privilégio carioca

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/01/2014

O belo desenho de Loredano com trecho da rua do Ouvidor onde fica a Folha Seca, publicado sábado passado no caderno Prosa deste jornal, reconfirma algo que já escrevi por aqui: temos o privilégio de viver numa cidade com excelentes livrarias, de várias especialidades. Aproveito para perguntar: alguém sabe me dizer que fim levou a promessa de reabertura da Camões? Não podemos viver mais muito tempo sem lugar dedicado às editoras portuguesas. Quero resposta, mas não estou aqui para reclamar. Copio dona Yacy, que – com mais de 80 anos – declarou: “Ao contrário de muitas pessoas, não me preocupo com o fim das pequenas livrarias, tampouco com o fim do livro, assim como o conhecemos. Simplesmente não me preocupo com o futuro: prefiro agir no presente, mantendo, ainda que frente a todas as dificuldades – que não são poucas – o mesmo espírito que me levou a abrir a Malasartes.” Esta coluna é para celebrar o que existe, aqui e agora.

Começando pela existência, há três décadas, da própria Malasartes. Considero aquele cantinho do Shopping da Gávea não somente livraria infantil – uma das melhores do mundo – mas também centro cultural, patrimônio material e imaterial do Rio de Janeiro. Em meus rolezinhos pelas suas prateleiras – algumas baixinhas para ficarem ao alcance dos pequenos -, costumo descubrir obras que mudam minha vida. E não apenas naquela estante central que mistura, sempre com curadoria surpreendente, lançamentos destinados para adultos com outros para adolescentes e crianças. Muitas vezes sigo apenas as indicações de dona Yacy e suas filhas Renata e Cláudia. É família que merece a autodefinição da mãe: “livreira amiga dos livros”.

“Era uma vez” que fiquei bem amigo do discurso de Kenzaburo Oe em agradecimento ao Prêmio Nobel. Ele começa lembrando o tempo da Segunda Guerra Mundial, quando era criança e vivia isolado num vale da ilha Shikoku. Foi salvo por dois livros, duas aventuras. A primeira eu conhecia: Huckleberry Finn. Da outra nunca tinha ouvido falar: Nils Holgersson. A citação da obra sueca, assinada por Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ganhar o Nobel literário, funcionava como agrado a seus anfitriões nórdicos. Porém, o tom de Oe demonstrava algo mais: “eu tive uma revelação que esse mundo e esse modo de vida ali eram realmente libertadores.” E ainda havia o encanto da linguagem dos pássaros e da humanidade do pequeno Nils. Foi o suficiente para despertar em mim o desejo de ler esse livro, que estava praticamente esgotado.

Então recorri aos poderes mágicos de dona Yacy. Ela não descansou enquanto não conseguiu um exemplar. Seu desejo de que eu fizesse aquela leitura era até maior que o meu. Eu já teria desistido antes. Ainda bem que dona Yacy se empenhou na tarefa. Ficam aqui meus profundos agradecimentos. Como vivi tanto tempo sem conhecer a águia Gorgo e, sobretudo, Akka de Kebnekaise, gansa centenária em quem sempre penso ao ouvir falar de catástrofe ecológica? Vontade de viajar até a Lapônia seguindo a descrição peculiar de Lagerlöf. Como esta, botânica: “embora tenha apenas uma raiz enfezada, galhinhos enfezados e folhas secas e enfezadas, a urze gosta de se imaginar uma árvore. E se comporta como uma árvore de verdade.”

Oe não é o único japonês devoto de Nils Holgersson. Aprendi depois que Mamoru Oshii, o diretor de anime já nomeado para os prêmios principais de Cannes e Veneza, assinou adaptação da obra de Lagerlöf para série de TV. Não entendo direito a razão para ainda não ter acontecido o mesmo com outra descoberta que devo à Malasartes: a Saga Otori, de Lian Hearn, que teve seu último volume, “A rede do céu é vasta”, lançado recentemente no Brasil pela Martins Fontes.

Era momento de entressafra de Harry Porter. Entrei na livraria de dona Yacy com meu sobrinho Luca ainda pré-adolescente, tentando aproveitar aquele embalo de leitura voraz, centenas de páginas de J. K. Rowling numa única noite. Cláudia Moraes, uma das filhas-sócias da Malasartes, percebeu o que estava acontecendo e colocou em nossas mãos exemplares de “O piso-rouxinol”, a estreia Otori, dizendo que era literatura juvenil rara, com personagens femininas complexas e poderosas. Eu desenvolvi amizade compulsiva com a Saga (no total são cinco volumes; o último é a volta para antes do primeiro), na qual só tocava em períodos de intervalo de trabalho, pois quando começava a ler ficava enfeitiçado pela narrativa de aventuras numa idade média japonesa paralela, onde cada herói – e tudo começa mesmo com uma batalha perdida – precisava aprender (o que inclui uma “morte significativa”) a trilhar os difíceis e contraditórios caminhos do viver bem.

Hoje estou aqui apenas para passar adiante as boas lições que aprendi na Malasartes.

PS: Neste texto, por questão de espaço no jornal,fiz a opção de falar apenas da minha relação pessoal com a Malasartes, que teve inicio já neste século, acompanhando meus sobrinhos. Mas preciso aqui homenagear também Ana Maria Machado e Maria Eugênia Silveira, fundadoras da livraria junto com Renata Moraes. Elas também foram responsáveis pela concepção da maneira original de arrumação, exposição e agrupamento dos livros nas prateleiras, que seguem basicamente o mesmo padrão desde 1979 (Ana Maria Machado trabalhou na Malasartes por 18 anos; em seu blog ela conta um pouco do início de tudo). Infelizmente não achei na internet textos com essa história mais detalhada. Se alguém souber onde encontrar mais informações, por favor deixe os links nos comentários. Sempre penso cada um dos posts deste blog apenas como pontos de partida para quem quer saber mais.

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