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a turma do Hall

22/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/02/2014

Quando soube da morte de Stuart Hall, considerado por muitos – mesmo sem ele gostar do título – “o pai dos Estudos Culturais” e um dos principais teóricos/militantes do multiculturalismo, fui logo procurar meu velho exemplar de “Resistance through rituais”, coletânea de ensaios que editou, com Tony Jefferson, em 1975/76. É um volume fetiche na minha biblioteca, numa edição neozelandesa com cara de datilografada. Essa publicação pioneira foi incentivo importante para meu estudo sobre o baile funk nos anos 1980. Antes dela, pesquisas sobre subculturas juvenis e música pop eram encaradas com preconceito na academia. A orientação de Stuart Hall, no Centro para Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham, foi decisiva para que teses sobre rock ou reggae ganhassem respeitabilidade. Uma geração de antropólogos, sociólogos etc. passou a existir seguindo seu exemplo e derrubando fronteiras entre assuntos “nobres” e “periféricos”.

Devemos então perceber a herança de Stuart Hall não apenas em seus escritos, mas na grande diversidade de trabalhos que influenciou e na marcante redefinição do campo de estudos sobre cultura e sociedade proposta em sua carreira. Ele mesmo declarou – em entrevista para Heloísa Buarque de Hollanda e Liv Sovik – que não era autor de livros, mas de textos de intervenção, que depois eram publicados em coletâneas organizadas por outras pessoas. Em “Resistance through rituals” sua posição estava no polo oposto: a do organizador de reunião de textos alheios. Tudo era parte de um circuito intenso de animação de novas ideias.

Folheando agora “Resistance through rituals” me deparo com turma da pesada de autores. Resolvi que minha homenagem para Stuart Hall não deve ser algo nostálgico, lembrando sua trajetória, mas sim uma busca pela internet para descobrir o que seus discípulos vivos estão aprontando hoje. Escolhi três deles, os que foram cruciais para minha formação (e fora da academia, para muitos críticos de música popular) e com quem perdi contato recentemente: Dick Hebdige, Ian Chambers e Simon Frith.

Em “Resistance through rituals”, Dick Hebdige publicou dois artigos, um sobre mods e outro sobre rastas e rude boys. Já estava preparando seu livro mais conhecido, “Subcultura – o significado do estilo” (publicado em 1979; percebo neste instante: será que nunca teve edição brasileira?), que propôs maneira extremamente original (e hoje quase senso comum) de entender a invenção do punk, como bricolagem terminal/caótica da linha evolutiva de todas as tribos juvenis britânicas anteriores, entre elas a dos mods e a dos rude boys. Hoje, Dick Hebdige é professor de Estudos da Mídia na Universidade da California em Santa Barbara, onde pesquisa a integração de autobiografia, crítica e pedagogia. Recentemente publicou capítulos em livros sobre Takashi Murakami, o artista japonês, e Andi Watson, o mais celebrado iluminador de shows de rock (o livro teve prefácio de Thom Yorke).

Ian Chambers, na coletânea organizada por Stuart Hall, é o autor de “Uma estratégia para viver”, abordando a complexa relação entre adolescentes ingleses brancos e música negra de origem primeiro norte-americana e em seguida jamaicana. Em 1985, lançou “Ritmos urbanos”, uma das melhores histórias da música pop de língua inglesa. Desde o final dos anos 1970 mora em Nápoles, Itália, onde comanda o Centro Studi Postcoloniali da universidade mais conhecida pelo simpático apelido L’Orientale. Sua linha de pesquisa atual, aprofundando seu interesse por fronteiras e migrações, reescreve a história do Mediterrâneo, como uma outra modernidade interrompida.

Simon Frith era o que tinha relação mais informal com o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham, mas em “Resistance through rituals”, assinou, junto com Paul Corrigan, o artigo “As políticas da cultura juvenil”. Logo após, em 1978, saiu sua “Sociologia do rock”, hoje em todas as bibliografias básicas do gênero. Seu currículo posterior impressiona: livros sobre a performance musical, sobre a relação entre arte e pop, além de muito mais sobre a política do rock. Também foi colunista de jornais como o Observer e o Village Voice, fundou a revista acadêmica (excelente) Popular Music, e é presidente do júri do Mercury, o mais prestigioso prêmio da indústria fonográfica britânica, desde a sua criação em 1992.

