capitais

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/05/2014

Todas as pessoas que costumam ler jornais, no mundo inteiro, já devem estar cansadas de ouvir falar no sucesso de “O capital no século XXI”, livro de Thomas Piketty. Ao que tudo indica, nunca houve vendas semelhantes na história das editoras acadêmicas, ou das publicações de ciências sociais. De políticos a diretores de bancos privados, uma multidão escreve artigos com sua opinião sobre a leitura. Repentinamente, desigualdade é o assunto do momento mesmo entre conservadores. E vemos um intelectual francês dominar rodas de conversa que antes só admitiam pensamentos difundidos originalmente em inglês.

Acontecimento inesperado? Ao ver o nome de Piketty na vigésima sétima posição de sua lista 2014 de “pensadores top” no planeta (quase sempre professores de universidades dos EUA ou da Inglaterra – mesmo quando têm origens em outros países, como Mangabeira Unger, Amartya Sen ou Ha-Joon Chang), a revista “Prospect” sentiu necessidade de observar: “é também uma lembrança de quão velozmente as modas intelectuais podem mudar.” Curioso: Piketty e seu colaborador Emmanuel Saez já estavam juntos na posição 62 da lista de 2013. Sinal de que o sucesso atual tem raízes mais antigas, e – apesar de suas proporções – não deve ter sido surpresa absoluta para analistas atentos do “hit parade” das ideias. A “Prospect”, em seus comentários sobre os vencedores do ano passado, apontava a influência de Piketty e Saez na campanha Obama, e linkava matéria de 2012 no New York Times que já tratava a dupla como o novo “cool” em termos intelectuais.

Então: todo século tem o seu “Kapital”, divulgado com formas renovadas de ciência mimética? Sempre é interessante observar os caminhos pelos quais esse tipo de sucesso meteórico é produzido (aqui não precisa haver nenhuma intencionalidade), ou como obras semelhantes não conseguem alcançar a mesma visibilidade. Quando percebi que Piketty tinha ocupado bem mais que 1% das páginas mais sérias dos jornais, pensei logo que todo século precisa ter também seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Estamos com sorte: já podemos comprar “O novo espírito do capitalismo”, livro de Luc Boltanski e Ève Chiapello.  Porém, e apesar de no seu lançamento de 1999 ter sido saudado como clássico, esse outro calhamaço não conseguiu nem 1% da empolgação conquistada pelo novo “Capital”. Procurei agora resenhas nos jornais brasileiros (o lançamento por aqui aconteceu, pela Martins Fontes, em 2009) e encontrei apenas notas curtas – quase nada se comparadas com a densidade de suas 800 páginas.

Seria “O novo espírito do capitalismo” francês demais? Talvez. Não está baseado numa pesquisa quantitativa que apresenta tantos dados novos como “O capital no século XXI”. Mas o assunto é bem “anglo”, com a leitura inovadora, no âmbito das ciências sociais mais politicamente engajadas, da bibliografia de administração ensinada nas principais “business schools” que seguem o modelo de Harvard, com milhares de MBAs que formam “empreendedores” planeta afora. Boltanski, antropólogo que já tinha feito sucesso escrevendo sobre justificações jurídicas, e Chiapello, professora de administração que estudara a relação de artistas com seus “marchands”, mostram como o capitalismo soube absorver as críticas pós-Maio 1968 (incluindo seus reflexos hippies no Vale do Silício) e agora recomenda organizações em redes descentralizadas, valorizando mobilidade e repudiando hierarquias tradicionais, para lidar com todos seus impasses.

Claro, os tempos mudaram. No primeiro parágrafo do “Novo espírito”, encontramos a “coexistência” de “um capitalismo em plena expansão” com “a degradação da situação econômica e social de um número crescente de pessoas”. Em Piketty – apenas 14 anos depois, e pós-crise de 2008 – não temos mais a expansão, ou temos o entendimento de que mesmo em tempos expansivos o capitalismo pode degradar os ganhos dos 99%. É um mundo muito mais sombrio, onde os fracassos cultuados nos manuais de administradores em rede se transformam num macrofracasso civilizacional. Parece que vozes como a de Kenneth Rogoff – ex-economista chefe do FMI que teve artigo publicado neste jornal lembrando “que, nas últimas décadas, bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento, particularmente na Ásia, escaparam de níveis de pobreza desesperadores” – não podem ser ouvidas sem desconfiança. Não há clima para nenhum otimismo no debate de ideias atual? Qual será a próxima bibliografia para business schools que deixaram de acreditar que as redes funcionam?

Nada está claro. Vale a pena ler Piketty junto com Boltanski/Chiapello, ao mesmo tempo. Livros enormes, eu sei. Nossos problemas atuais não são menores.

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