Betão Aguiar

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/03/2014

Betão Aguiar ficará envergonhado ao ler esta coluna. Ele é tão gente boa (não conheço ninguém que encarne melhor o espírito e a aparência de alguém MUITO gente boa) que prefere encarar seus trabalhos como esforços coletivos para que muito mais gente possa brilhar. Faz isso em diversas frentes: de músico acompanhante (hoje toca baixo nas bandas de Arnaldo Antunes e Baby do Brasil, entre outras) até educador (na Eletrocooperativa, de Salvador, na Fundação Casa Grande, do Cariri cearense, em colégio público na Vila Madalena, de São Paulo – também entre outras -, ensinando a garotada a usar tecnologia para produzir sua própria música). Há cinco anos, Betão está igualmente envolvido com grande empreitada de registro de manifestações artísticas brasileiras, chamada “Mestres navegantes”, certamente acontecimento fundamental na rede que busca reequilibrar a biodiversidade cultural do país hoje. Precisamos acompanhar atentamente seu desenvolvimento.

A qualidade de “Mestres navegantes” já tem reconhecimento internacional. Fiquei alegre, por exemplo, ao encontrar sua “Edição Cariri”, caixa com 10 CDs, em quarto lugar na lista de melhores lançamentos de 2013 do crítico Ben Ratliff, no New York Times. Justificativa: “A ideia é preservar folclore, mas esse é um folclore urgente, suingado, tempestuoso e vívido.” Concordo com os adjetivos. Tenho problemas com substantivos e verbos. Não vejo tanta utilidade na utilização da palavra folclore, que sempre tende a colocar a atividade artística num passado, todo acabado, isolado, que só pode ser preservado para não desaparecer. Prefiro pensar essas músicas, danças e festas como parte integrante da cultura contemporânea, em constante transformação. Projetos como “Mestres navegantes” colocam – de forma carinhosa, respeitosa (o respeito que devemos ter também diante de novidades como a rasteirinha do funk carioca, que por sinal parece tradição do Cariri) e politicamente exigente – essas invenções na nova roda da brincadeira digital. Isso fortalece tanto o que é classificado como folclore quanto para o que é vendido como pop.

Estou, é claro, puxando a tradicional brasa para minha sardinha relativista, sem o Betão autorizar. É que sinto enorme orgulho de ter uma pequeníssima parcela de responsabilidade na gênese do “Mestres navegantes”. No texto de apresentação da caixa “São Luiz do Paraitinga”, primeira edição dessa longa viagem pela musicalidade brasileira, Betão lembra sua participação no “Música do Brasil” (missão “folclórica” que ajudei a produzir nos anos 1990), acompanhando Moraes Moreira (Betão é filho de outro novo baiano, o Paulinho Boca de Cantor – e isso é prova que aquela comunidade hippie produziu filhos muito bacanas), como “algo que me marcou muito e que reconheço como a maior inspiração para a realização deste projeto” ao lado é claro dos registros de Mario de Andrade, Marcus Pereira, A Barca, além do contato pós-tropicalista com maracatus e afoxés. Não exagero: a existência de “Mestres navegantes” justifica plenamente a batalha de “Música do Brasil”, que nunca foi pensado com algo finalizado e sim como incentivo para que outros coletivos caíssem na estrada (com todas as dificuldades e “perigas ver”) fazendo mais gente escutar a riqueza estonteante de invenções brincantes/festivas que nosso país criou e não para de criar, provavelmente nossas mais avançadas criações.

Nesse sentido, tanto “Música do Brasil” como “Mestre navegantes” são correrias contra o tempo perdido, não no sentido de que “precisamos registrar rápido antes que morram” mas sim por haver tão poucos registros anteriores, com qualidade de captação de áudio para tornar possível reconhecer sutilezas sonoras. Por isso o tom caudaloso. “Música do Brasil” foi até modesto em comparação, pois só lançou quatro CDs, além dos programas de TV e do livro de fotografia. “Mestres navegantes – São Luiz do Paraitinga” é formada por 5 CDs; a “Edição Cariri” por mais 10. Demorei anos para escutar tudo com atenção. A Natura, patrocinadora das viagens, enviou as duas caixas para bibliotecas, educadores, ONGs. Mas todo mundo que não tiver acesso ao produto físico pode ouvir/ver todo o material em áudio no Soundcloud e em vídeo no Vimeo. Vale a pena passar horas nessa outra navegação pela internet: garanto que há surpresas para todos os gostos.

Minhas preferências: as congadas do Vale do Paraíba em muitos momentos têm o peso de um bloco afro baiano e as bandas cabaçais do Cariri tocam com a fúria punk de um Gogol Bordello. Espero as próximas edições. Vencedor do edital mais recente do Natura Musical, o “Mestres navegantes” fará sua viagem paraense ainda este ano.

Sonho: algum lugar virtual para abrigar todos os diferentes projetos de registro da biodiversidade musical brasileira, com ferramenta de busca eficiente. Há muita coisa espalhada por aí – material coletado por pesquisadores independentes, por folcloristas, pelos próprios brincantes – com risco de se perder.

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