kids

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/07/2014

Só agora consegui ler “Só garotos”. Tão atrasado que foi difícil encontrar exemplar nas livrarias. Na época de seu lançamento, em 2010, lembro ver pilhas desse livro nas mais populares casas do ramo. Tomara que as reedições continuem. Será para sempre leitura obrigatória para quem quiser entender a evolução da cultura global em nossa virada de século. Recapitulando: em pouco mais de 200 páginas, Patti Smith conta a história de seu relacionamento totalmente não convencional com Robert Mapplethorpe. É também depoimento de quem viveu intensamente o auge de Nova York com capital do planeta. Nunca mais teremos um mundo artístico tão centralizado como aquele.

Se não fosse a morte cruel de Mapplethorpe, eu trocaria o título para “Só garotos (com sorte).” Tudo poderia ter dado muito errado na vida do casal. Mas eles foram encontrando as pessoas certas (e as “melhores” pessoas que havia no mundo naquele momento) nas horas certas, guias para contornarem os maiores perigos. Começando pelo encontro entre os dois: Patti chega sem dinheiro em Nova York, procurando amigos que haviam se mudado, entra no apartamento de alguém que poderia saber o novo endereço, e encontra Robert dormindo, com seus cachos e rosto angelicais. Nada indicava que iriam se encontrar novamente. Mas Robert reaparece, por acaso, na livraria onde Patti arrumou trabalho e, depois, no momento em que ela precisava escapar de armadilha sexual. Tudo acontece de maneira tão improvável que ficamos desconfiados. Em telenovela o autor seria acusado de criar situações absolutamente inverossímeis.

Claro que os dois se esforçam muito para desenvolver suas artes, e passam muita fome durante o esforço. Mas a sorte estava sempre ali de olho no que estava acontecendo, preparando viradas surpreendentes. Como a chegada dos dois, com Robert muito doente (antes da AIDS), no hotel Chelsea. O primeiro hóspede que encontram, e que se torna imediatamente professor/protetor (inclusive desemaranhando nós do cabelo de Patti), é Harry Smith, o mago compilador da “Anthology of American Folk Music”, que já foi homenageado nesta coluna como um dos nomes mais influentes da modernidade nos EUA. Mas era apenas o primeiro. Uma lista do quem é quem na vanguarda estava ali, dando força generosa para os novos alunos: “Gregory fez lista dos livros que eu deveria ler, disse qual dicionário eu deveria ter, encorajou-me e me desafiou. Gregory Corso, Allen Ginsberg e William Burroughs foram todos meus professores, todos passando pelo saguão do Chelsea, minha nova universidade.” Alguém pode citar universidade de poesia ou criatividade mais poderosa?

Outro momento do ensino, nos quartos do Chelsea: “Fiquei sentada no chão quando Kris Kristofferson cantou para ela ‘Me and Bobby McGee’, Janis fazendo coro. Estive presente nesses momentos, mas era tão jovem e preocupada com meus próprios pensamentos que mal os reconheci como momentos.” Garota distraída sortuda. Mesmo suas plateias eram as melhores bancas de doutorado transviado. Por exemplo, quem assistiu uma de suas primeiras leituras de poesia acompanhada pelo guitarrista Lenny Kaye: Andy Warhol, Lou Reed, Rene Ricard, Harry Smith, John Giorno, Todd Rundgren, Sam Shepard. Faltava alguém? Talvez Tennessee Williams de braço dado com Candy Darling, como numa de suas apresentações como atriz off-off-Broadway. Isso sem falar de John McKendry e Sam Wagstaff que deram a régua e o compasso (além de máquinas e dinheiro) para Mapplethorpe deslanchar sua carreira como um dos mais brilhantes fotógrafos nos anos seguintes.

Quem seriam os “só garotos” da Nova York de hoje? Mesmo a cidade tendo perdido sua centralidade (até internamente: a periferia de Williamsburg desbancou Manhattan), ela continua a impulsionar turmas de adolescentes para o estrelato planetário. Nos anos 1990, o filme “Kids”, de Larry Clark, apresentou para o mundo garotos como Harmony Korine e Chloë Sevigny. Sortudos também. Os dois foram descobertos andando na rua, depois de se mudarem para a cidade. Eles continuam cada vez mais influentes, definindo o que é “cool” para outros artistas, publicitários e hipsters de todos os continentes.

Hoje a nova “it turma” tinha que se denominar família ou coletivo. E leva a sorte logo no nome: Luck You Collective. Anote estes nomes, já são os kids da hora: o casal India Salvor Menuez e Jack Shannon. Eles organizam exposições desde a high school. Agora fazem todo o resto: filmes, fanzines, festas, são atores, modelos, apresentadores na rádio Know-Wave etc. E já há filas com os melhores professores das gerações anteriores tentando aproximação. Bom saber que apesar da caretice dominante, a garotada de Nova York não está parada. Sorte para a cidade.

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