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realidade e ilusão

26/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/07/2014

Diagnóstico simples: perdi a sintonia com a nação. Não tenho a menor paciência para escrever sobre os assuntos do momento, aqueles debatidos por todo mundo nas redes sociais. Detesto o tom histérico que domina a tsunami opinativa, com linchamentos coletivos esquecidos na semana seguinte. Mais importante: tenho maior interesse por outros assuntos, que – apesar de vitais – não são tratados com a devida atenção. A missão desta coluna é assumidamente um tanto solitária: divulgar novidades conhecidas por pouca gente. Torcer para que possam inspirar outras inovações. Sem pressa. Sem esperar que se transformem em trending topics.

Por isso relutei em escrever sobre a Copa. Nunca acompanhei nenhuma Copa. Sempre fui considerado ET por causa disso, mas consegui driblar a pressão social avassaladora para mudar de comportamento (o que não me faz melhor ou pior do que ninguém). Gosto do clima de festa de multidão, assim como de réveillon e carnaval, mas assistir a  jogo do início ao fim para mim é tortura. Por isso, antes do início da Copa, até publiquei por aqui texto que encarava a ausência de ruas enfeitadas como indício, pessoal e socialmente libertador, de diversidade cultural, ou desenvolvimento econômico nacional. Claro que – é minha tese – a paixão por futebol sobreviverá, mas sem precisar ser imposta para toda população. O país não seria mais uma vila, comandado por sentimento homogêneo.

Porém. quando os jogos começaram, fiquei com vergonha de abordar outros temas nesta coluna. Assumi meu erro de avaliação precipitada: imperava clima de ordem unida emocional, com a nação presa na estreita montanha russa de alegrias e tristezas coletivas. Com o final da Copa (e escrevendo novamente fora de época), assumo o erro do erro (repito: viva o erro!): tudo aquilo já parece ter acontecido num passado distante. O país na realidade se revelou mais diversificado do que aparentava. A derrota de 7×1 não vai virar, espero, uma final de 1950 (esse mané “trauma” já deu o que tinha pra dar). Pode ser esquecida rapidamente como a polêmica que encantou o Facebook da semana passada?

Talvez, afinal, eu não tenha perdido a sintonia com o Brasil. Pois não existe mais “o” Brasil, ou “um” povo brasileiro, interessado nas mesmas coisas ao mesmo tempo (por exemplo: na época da Copa houve outros megaeventos país afora, como o São João de Campina Grande e Caruaru, ou o Festival de Parintins, isso só para citar os mais óbvios). A grande mídia e as grandes marcas (que sustentam o mercado de mídia com publicidade) parecem não ter se dado conta dessa grande transformação ou não sabem lidar com um mundo cada vez mais complexo, com múltiplos interesses simultâneos. Por isso precisam bombar artificialmente uns poucos acontecimentos para atrair à força a atenção daquilo que antigamente se chamava grande público. E o investimento é tão grande que vira profecia autorealizável: impossível não criar manchetes ou comoções populares, incluindo recordes de mensagens nas redes sociais. Mas cola menos e menos: um jogo do Brasil sua para dar 40 pontos de audiência na TV aberta.

Se essas minhas insinuações fazem algum sentido, o tal “choque de realidade” que o Brasil vive depois do final da Copa deve ser interpretado também de maneira pouco habitual. A realidade é bem mais rica, com surpreendentes micropossibilidades plurais, do que a promessa de alegria uniforme gerada pela “ilusão” de um evento de massa, reproduzido em todos os “canais”. Nada contra ilusões. Canto com Marisa Monte, “verdade, uma ilusão”. Ou sigo Nietzsche no seu sermão contra a prevalência que Sócrates dá à verdade em detrimento da ilusão. Apenas me entedia a ilusão única, hegemônica. Ilusões sempre há de pintar por aí. Elas levam o mundo adiante, em muitos caminhos conflitantes diferentes.