Procurando hoje sobre Simon Frith na internet encontrei o anúncio de uma conferência internacional em sua homenagem a ser realizada em abril na Universidade de Edimburgo, com direito a show radical de Fred Frith, Chris Cutler e Tom Arthurs. Certamente a memória de Stuart Hall também será ali celebrada.

batizado

15/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/02/2014

Amanhã só escutarei zouk bass para comemorar um ano do batismo desse “gênero musical”. Exatamente no dia 15/02/2013 a cerimônia aconteceu com toda solenidade dançante em clube de Lisboa. Mais importante: foi transmitida pela Boiler Room, a tv online autointitulada “o principal show de música underground do mundo”. Quem comandava a festa era o Buraka Som Sistema. Seu set começou com “Tarraxo na parede”, do DZC Deejay, coletivo baseado na cidade de Setúbal. O reverendo foi o MC Kalaf Ângelo, do Buraka (e uma das pessoas mais bacanas e inteligentes do planeta), que – ao som das primeiras batidas eletrônicas – celebrou ao microfone em inglês (sua audiência era global): “we call it zouk bass”. Pronto. Repercussão imediata em todos os continentes. O registro do batizado tem mais de 300 mil visualizações no YouTube.

Doze meses depois: já tenho material suficiente para passar as 24 horas deste sábado ouvindo apenas zouk bass. Em 2013, só o site da gravadora Mad Decent disponibilizou três compilações chamadas Zouk Bass, com faixas produzidas nas mais diferentes latitudes/longitudes. As previsões para 2014 indicam enxurradas de lançamentos. Semana passada o Público, jornal lusitano, decretou em manchete de matéria com lista enorme de estreantes: “Há um novo som a bater na cidade”. O DJ UMB, no blog referência Generation Bass (também selo musical e “instituição”), anunciou: “2014 vai ser um grande ano” com novas direções para o “gênero”.

Coloco aspas envolvendo a palavra gênero porque é difícil definir suas características propriamente musicais, apontando suas diferenças com relação a todas as outras novidades que confundem alegremente nossos passos nas pistas de dança mais avançadas. Na verdade, o MC Kalaf apenas criou “brand” bem sucedido para identificar a mais nova mutação numa longa história musical. O título da música que abriu o set do Buraka não era “tarraxo” à toa. Tarraxo, ou tarraxinha (que vem com tudo no próximo carnaval baiano, até em sucesso de Cláudia Leitte com Luiz Caldas), denomina a maneira angolana de se apropriar do zouk, música criada pelos antilhanos entre a França e Guadeloupe/Martinica, que fez retumbante sucesso na África nos anos 1980.

Acompanho com enorme interesse a trajetória do zouk desde aquela época. Cheguei até a publicar aqui no Segundo Caderno, em fevereiro de 1987, entrevista com Jocelyne Béroard depois da apresentação de seu grupo Kassav’ (inventor do zouk) no Recife. Foi incrível ver a reação da plateia que nunca tinha ouvido as músicas tocadas no palco. Todo mundo dançando lambada. Explicação fácil: a lambada brasileira nasceu com LPs piratas, lançados por gravadoras paraenses, de música caribenha, inclusive a cadence das Antilhas Francesas. O zouk era uma modernização pop (turbinada pelo baixo funk sublime de George Décimus) da cadence.

Quando visitei a África em 1988, o zouk era o ritmo do momento, com excursão triunfal do Kassav’ lotando inclusive o maior estádio de Luanda (há registros no YouTube). Não demorou muito para a criação de híbridos locais, assim como acontecera com a música cubana antes, elemento fundamental para o highlife de Gana ou para, obviamente, a rumba congolesa (que depois se misturou ao zouk). Essa interação cultural muito dinâmica no Atlântico Negro é fenômeno secular.

