mundo das ideias

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/04/2014

Toda Sexta-Feira Santa experimento mudança drástica na percepção do passar do tempo. É como se a linha reta da modernidade, caminhando rápida sempre em direção ao Progresso, ficasse mais encurvada que a estrada de Santos. Sua tendência é virar um círculo, onde tudo se repete e regenera. Meus anos em colégios católicos me ensinaram: de hoje até meia-noite de Sábado de Aleluia, com o anúncio da ressurreição de Cristo, o mundo corre perigo extremo. Isso só aumenta minha perplexidade metafísica.

Na circularidade do tempo, sou transportado para o Império Romano, na época da invenção do Direito e da prática sistemática da crucificação para eliminar inimigos. Exemplo: na Guerra de Espártaco cerca de seis mil escravos rebeldes foram crucificados de uma só vez ao longo da Via Ápia. Não conhecemos seus nomes. Com Jesus foi diferente. Seu suplício não calou seus ensinamentos e discípulos, que conseguiram mudar a política imperial. Constantino, convertido, proíbe crucificações no ano 337. O tempo, que até então andava em roda, foi partido em antes e depois de Cristo.

Uma declaração óbvia: enorme é o poder da religião para revolucionar a história humana. Penso nas cruzes em velas das naus lusitanas abrindo caminhos para a globalização. Lembro o Infante Dom Henrique, nascido numa Quarta-Feira de Cinzas, planejando a navegação em seu quartel-general pós-templário e pré-sebastianista, o Convento de Cristo.

Meu pensamento viaja para outros cantos do planeta e encontra o revigoramento do confucionismo no núcleo duro do capitalismo-comunista chinês. Milênios depois; apesar das aparências, nada mudou tanto assim na necessidade de rituais.

Então vou parar dezenas de séculos antes de Confúcio, nos arredores de onde fica atualmente uma cidade turca chamada Urfa, que pode ser “desendente” da caldeia Ur. É o norte da Mesopotâmia. Muitas pessoas acreditam que por ali estão cavernas onde nasceu Abraão e onde Jó enfrentou suas úlceras. Desde meados da década de 1990, foi descoberto que, bem antes desses episódios bíblicos, no topo de uma montanha da região, havia aquilo que se transformou no mais antigo templo conhecido, hoje compondo o sítio arqueológico de Göbekli Tepe.

Ouvi esse nome pela primeira vez no artigo “O santuário”, que a escritora turco-americana Elif Batuman (seu “Os possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores” pode ser encontrado nas livrarias brasileiras) publicou no número especial de Natal 2011 da revista New Yorker. Na sua visita às escavações, ela entrevistou o arqueólogo alemão Klaus Schmidt, que comanda as pesquisas desde a descoberta de Göbekli Tepe. Além da narrativa deliciosa, o que me fez arquivar esse artigo foi a insinuação de hipótese radical para explicar o aparecimento das primeiras cidades (todas as mais antigas se situam na Anatólia). Pela sua datação, de quase dez mil anos, aquele centro cerimonial era frequentado por povos caçadores, antes também da invenção da agricultura. Pronto, a nova arqueologia vai falar: talvez as primeiras cidades tenham sido fundadas em torno de templos, e não vice-versa, com se costumava afirmar.

Havia quase me esquecido desse assunto até que mês passado o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em algum de seus posts na internet, publicou link para texto, cheio de fotografias, assinado pela turma de Klaus Schimdt. A hipótese fica ainda mais ousada do que na divulgação de Elif Batuman. Ainda não está confirmado, mas parece que no monumento foram encontrados vestígios de consumo de cerveja (talvez isso explique os desenhos de danças frenéticas), que seria armazenada em imensos depósitos. Onde povos caçadores encontrariam plantas em quantidade suficiente para primeiro fermentar em tamanha quantidade e depois embriagar tanta gente? Eis o Lado B, psicodélico, da interpretação arqueológica: os humanos começaram a plantar, e não apenas a coletar o que encontravam livre na vegetação, para celebrar seu culto ao divino. Assim chegamos a outra insinuação: os rituais, produtos do mundo das ideias, provocaram a mudança no modo de produção. O que dá num marxismo bêbado: a superestrutura estaria na base da infraestrutura. Max Weber venceu?

Pergunta mais impertinente: o desejo de ficar doidão inventou a civilização? Precisamos lembrar outra hipótese, batizada anatoliana, segundo a qual os agricultores daquele pedaço do mundo em torno de Urfa seriam os responsáveis pela difusão do idioma indo-europeu, com suas variantes, da Índia até a Península Ibérica. O pacote incluía divisão social em sacerdotes, guerreiros e gente comum, e sua concepção de tempo circular (respeitando os ciclos do plantio) que depois é revolucionada pelo cristianismo. E aqui estamos nós. Boa Páscoa!

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