David Graeber

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 28/02/2014

David Graeber: há anos, esse nome ocupa o topo da lista de assuntos sobre os quais preciso escrever urgentemente nesta coluna. Como dá para perceber, meu sentido de urgência é dilatado, seguindo a moda slow. Fiquei ainda mais relax quando Caetano e Wisnik recomendaram um dos livros de Graeber, o “Debt”, aqui no Segundo Caderno. Ganhei tempo para outros autores também cruciais na compreensão de nossos tempos acelerados. Esta semana, porém, Julian Dibbell me enviou link do texto que Graeber acaba de publicar na revista The Baffler. É a coisa mais alegre que li nos últimos tempos. Combina perfeitamente com votos de bom carnaval para geral.

Primeiro faço apresentação pouco detalhada. Talvez Graeber seja mais conhecido como inventor do slogan “nós somos os 99 %”, que ganhou mundo a partir do Occupy Wall Street. Como bom anarquista, ele contesta a autoria, afirmando ter sido criação coletiva. De qualquer maneira, foi ali no calor dos surpreendentes protestos que suas ideias deixaram de circular apenas entre antropólogos e militantes anticapitalistas para atingirem público mais amplo. Antes disso, Graeber fora notícia menor quando Yale não renovou seu contrato de professor, gerando suspeitas de perseguição política. Hoje, ensina na London School of Economics.

Minha vontade, anterior à leitura do texto da Baffler, era indicar um livrinho – apenas 105 páginas – de Graeber chamado “Fragmentos de uma antropologia anarquista”. Seria igualmente uma maneira de propagandear o catálogo da Prickly Paradigm Press, pequena editora de Chicago, especializada no lançamento de panfletos ousados de antropólogos como Marshall Sahlins, Bruno Latour ou Eduardo Viveiros de Castro.

“Fragmentos” é curto, mas cheio de boas ideias para pensar. Por exemplo: é estupidez considerar que, fora os gregos, quase a totalidade das sociedades humanas não tenha sido capaz de inventar o sistema de votação que por sua vez levaria à criação da democracia. Em assembleias as pessoas de qualquer cultura sabiam que poderiam levantar os braços e contar contras/a favor. Risco evidente: abrir espaço para “maiorias” oprimirem “minorias”. Combatendo isso, a opção mais difundida no tempo e no espaço foi a “decisão por consenso”, processo novamente experimentado em movimentos como o Occupy Wall Street.

Sou cínico como Diógenes. Por isso tendo a concordar com o comentário mordaz de Steven Shaviro em sua resenha sobre “Fragmentos”: “não vejo muita diferença entre ter que obedecer às ordens odiosas e estúpidas emitidas por idiotas sem noção (o modelo leninista, bem como o do Estado e o corporativo), e ter que se sentar em reuniões por horas a fio, enquanto os mesmos idiotas sem noção fazem objeções e qualificações intermináveis ​​para que tudo seja trabalhado antes da reunião poder chegar a um fim. É uma tortura de qualquer maneira”. Mas reconheço que fico comovido com a definição militantemente antiviolenta de anarquismo proposta por Graeber: “os meios devem ser consoantes com os fins; não se pode criar liberdade através de meios autoritários; de fato, tanto quanto possível, devemos, na nossa relação com nossos amigos e aliados, encarnar a sociedade que queremos criar.” E em outro parágrafo encontro a descrição para o melhor trabalho intelectual: “observar aqueles que estão criando alternativas viáveis, tentar perceber quais são as implicações mais gerais daquilo que (já) fazem, e então oferecer ideias de volta, não como receitas, mas como contribuições, possibilidades – como dádivas.”

Tudo sensato, a ponto de poder ser acusado de ingênuo. Então minha confissão mais verdadeira: gosto mesmo é dos momentos em que Graeber fica piradinho e vai para fora da casinha decorada com bandeiras negras anarquistas. O título do artigo da Baffler é: “Qual o sentido se não podemos nos divertir?” Começa com uma indagação: os animais (mesmo lagartas, ou formigas) brincam? Para o pensamento científico dominante, é escandalosa a proposta de atribuir aos bichos, incluindo macacos saltitantes, algo além do que trabalho/luta pela sobrevivência. E assim por diante: mesmo nossos genes são egoístas e agem como capitalistas calculando gastos e lucros. Não há lugar para o prazer pelo prazer. Não há lugar para a festa. Apenas na mente humana, átomos/moléculas/neurônios dão um “salto” e produzem consciência capaz de, de vez em quando, deixar o trabalho e cair na brincadeira. Ninguém explica essa “emergência”. Meu resumo antislow (leia o artigo inteiro!): Graeber sugere que os próprios elétrons brincam. É a estrela bailarina de Nietzsche em escala subatômica. Ideia dádiva totalmente brincante: a realidade, em seu fundamento mais hardcore, adora a folia.

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Uma resposta to “David Graeber”

  1. William Campos da Cruz Says:

    Lemos sua coluna “Certezas políticas” em O Globo, na qual o senhor fala a respeito da obra de Constantin Noica. Em primeiro lugar, devemos dizer que estamos muito felizes por saber que nosso trabalho tem, de alguma forma, ajudado a arejar o debate público brasileiro, para além do discurso ideológico mais raso e mais panfletário. Temos em nosso catálogo uma série de autores romenos, alguns dos quais ainda não publicados.
    A propósito de Constantin Noica, destacamos o livro de Gabriel Liiceanu, “O Diário de Palnis”, que será publicado ainda este ano. Não sei se você sabe, mas, na Romênia comunista, Noica foi preso e, mais tarde, cumpriu prisão domiciliar, em Paltinis, um pequeno vilarejo numa região montanhosa da Romênia. Lá, num casebre modesto, ocorria a formação de uma série de intelectuais bastante atuantes depois do fim do regime comunista, entre os quais destacamos Andrei Plesu (Ex-ministro da Cultura e ex-ministro das Relações Exteriores) e Gabriel Liiceanu, o autor do livro mencionado há pouco.
    De Andrei Plesu, já publicamos “Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental e outros ensaios”, cuja leitura recomendamos vivamente (há um trecho disponível aqui: http://issuu.com/editora_e/docs/da_alegria_no_leste_europeu).
    Outro autor, contemporâneo e amigo de Noica, que também publicamos é o monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, cujo “Diário da Felicidade” é apontado como uma das mais belas obras-primas da literatura romena do século XX. Também vale a pena conhecer. Para saber mais sobre a relação entre Noica, sua escola clandestina em Paltinis e a formação de Plesu e Liiceanu, recomendamos também a leitura do ensaio “Vida intelectual sob a ditadura”, do qual, aliás, extraímos o trecho que encerra esta mensagem:

    <>
    http://esbocoserascunhos.blogspot.com.br/2013/12/vida-intelectual-sob-ditadura_18.html

    Um abraço.

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