Um tema sempre recorrente nesta coluna: precisamos desenvolver novas estratégias para lidar com um mundo que agora tem abundantes recursos de comunicação e produção cultural. Isso não é otimismo tolo. Já que falei de Nietzsche, vale a pena repetir estas suas perguntas, que ganham nova pertinência para nosso cibermomento: “Existe, porventura, um pessimismo da força? Uma inclinação intelectual para o duro, o mal, o problemático da existência, proveniente de saúde transbordante, de plenitude de existência? Há, por ventura, um sofrimento em virtude de superabundância?” Se há necessidade de pessimismo, que pelo menos seja um pessimismo transformador, que tire proveito da – e incentive a – diversidade trágica (e festiva) da vida.

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Tentando fugir da Copa, escrevi aqui sobre Capicua, rapper portuguesa. Boa surpresa: ela se apresenta no Rio na próxima semana, no Terra do Rap, festival que vai produzir até uma mix tape ao vivo, misturando de verdade  Angola, Brasil e Portugal.

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kids

19/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/07/2014

Só agora consegui ler “Só garotos”. Tão atrasado que foi difícil encontrar exemplar nas livrarias. Na época de seu lançamento, em 2010, lembro ver pilhas desse livro nas mais populares casas do ramo. Tomara que as reedições continuem. Será para sempre leitura obrigatória para quem quiser entender a evolução da cultura global em nossa virada de século. Recapitulando: em pouco mais de 200 páginas, Patti Smith conta a história de seu relacionamento totalmente não convencional com Robert Mapplethorpe. É também depoimento de quem viveu intensamente o auge de Nova York com capital do planeta. Nunca mais teremos um mundo artístico tão centralizado como aquele.

Se não fosse a morte cruel de Mapplethorpe, eu trocaria o título para “Só garotos (com sorte).” Tudo poderia ter dado muito errado na vida do casal. Mas eles foram encontrando as pessoas certas (e as “melhores” pessoas que havia no mundo naquele momento) nas horas certas, guias para contornarem os maiores perigos. Começando pelo encontro entre os dois: Patti chega sem dinheiro em Nova York, procurando amigos que haviam se mudado, entra no apartamento de alguém que poderia saber o novo endereço, e encontra Robert dormindo, com seus cachos e rosto angelicais. Nada indicava que iriam se encontrar novamente. Mas Robert reaparece, por acaso, na livraria onde Patti arrumou trabalho e, depois, no momento em que ela precisava escapar de armadilha sexual. Tudo acontece de maneira tão improvável que ficamos desconfiados. Em telenovela o autor seria acusado de criar situações absolutamente inverossímeis.

Claro que os dois se esforçam muito para desenvolver suas artes, e passam muita fome durante o esforço. Mas a sorte estava sempre ali de olho no que estava acontecendo, preparando viradas surpreendentes. Como a chegada dos dois, com Robert muito doente (antes da AIDS), no hotel Chelsea. O primeiro hóspede que encontram, e que se torna imediatamente professor/protetor (inclusive desemaranhando nós do cabelo de Patti), é Harry Smith, o mago compilador da “Anthology of American Folk Music”, que já foi homenageado nesta coluna como um dos nomes mais influentes da modernidade nos EUA. Mas era apenas o primeiro. Uma lista do quem é quem na vanguarda estava ali, dando força generosa para os novos alunos: “Gregory fez lista dos livros que eu deveria ler, disse qual dicionário eu deveria ter, encorajou-me e me desafiou. Gregory Corso, Allen Ginsberg e William Burroughs foram todos meus professores, todos passando pelo saguão do Chelsea, minha nova universidade.” Alguém pode citar universidade de poesia ou criatividade mais poderosa?

