Music”, mesmo quem nunca escutou a lição de microfonia de Lou Reed. Não estou sendo original ao fazer essa ligação. Repito, com outras palavras, um trecho de “Words and music”, livro sagrado do crítico inglês Paul Morley: “Se você gosta mesmo desse tipo de coisa, o tipo de coisa que determina que sua vida seja vivida dentro do barulho, […] se você realmente pensa que o barulho pode ser libertação, […] então ‘Metal Machine Music’ é, você sabe, o Bill Haley and The Comets desse tipo desse tipo de coisa.”

Quando fui ouvir finalmente “Metal Machine Music”, eu já tinha passado pelo hip hop (que para mim sempre foi, antes de qualquer outra coisa, arte do barulho herdeira direta e sem dúvida da música concreta e eletroacústica), por performances do Chelpa Ferro e por shows de drone music/extreme metal sinistro e belo da banda encapuzada Sunn O))). Minha reação foi parecida com a de Alexandre Hacke, do Einstürzende Neubauten (também vi seu show com britadeiras e máquina de rodar concreto cheia de pedras no Cine Íris): “Eu realmente escutei o disco inteiro, muitas, muitas vezes, e me lembro de me perguntar qual a razão de tanta celeuma, tipo a decepção de não ter ficado assustado com um filme de horror muito esperado.”

Retirei essa declaração de Alexandre Hacke da homenagem póstuma para Lou Reed publicada no site da revista The Wire, onde também está disponível artigo de Alan Licht, um dos grandes criadores/pensadores da música atual. Licht cita entrevista que fez com Reed: “Tudo que eu queria fazer [com o Velvet Underground] era escrever canções nas quais pessoas como eu pudessem se reconhecer.” Que eu tenha me reconhecido em “Metal Machine Music” não tem a menor importância. Crucial foi o reconhecimento de outros músicos, como Irmin Schmidt, que falou para a The Wire, lembrando a primeira vez que ouviu o Velvet Underground: “foi como um súbito despertar. Eu deveria mudar minha vida. E mudei. Formei o Can.”

Que beleza que o último texto de Lou Reed tenha sido o elogio de Kanye West. Nada de nostalgia. Viva o futuro do barulho!

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