Nos anos 1990 passei em Cabo Verde e percebi que a música mais popular em todas as suas ilhas era a versão local do zouk mais romântico, o zouk love, cantada em crioulo. A RDP África, rádio de Lisboa que podia ser escutada no FM de todos os países africanos de língua portuguesa (em um de seus programas, ouvi também, andando por mercado de Bissau, entrevista com Paulo Coelho), cuidou de difundir o zouk caboverdiano em Angola. Ali, uma vertente mais percussiva deu no kuduro, outra mais melodiosa deu no tarraxo, para casais dançarem juntinhos. Os imigrantes africanos levaram esses sons para Portugal e lá fizeram novas misturas, agora com moombahton e trap. Deu no zouk bass.

O Buraka Som Sistema (tenho orgulho de ser responsável por sua primeira apresentação no Rio, começando pelas bordas: no festival Baile Skol eles só tocaram em Campo Grande e Duque de Caxias) atua na função de curadoria de todas essas novidades, com poder para transformá-las em tendências planetárias. Antes do zouk bass, o site Enchufada (quartel-general do Buraka) já tinha espalhado o tuki venezuelano pelo mundo. Esse tipo de circulação cultural agora é muito veloz. Não há mais nova cena artística, mesmo na periferia da periferia, que não ganhe visibilidade imediata. Outro candidato ao novo cool: “todo mundo antenado” só fala agora na “rasteirinha”, o tarraxo do funk carioca, antes de qualquer jornal brasileiro saudar devidamente a novidade.

A Bolha

08/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/02/2014

No último dia de novembro do ano passado, Ronaldo Bressane publicou, no Guia Folha, microresenha de “Forming”, novela gráfica de Jesse Moynihan. Descrição: “uma épica e absurda batalha entre deuses alienígenas, titãs gregos, androides interplanetários e até mesmo humanos.” Nem falou em metafísica dogon, mas não precisava. Suas palavras foram suficientes para ter início minha batalha em busca desse estranho objeto. Passei em várias queridas livrarias e não havia nada sobre o lançamento nos registros. Fui parar no site de sua editora carioca (mais precisamente: de Santo Cristo, do teto da Bhering), A Bolha. Não tenho nada a ver com a doença do “eu vi primeiro”, identificada por outro Ronaldo, o Lemos. Então posso confessar: não sabia de sua existência. Fiquei horas conferindo o catálogo. Só nomes que desconhecia. Isto é o que mais gosto na vida: o súbito descortinar de diverso e vasto novo universo.

Escrevi para o contato da editora, perguntando onde poderia comprar “Forming” e os outros livros. Rapidinho recebi resposta. Reconheci a assinatura: era Rachel Gontijo Araujo, a editora pessoa física que agora – depois que Stephanie Sauer, artista plástica e a outra metade fundadora d’A Bolha, voltou para os EUA – virou toda a editora, cuidando – sem outros funcionários – de cada etapa de produção/comercialização, da primeira conversa com autores à correspondência com a clientela. Comprovei imediatamente tudo que havia lido em suas entrevistas disponíveis no site. Não era marketing indie, era a realidade cotidiana da empresa.

Rachel me falou da dificuldade das relações entre pequenas editoras e grandes livrarias. Por isso eu não encontrei “Forming” em lugar nenhum (honrosa exceção: todos os livros d’A Bolha podem ser encontrados, descobri depois, na Blooks, livraria que sempre deu força para quadrinhos independentes). Não repito sua explicação para transformar as lojas em vilãs, mas para sugerir diálogo que fortaleça a “ecologia livreira” nacional, que vai precisar cada vez mais de independentes para satisfazer nichos vorazes (o futuro do mercado?) de leitores (é decepcionante entrar em ambiente gigantesco, como o da Cultura da Cinelândia, e não encontrar muito além do que espaços bem menores já vendem). Rachel, sem ressentimento algum, faz o diagnóstico citando condições comuns das “grandes”: pedidos de descontos de 50% no preço de capa; preferência por consignação e não por compra de exemplares; pagamento de fretes pelas “pequenas”. Em resumo: “para uma editora independente, esse relacionamento não faz muito sentido.”