Outro momento do ensino, nos quartos do Chelsea: “Fiquei sentada no chão quando Kris Kristofferson cantou para ela ‘Me and Bobby McGee’, Janis fazendo coro. Estive presente nesses momentos, mas era tão jovem e preocupada com meus próprios pensamentos que mal os reconheci como momentos.” Garota distraída sortuda. Mesmo suas plateias eram as melhores bancas de doutorado transviado. Por exemplo, quem assistiu uma de suas primeiras leituras de poesia acompanhada pelo guitarrista Lenny Kaye: Andy Warhol, Lou Reed, Rene Ricard, Harry Smith, John Giorno, Todd Rundgren, Sam Shepard. Faltava alguém? Talvez Tennessee Williams de braço dado com Candy Darling, como numa de suas apresentações como atriz off-off-Broadway. Isso sem falar de John McKendry e Sam Wagstaff que deram a régua e o compasso (além de máquinas e dinheiro) para Mapplethorpe deslanchar sua carreira como um dos mais brilhantes fotógrafos nos anos seguintes.

Quem seriam os “só garotos” da Nova York de hoje? Mesmo a cidade tendo perdido sua centralidade (até internamente: a periferia de Williamsburg desbancou Manhattan), ela continua a impulsionar turmas de adolescentes para o estrelato planetário. Nos anos 1990, o filme “Kids”, de Larry Clark, apresentou para o mundo garotos como Harmony Korine e Chloë Sevigny. Sortudos também. Os dois foram descobertos andando na rua, depois de se mudarem para a cidade. Eles continuam cada vez mais influentes, definindo o que é “cool” para outros artistas, publicitários e hipsters de todos os continentes.

Hoje a nova “it turma” tinha que se denominar família ou coletivo. E leva a sorte logo no nome: Luck You Collective. Anote estes nomes, já são os kids da hora: o casal India Salvor Menuez e Jack Shannon. Eles organizam exposições desde a high school. Agora fazem todo o resto: filmes, fanzines, festas, são atores, modelos, apresentadores na rádio Know-Wave etc. E já há filas com os melhores professores das gerações anteriores tentando aproximação. Bom saber que apesar da caretice dominante, a garotada de Nova York não está parada. Sorte para a cidade.

LusoMuitaCoisa

12/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/07/2014

Logo nas primeiras horas de domingo, dia da final da Copa, a Praça do Comércio de Coimbra, Portugal, receberá o show de rap “Há palavras que nasceram para a porrada”, marcando o encerramento do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul. Como o rap encontrou com a epistemologia? O colóquio foi organizado pelo “Alice – espelhos estranhos, lições insuspeitas”, projeto de pesquisa dirigido por Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Universidade de Coimbra. Boaventura tem conexão antiga com o hip hop, com atenção especial para o rap em língua portuguesa. Esse interesse se fortaleceu recentemente. Ele se encontrou com vários rappers e sugeriu temas para composições, todos relacionados com debates do colóquio. Agora é a hora de ouvir os resultados.

Nomes que se apresentarão no show de Coimbra: LBC Souldjah, Hezbó MC, Chullage e Capicua. Os três primeiros têm famílias cabo-verdianas. Capicua é a única mulher na apresentação, e provavelmente a rapper mais criativa no uso do nosso idioma. Seu nome é Ana Matos, e vem de família que poderia ser classificada como elite branca, com pai professor de engenharia na Universidade do Porto. Na adolescência se cansou de grunge e “música triste” e passou a ouvir reggae. No bar Comix havia noite de improvisação, sua grande escola. Acaba de lançar seu segundo disco, chamado “Sereia louca”, que anda recebendo notas máximas em todas as resenhas da imprensa lusitana.

Merece. Procure na internet o clipe de “Vayorken” (palavra que quando criança usava quando precisava dizer que seus pais estavam em Nova York, e agora virou homenagem à cidade que inventou o hip hop). Tem clima de autobiografia sem medo de provocar vergonha alheia, narrando os conflitos de uma mãe que tentava impor um figurino de “mini comunista” para uma criança que sonhava ser professora de wind surf e se vestir com Jane Fonda em vídeo de ginástica. Logo os primeiros poemas e os elogios para a redação na escola indicam outro caminho, que vai dar no feminismo hoje militante. Outro clipe, o de “Mão pesada”, faz o elogio da força da mulher do norte de Portugal. Fala de “beijo à carioca”, mas é outro estilo de beijinho no ombro: “Grito sou guerreira, desnorteio, sou nortenha / E impero porque carrego o meu sonho convicta / Tripo, sou tripeira, de ferro sou ferrenha / E não nego que mantenho o meu trono invicta!”

