animais e vegetais

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/05/2014

O livro “Gentle bridges” (foi traduzido para o português?) registra conversações, realizadas em 1987, com o Dalai Lama sobre ciências da mente. O trecho que mais chamou minha atenção gira em torno do biólogo chileno Francisco Varela, um dos grandes gênios do Século XX. O Dalai Lama pergunta: “Uma bactéria é um ser senciente? A questão é importante no contexto budista, pois quando você tira a vida de um ser senciente, isso constitui uma má ação. Se esse ser tem desejo de felicidade e não quer sofrer, então tirar sua vida constitui muito sofrimento. Então é errado matar uma ameba?” A resposta de Varela é firme, mas cuidadosa, utilizando negativas em série (“eu não vejo uma maneira de escapar dessa observação”; “eu não tenho nenhuma base para dizer que o comportamento não é do mesmo tipo”…): “A ameba manifesta intrinsicamente uma diferenciação entre o que gosta e o que não gosta. Nesse sentido, há senciência.” O Dalai Lama insiste: “mesmo as plantas têm esse tipo de comportamento?” Varela repete seus argumentos. Mas ficamos sem uma conclusão: lavagens de mão com sabonete antibacteriano e refeições vegetarianas também aumentam o sofrimento já intolerável do mundo?

Vale citar mais uma fala de Varela na mesma ocasião: “As plantas parecem ficar fora do domínio da senciência porque elas não se movem; mas elas não se movem somente porque seu estilo de vida é precisamente não se mover.” Lembrei tudo isso, incluindo as leis do karma, ao ler dois artigos desconcertantes recentemente publicados. No final de abril, o jornal “New York Review of Books” trazia como chamada de capa: “Oliver Sacks: o que a plantas podem sentir”. Na sua edição de maio a revista “Piauí” traduz “A planta inteligente”, de Michael Pollan (ele vem para a FLIP 2014). Curioso: a ilustração principal para os dois textos é a mesma, retirada do livro “O templo da flora” (1799-1807), de Robert John Thornton. Sinal dos tempos? Está tudo conectado?

Outra lembrança: em 1989 encontrei, na revista francesa “Actuel”, uma sentença sombria:”estamos amaldiçoados, as plantas querem nos escravizar”. A história da vida na Terra era descrita como uma guerra épica entre os reinos animal e vegetal. Os seres clorofilados, comedores de luz, desenvolveram as drogas (pense apenas na indústria do tabaco, ou nas aulas de degustação de vinhos) para viciar os animais. Aquilo era ideia tão absurda, ou engraçada, que ganhou território fixo em minha cabeça. Agora penso: estive rindo do quê? No artigo da “Piauí” me deparo com notícias de pesquisas que podem confirmar a bad trip, só que em versão ainda bem leve: “Várias espécies, entre elas o milho e o feijão-de-lima, emitem um pedido de socorro químico quando são atacadas por lagartas. Vespas parasíticas que se encontram a certa distância localizam a origem do odor, dirigem-se à planta atacada e lentamente destroem as lagartas.”

Pollan apresenta muitos outros exemplos incríveis-fantásticos-extraordinários, revelando um campo crescente de estudos que confirma as intuições antigas de Varela, contrabandeando conceitos como comportamento, cognição e sentimento para o mundo das plantas. Mesmo o subterrâneo de uma floresta parece rede social tão animada quanto o Twitter, com compartilhamento de nutrientes e informações. (Em termos deleuzianos: as raízes vivem em devir-rizoma. Os rizomas venceram.) Até consciência sem neurônio se tornou possível. Oliver Sacks trata como hipótese científica respeitável aquela que aponta canais de íons de cálcio como rede elétrica nos vegetais. Claro, as cargas são transmitidas com velocidade bem mais lentas que aquelas atingidas pela dobradinha sódio/potássio dos nossos neurônios. Mas as plantas são slow desde sempre, muito antes da moda slow-food.

Bom nessas descobertas todas é ver que não há só guerra entre os reinos da vida. Houve, há e pode haver cada vez mais colaboração entre tão substanciais diferenças. Estou fascinado pelo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil – Séculos XVI-XIX”, organizado pela historiadora Lorelai Kury. Não dá para entender nosso passado sem pensar também em nossa relação com os vegetais. Afinal, um dos motores das navegações lusitanas foi o desejo de especiarias, o que acabou produzindo uma “unificação biológica da Terra”. Do nosso lado, humano, houve troca intensa de conhecimentos de vários povos, desenvolvidos em boticas de colégios jesuítas, em rituais de xamãs indígenas, em jardins botânicos (o café chegou por aqui biopirateado do Jardim Botânico de Caiena).

Um dia leremos uma história do mundo onde as plantas serão protagonistas? O que quer uma planta? Por enquanto, consolo para vegetarianos: Stefano Mancuzi, botânico, decreta (no artigo de “Piauí”): “As plantas evoluíram para ser comidas; é parte de sua estratégia evolutiva.”

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