Pena. Grande parte dos compradores de livros acaba não tendo acesso ao catálogo incrível já lançado por essa valente empresa do Santo Cristo. Isto é o mais importante para ser destacado: Rachel (antes em conjunto com Stephanie) faz o trabalho de uma verdadeira casa das letras: criação de linha editorial com grande personalidade. Não segue o jogo dos poderosos agentes literários internacionais nas grandes feiras de livro, não está preocupada com relançar por aqui o que ganha os principais prêmios lá fora. Nada contra os best-sellers, nada contra os prêmios, nada contra as feiras. Mas alguém precisa publicar apenas o que ama ler, olhando para outros lados, fazendo outras descobertas, para formar novos públicos com novos olhares, capazes de produzir outras novidades.

Só por causa d’A Bolha fui conhecer Jesse Moynihan (e a apresentação se deu em grande estilo: capa dura, impressão belga – o independente não significa falta de cuidado ou de luxo, mas mesmo assim consegue ser mais barato que outras edições do mesmo nível). Só depois fui parar no seu blog, onde lançou cada página de “Forming” em diferentes posts, com acompanhamento do público nos comentários. Isso é prova que publicar antes e de graça na internet não é barreira para vender papel em seguida. Por exemplo: eu já li “Forming 2” no blog, mas vou comprar sua edição em livro assim que A Bolha lançar (o livro inglês deve sair agora em março). Recomendo também a parceria de Moynihan com Dash Shaw (o autor de “Umbigo sem fundo”, lançado pela Quadrinhos na Cia.) na revista The Believer. Ou “Adventure time”, desenho animado escrito por Moynihan, exibido no Cartoon Network.

Isso aconteceu com os outros livros d’A Bolha. Depois da leitura ia procurar mais na internet, e tudo virava outra grande aventura. Como eu era ignorante sem conhecer CF, autor do excelente Powr Mastrs (A Bolha já lançou dois de seus volumes), talvez o “Incal” de nossos dias (se não concorresse com “Forming”…), certamente mais misticamente delirante que Rudy Rucker ou Philip K. Dick. E assim vai, até chegar na tradução/publicação de Hilda Hilst em inglês, parceria A Bolha/Nightboat. Conexões diretas estourando várias bolhas editoriais do mundo.

***

Eduardo Coutinho: precisamos ver logo seu próximo filme, “Palavra”. E fazer mais e melhores documentários, para honrar seu legado. Para recomeçar é obrigatória a leitura deste texto de Carlos Nader.

privilégio carioca

01/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/01/2014

O belo desenho de Loredano com trecho da rua do Ouvidor onde fica a Folha Seca, publicado sábado passado no caderno Prosa deste jornal, reconfirma algo que já escrevi por aqui: temos o privilégio de viver numa cidade com excelentes livrarias, de várias especialidades. Aproveito para perguntar: alguém sabe me dizer que fim levou a promessa de reabertura da Camões? Não podemos viver mais muito tempo sem lugar dedicado às editoras portuguesas. Quero resposta, mas não estou aqui para reclamar. Copio dona Yacy, que – com mais de 80 anos – declarou: “Ao contrário de muitas pessoas, não me preocupo com o fim das pequenas livrarias, tampouco com o fim do livro, assim como o conhecemos. Simplesmente não me preocupo com o futuro: prefiro agir no presente, mantendo, ainda que frente a todas as dificuldades – que não são poucas – o mesmo espírito que me levou a abrir a Malasartes.” Esta coluna é para celebrar o que existe, aqui e agora.

Começando pela existência, há três décadas, da própria Malasartes. Considero aquele cantinho do Shopping da Gávea não somente livraria infantil – uma das melhores do mundo – mas também centro cultural, patrimônio material e imaterial do Rio de Janeiro. Em meus rolezinhos pelas suas prateleiras – algumas baixinhas para ficarem ao alcance dos pequenos -, costumo descubrir obras que mudam minha vida. E não apenas naquela estante central que mistura, sempre com curadoria surpreendente, lançamentos destinados para adultos com outros para adolescentes e crianças. Muitas vezes sigo apenas as indicações de dona Yacy e suas filhas Renata e Cláudia. É família que merece a autodefinição da mãe: “livreira amiga dos livros”.