Gosto especialmente da faixa “Soldadinho” que tem a participação especial de Gisela João. Incrível como Portugal anda produzindo novos grandes fadistas em série. Gisela João já é a grande revelação nesse ambiente que leva as lições de Amália Rodrigues adiante. Seu último disco foi eleito o melhor de música portuguesa de 2013 pela revista Blitz, que geralmente se dedica mais ao rock. Apesar do gosto musical eclético (cantores preferidos: James Blake, “o gajo dos xx”, Maria Bethânia, Lhasa de Sela, António Zambujo), sua maneira poderosa e extremamente emocional de cantar reverencia a tradição. Isso fica evidente no CD “Sem filtro”, que a Blitz lançou encartado em sua edição de março deste ano, com gravações ao vivo e quase caseiras, feitas em poucos canais, nas quais a voz de Gisela João é acompanhada apenas por guitarra portuguesa, viola de fado e viola baixo. Mesmo com tal minimalismo instrumental dá para perceber, pelo calor dos aplausos, que a reação do público (no Teatro do Bairro e no Centro Cultural de Belém) é maximalista, consagrando uma nova diva.

Esse mesmo número da Blitz, com Beck na capa, traz também longa reportagem sobre a banda Clã (que tive o prazer de entrevistar, para a série de TV “Além-mar”, quando lançavam o disco “LusoQualquerCoisa”), e uma matéria intitulada “Portugal 2014”, onde a revista aponta os nomes que “vão dar o que falar”. Fui escutar todos eles nas Soundclouds da vida. Impressiona a diversidade: do encontro de Nick Drake com Animal Collective na banda You Can’t Win, Charlie Brown (em inglês sim) ao folclore lusitano reprocessado por eletrônica do duo Ermo (discípulo das “recolhas” de Michel Giacometti, que mesmo tendo vindo da Córsega foi autor do melhor mapa das sonoridades rurais lusitanas).

Sempre que passo um curto tempo sem ler a imprensa portuguesa, quando retomo o contato sou surpreendido por uma enxurrada de lançamentos imperdíveis. Agora, talvez a crise econômica tenha acelerado a criatividade lusitana. Então a notícia de segunda edição garantida do Festival do Fado (em agosto, e com Gisela João) só pode ser recebida com alegria. Precisamos acabar com a impressão de que os dois lados do Atlântico se comunicavam melhor com caravelas.

próximas farras

05/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/07/2014

Todo mundo precisa ver “A farra do Circo” durante a Copa. O contraste entre as propostas do Circo Voador e da Fifa pode nos ensinar muitas coisas. Coincidência importante: momento decisivo no documentário, dirigido por Roberto Berliner e Pedro Bronz, é a viagem do Circo para a Copa de 1986 no México. Nada dá certo por lá. Talvez hoje, tudo fosse ainda mais difícil. Imagine “circos voladores” latino-americanos tentando armar suas tendas por aqui. O “Padrão Fifa” se tornou muito mais rígido, combatendo qualquer espontaneidade sem “business plan”. Ainda bem que o espírito do Circo resiste.

Escrevi por aqui em agosto do ano passado: “O Brasil pode ensinar a Fifa e o COI a fazer uma grande festa (com gastos transparentes), fora dos padrões caretas do esporte convertido em espetáculo chato. O Brasil pode salvar a Fifa, e o mundo. Maluco, eu?” Minha maluquice ficou animada com a farra na Avenida Atlãntica, ou com a insubordinação da torcida brasileira contra as regras do Padrão, insistindo em cantar o hino a capela até o fim. Festa padronizada nunca fica boa. Hoje vivemos este dilema: muita gente quer ao mesmo tempo o espontâneo e o luxo quadradinho do shopping, do multiplex VIP, da “arena” (o desejo de ter estádios parecidos com os americanos não é só da Fifa). Dá para conciliar as duas coisas? Esse é o dilema do Brasil? Dilema do ser humano?

