frágil

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/01/2014

Continuando de onde parei em 2013. Dizem que as listas das empresas que pagaram propinas para a “máfia do ISS paulistano” contêm mais de quatrocentos nomes de construtoras, hospitais, igrejas. Qual a razão para nenhuma delas ter denunciado o esquema? Fico mais impressionado com outro número: em artigo para a New York Review of Books, Alan Rusbridger, editor do The Guardian, sugere que cerca de 850 mil (VER NOTA NO FINAL DESTE TEXTO) funcionários, terceirizados ou não, da NSA, a agência de segurança nacional dos EUA, tinham acesso aos documentos secretos vazados por Edward Snowden em furo do seu jornal britânico. Um segredo compartilhado por quase 1 milhão de pessoas continua top secret? Não importa: o que espanta é constatar que, mesmo ao ver autoridades jurando no Congresso que um programa de espionagem como o Prism não existia, só Snowden tenha colocado a boca no trombone.

Explicação otimista: os outros funcionários da NSA que sabiam da existência do programa, e continuam silenciosos, confiam piamente na necessidade e eficácia da espionagem para a prevenção de atentados terroristas. Melhor ainda: eles têm acesso a outros documentos que provam que muitas tragédias já foram evitadas por causa desse controle “apenas de metadados” proporcionado pelo Prism. Estranho que nenhum desses casos tenham vindo a público para a defesa da NSA. Devem ser documentos mais secretos ainda, cuja revelação tornaria mais fáceis futuros atentados e assim por diante.

Talvez o acesso a essa informação extremamente sigilosa tenha sido o fator crucial para fazer o próprio presidente Obama mudar sua opinião sobre a necessidade desse tipo de espionagem. Como mostra um detalhadíssimo artigo de Ryan Lizza, correspondente em Washington da revista New Yorker, um dos maiores críticos dos programas de vigilância da era Bush foi o senador Obama. Como explicar que não tenha conseguido impedir o avanço do Prism, que desobedecia até as diretrizes do tribunal secreto que tem função de vigiar a vigilância? Na investigação de Ryan Lizza, um momento decisivo para o presidente foi a tentativa de atentado de estudante nigeriano, armado com bomba produzida no Iêmen na cueca, em voo de Amsterdam para Detroit no Natal de 2009. O Centro Nacional de Contraterrorismo foi criticado por não ter detectado previamente a possibilidade de ataque. A Casa Branca não queria nem pensar na possibilidade de ser acusada de despreparo e incapacidade para defender seu país. Isso para não dizerem depois que o presidente foi o culpado? Somos todos vítimas de uma cueca quase assassina? Tudo é tão frágil assim?

Provavelmente ninguém tem todas as informações para saber realmente o que está acontecendo. É desgoverno de todos contra todos, em nome da segurança de todos. O texto de Alan Rusbridger faz outras revelações assustadoras. Por exemplo: membros do gabinete do primeiro-ministro britânico, inclusive aqueles que participam das reuniões semanais do Conselho de Segurança Nacional, também só souberam da existência do Prism depois dos vazamentos de Snowden. O pior: eles estavam discutindo a implantação de um programa semelhante que custaria quase dois bilhões de libras.

Outra: alguém “very senior” em megacorporação da Costa Oeste dos EUA confidenciou para Alan Rusbridger que nem seu CEO tem autorização para saber que tipo de acordo sua companhia faz com o governo. O editor do The Guardian perguntou: “Então é uma companhia dentro da companhia?” Resposta evasiva: “Eu conheço o cara, confio nele.” E nós, que devemos usar os serviços da tal megacorporação, também confiamos? É tudo uma questão de confiança: os caras sabem o que estão fazendo e tudo isso, inclusive o fato de não podermos saber de nada, é para nossa proteção? Tem alguém cuidando de tudo, ou o piloto, apesar de não ter sumido, é somente um ator fingindo que tem o controle do avião? Repito a pergunta, que pode ser ingênua, pois sei que não sei de nada: tudo é tão frágil assim?

Os governantes querem manter a pose, fingem não estar por fora, ou querem dizer que confiam nos caras que tomam as decisões. Alan Rusbridger, que nasceu na extinta Rodésia, participou de interrogatório trágico no parlamento britânico. O deputado e coordenador do comitê de “Home Affairs” Keith Vaz, que ganhou esse sobrenome lusitano de pai de Goa, achou que por ter nascido em Aden teria legitimidade para perguntar: “Você e eu nascemos fora deste país. Eu amo este país, você ama este país?”

De volta ao Brasil: “ame-o ou deixe-o”. Lembro também dos primórdios da nossa política de informática, com a Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico, de 1972, depois ligada ao Conselho de Segurança Nacional. Vanguarda?

NOTA: Alguns leitores do Globo já me escreveram achando esse número (850.000 pessoas) exagerado. Também achei, e foi meu espanto que me levou a escrever este texto. Não sei como Alan Rusbridger chegou a esse número, nem quem são suas fontes. Mas o “850.000” não aparece apenas no artigo da New York Review of Books. Reaparece, por exemplo, nesta carta que Alan Rusbridger escreveu para Julian Smith, membro do parlamento britânico, e na transcrição oficial de seu testemunho oral no mesmo parlamento britânico. Acredito que um editor de jornal da importância do The Guardian, com as fontes que tem, não vai citar um número assim nesse tipo de situação (no Parlamento) se não tiver o mínimo de certeza sobre o que está falando. Além disso, pesquisei e não encontrei contestação oficial desse número. Meu engano pode ser ter pensado que todos são funcionários, mesmo terceirizados, da NSA. Se não forem todos funcionários, ou com alguma ligação formal com a NSA, quem são? Nossa situação seria bem mais frágil. Quem manda nessa gente toda?

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