Epeli Hau’ofa

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/03/2014

Epeli Hau’ofa virou nome de festival anual e internacional de dança. Quem for para Suva nos próximos dias não pode perder sua primeira edição, que acontece de segunda-feira a sábado no Japan-Pacific ICT Theatre. Não falei onde fica Suva de propósito. Quantos de meus leitores sabem que é a capital de Fiji? Fiji? O nome do teatro dá a dica: Pacífico. Polinésia? Melanésia? Micronésia? Depois nos espantamos com americanos que pensam que Buenos Aires é a sede do governo brasileiro… Já antecipo o troco de quem não dá o braço a torcer: “mas são lugares incomparáveis!” O Brasil é um país continente. Fiji fica na tonga da mironga do cabuletê. “É um arquipélago muito pequeno, sem importância, sem futuro.” É mesmo? Onde você aprendeu isso?

Também não apresentei Epeli Hau’ofa de pirraça. Sua importância é imensa, talvez seja o maior pensador recente no campo dos estudos culturais da Oceania que não é australiana ou neozelandesa. Quando morreu, em 2009, o então vice-presidente de Fiji, Joni Madraiwiwi, publicou artigo no jornal The Fiji Times intitulado: “Muso, mediador e mentor”. No primeiro parágrafo um elogio compartilhado por muitos: “foi o melhor ilhéu do Pacífico de nossos tempos”.

Mais do que isso: Epeli Hau’ofa mudou o significado de “ilhéu do Pacífico”. Seu texto mais citado se chama “Nosso mar de ilhas”. Começa em tom pessoal, confessional, descrevendo um impasse. Como encarar novamente seus alunos para dizer que seus países eram apenas economicamente, socialmente e politicamente inviáveis, condenados a desaparecer vítimas do tsunami de uma globalização que naquela parte do mundo tem início com as viagens do Capitão Cook? Epeli Hau’ofa propõe nova perspectiva: no lugar do pequeno e do isolado, encarar todas aquelas ilhas, ilhotas e atóis como uma grande rede, conectada há muitos séculos, com longa história de trocas cosmopolitas entre muitas culturas que não precisaram esperar pela tecnologia europeia para navegar ousadamente por vastos mares. O oceano deixa de ser percebido como algo separa, deserto: torna-se espaço de ligação e vida social.

A trajetória de Epeli Hau’ofa já é exemplo bem prático dessa maneira de ver o mundo. Nasceu em Papua-Nova Guiné, filho de missionários de origem tongalesa. Estudou em Papua-Nova Guiné, em Tonga, em Fiji, na Austrália, no Canadá. Foi secretário do rei de Tonga, Taufa’ahau Tupou IV, cuidando da documentação do palácio. Foi professor de antropologia e sociologia de outra USP, a University of The South Pacific, mantida por 12 países da região, onde também fundou o Oceania Centre of Arts, Culture and Pacific Studies, que organiza na semana que vem esse novo festival de dança com grupos fijianos, havaianos, neozelandeses, japoneses e até alemães.

O fato de, no Brasil, não conhecermos Epeli Hau’ofa ou de não sabermos quase nada sobre seu querido mar de ilhas deveria nos envergonhar. Não me canso de condenar a evidência de nosso acesso a (ou nossa curiosidade com relação a) pensamentos do “resto” do mundo ser sempre indireto, tendo que fazer escala antes no “primeiro” mundo. Precisamos ainda que universidades, curadores ou prêmios norte-americanos/europeus continuem a fazer suas descobertas para que, servilmente, as informações comecem a circular por aqui. Pena: acabamos reproduzindo em nossos debates uma escala de consagração pobre e uniforme. Isso é ser up-to-date?

Quando, navegando ao acaso, baixei o cartaz do Festival de Dança Epeli Hau’ofa, tive a curiosidade de aumentar o zoom do meu leitor de imagens digitais para observar a lista de patrocinadores/apoiadores. Ao lado do Holiday Inn de Suva, da embaixada dos EUA, há o logo do café Bulaccino e da Mirchi FM. Não sei a razão mas quis conhecer melhor essa rádio. Claro: como toda FM no planeta hoje, sua programação pode ser ouvida ao vivo por streaming. Estranhei só tocar canções de Bollywood. Pura ignorância: não sabia que mais da metade da população de Fiji descende de indianos que chegaram lá há muito tempo, e que isso é fonte de grandes problemas políticos locais. Acabei descobrindo que a Mirchi é apenas uma das estações de um grupo de mídia que tem também a Bula FM, dedicada a músicas que devem ser produzidas localmente, inclusive muito reggae, música ilhéu por excelência.

Com o som do meu computador oscilando entre a Mirchi e a Bula, e folheando virtualmente o The Fiji Times, acabei me dando conta: apesar de toda a descentralização da internet, nosso consumo de mídia continua centralizado. Com tanto jornal no mundo para ler e tanta rádio para ouvir por que a maioria não sai do New York Times e da BBC? Nosso inconsciente, colonizado, não sabem viver sem centros? Prefere o conhecido/pequeno com medo de navegar pela amplidão do oceano?

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