Taquigrafei o depoimento de Perfeito Fortuna depois do problema do Circo Voador no México, quando a Coca-Cola e a prefeitura de Guadalajara retiraram qualquer apoio. É longo, mas vale a pena citar um resumo (por favor, veja o filme para a fala completa, emocionante e lúcida), pois pode nos ajudar a escolher qual futuro queremos: “Esse lance da gente com as empresas, multinacionais, toda a coisa de patrocinador, a gente nunca se entendeu direito, a gente nunca combina, pois são ideologias muito diferentes. É verdade. A gente não está atrás da grana. A gente é mais um risco no papel, não sabe direito o que vai acontecer no fim. Então é evidente que a gente não dá o resultado esperado, tudo certinho no papel. A gente tem prazer e as organizações não têm a volta desse prazer. Então elas não estão erradas: a gente quer uma coisa, tem um objetivo, e elas têm outro. Estou totalmente de acordo que elas tenham saído fora. De verdade, acho mesmo, acho certo. A gente não vai dar aquilo que elas querem. O Circo Voador é uma energia que está no ar. Por mais que tirem nosso tapete a gente nunca cai, porque a gente voa, ou a gente cai na nossa mãe, que é a Terra, que está voando, num salto no vazio, um salto pro desconhecido, que é o que nos interessa, não interessa fazer o que a gente já sabe.”

O mundo mudou muito de 1986 para cá. A mentalidade MBA dominou o mercado de entretenimento. Tudo ficou arrumadinho. As imagens do show de Gilberto Gil, superlotado, com o público empoleirado nos canos do teto, seriam totalmente improváveis ou proibidas hoje. Era o avesso do avesso do avesso do Padrão Fifa. Chacrinha, ele mesmo, na platéia do Circo, elogia o ambiente “completamente descontraído” e “à vontade”. “Realmente”. Em outra entrevista, Dercy Gonçalves emenda: “sou a irreverência do Brasil”. Retorno ao dilema: como juntar irreverência e regras de segurança? Qual o espaço seguro para o risco artístico?

Volto a afirmar: o espírito do Circo Voador resiste. O documentário mostra como ele está conectado com a longa história de experimentação arriscada da cultura carioca (a conexão mais óbvia com o teatro do Asdrúbal Trouxe o Trombone, que por sua vez estava conectado com “Hoje é dia de rock” e assim por diante). Perfeito Fortuna mais uma vez sintetiza o que acontecia ali: era uma “experiência de coisa nova”, de quem troca a reclamação por ação: “o poder está com cada um que quer fazer, não tá com o outro que você acha que está com o poder, esse é o jogo.”

O sonho não acabou. Muita gente que aparece na “Farra” está por aí, na ativa, mudando de ideias para inventar outros padrões. A horta urbana do Circo Voador reaparece em muitos outros lugares. Difícil escolher minha cena preferida do filme. Bom rever os dançarinos do Coringa, ou o bigode grosso (patente alta) do Leminski anunciando o que está faltando para não faltar nada. Incrível ouvir novamente “Farol da Jamaica”, com o Asdrúbal, reggae bem brasileiro de Péricles Cavalcanti que parece anunciar carnavais baianos de vários anos depois. Mas fico com Fausto Fawcett, no Festival de Poesia de 1985. Poderia ser hoje, pode ser o futuro: uma loura cartesiana bombardeia os olhos de uma chinezinha videomaker com imagens comerciais, pré ou pós-Fifa. É acompanhado pelo som da voz (antes do sampler) de David Byrne cantando: “I’m still waiting”. Continuamos esperando/aprontando a próxima Farra.


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