“Era uma vez” que fiquei bem amigo do discurso de Kenzaburo Oe em agradecimento ao Prêmio Nobel. Ele começa lembrando o tempo da Segunda Guerra Mundial, quando era criança e vivia isolado num vale da ilha Shikoku. Foi salvo por dois livros, duas aventuras. A primeira eu conhecia: Huckleberry Finn. Da outra nunca tinha ouvido falar: Nils Holgersson. A citação da obra sueca, assinada por Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ganhar o Nobel literário, funcionava como agrado a seus anfitriões nórdicos. Porém, o tom de Oe demonstrava algo mais: “eu tive uma revelação que esse mundo e esse modo de vida ali eram realmente libertadores.” E ainda havia o encanto da linguagem dos pássaros e da humanidade do pequeno Nils. Foi o suficiente para despertar em mim o desejo de ler esse livro, que estava praticamente esgotado.

Então recorri aos poderes mágicos de dona Yacy. Ela não descansou enquanto não conseguiu um exemplar. Seu desejo de que eu fizesse aquela leitura era até maior que o meu. Eu já teria desistido antes. Ainda bem que dona Yacy se empenhou na tarefa. Ficam aqui meus profundos agradecimentos. Como vivi tanto tempo sem conhecer a águia Gorgo e, sobretudo, Akka de Kebnekaise, gansa centenária em quem sempre penso ao ouvir falar de catástrofe ecológica? Vontade de viajar até a Lapônia seguindo a descrição peculiar de Lagerlöf. Como esta, botânica: “embora tenha apenas uma raiz enfezada, galhinhos enfezados e folhas secas e enfezadas, a urze gosta de se imaginar uma árvore. E se comporta como uma árvore de verdade.”

Oe não é o único japonês devoto de Nils Holgersson. Aprendi depois que Mamoru Oshii, o diretor de anime já nomeado para os prêmios principais de Cannes e Veneza, assinou adaptação da obra de Lagerlöf para série de TV. Não entendo direito a razão para ainda não ter acontecido o mesmo com outra descoberta que devo à Malasartes: a Saga Otori, de Lian Hearn, que teve seu último volume, “A rede do céu é vasta”, lançado recentemente no Brasil pela Martins Fontes.

Era momento de entressafra de Harry Porter. Entrei na livraria de dona Yacy com meu sobrinho Luca ainda pré-adolescente, tentando aproveitar aquele embalo de leitura voraz, centenas de páginas de J. K. Rowling numa única noite. Cláudia Moraes, uma das filhas-sócias da Malasartes, percebeu o que estava acontecendo e colocou em nossas mãos exemplares de “O piso-rouxinol”, a estreia Otori, dizendo que era literatura juvenil rara, com personagens femininas complexas e poderosas. Eu desenvolvi amizade compulsiva com a Saga (no total são cinco volumes; o último é a volta para antes do primeiro), na qual só tocava em períodos de intervalo de trabalho, pois quando começava a ler ficava enfeitiçado pela narrativa de aventuras numa idade média japonesa paralela, onde cada herói – e tudo começa mesmo com uma batalha perdida – precisava aprender (o que inclui uma “morte significativa”) a trilhar os difíceis e contraditórios caminhos do viver bem.

Hoje estou aqui apenas para passar adiante as boas lições que aprendi na Malasartes.

PS: Neste texto, por questão de espaço no jornal,fiz a opção de falar apenas da minha relação pessoal com a Malasartes, que teve inicio já neste século, acompanhando meus sobrinhos. Mas preciso aqui homenagear também Ana Maria Machado e Maria Eugênia Silveira, fundadoras da livraria junto com Renata Moraes. Elas também foram responsáveis pela concepção da maneira original de arrumação, exposição e agrupamento dos livros nas prateleiras, que seguem basicamente o mesmo padrão desde 1979 (Ana Maria Machado trabalhou na Malasartes por 18 anos; em seu blog ela conta um pouco do início de tudo). Infelizmente não achei na internet textos com essa história mais detalhada. Se alguém souber onde encontrar mais informações, por favor deixe os links nos comentários. Sempre penso cada um dos posts deste blog apenas como pontos de partida para quem quer saber mais.


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