Brasil afora

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/08/2014

Alguma pessoa de bom coração me mandou pelo correio, diretamente de Teresina, um pacote pesadão contendo vários números da revista “Revestrés”. Deixo aqui meus sinceros agradecimentos. Não conheço presente melhor do que receber notícias fresquinhas de novidades da produção cultural brasileira que acontece distante da Zona Sul carioca ou dos Jardins paulistanos. Tenho sempre certeza que estou perdendo muita coisa boa e importante, mas mesmo com a internet é difícil ter acesso a uma cobertura realmente descentralizada da criatividade nacional. Ainda é preciso combater, o tempo todo, a impressão que o “resto” do país é um vazio cultural. Desde que Campo Grande, Mato Grosso do Sul, virou (com Michel Teló, Luan Santana e tantos outros ídolos nacionais) uma das capitais do novo pop feito no Brasil, deveríamos prestar ainda mais atenção no que vem “de fora”.

Dá para comprar números atrasados da “Revestrés”, que já completou dois anos de publicação. Recomendo a edição de junho de 2013. Como temos tão pouco contato com o debate cultural do Piauí, sua matéria de capa – longa entrevista com o coreógrafo e bailarino Marcelo Evelin – não perdeu a atualidade. Tudo surpreendente. Poderia ter acontecido ontem. Sou fã de Evelin, experimentador central para a dança contemporânea brasileira e mundial (talvez seja até mais conhecido na Holanda, onde tem cidadania). Fui apresentado a seu trabalho por Josh S, que com sua banda Lado 2 Estéreo lançou o clássico “Samba Bloody Samba” e colaborou com espetáculos de Evelin. Não me esqueço do impacto de “Bull dancing”, tratamento death metal para o ritual do bumba-meu-boi.

Li algo sobre novas experiências, quando espetáculos chegaram no Sudeste, mas fiquei totalmente por fora do que mais interessa. Pela “Revestrés”, descubro a passagem conturbada de Evelin pela diretoria do Teatro João Paulo II, cheia de lições sobre impasses da política cultural no Brasil (não só no interior do Brasil), e também a criação do coletivo Núcleo do Dirceu, com sede no bairro Dirceu Arcoverde, “o mais populoso da periferia de Teresina”. Fiquei envergonhado de nunca ter ouvido falar no “Mil casas”. O Núcleo do Dirceu se apresentou em mil residências do bairro, em 2011 e 2012. O que existe, na internet, de documentação dessas “visitas” mostra que foi um dos grandes eventos artísticos brasileiros deste início de século.

Gosto do tom oscilante da entrevista, entre o rancoroso e empolgado. Cito o trecho em que Evelin critica a vitimização de artistas locais pedindo apoio do governo: “Eu tenho muita confiança no Brasil. Eu sou holandês, mas eu digo: a Holanda acabou, gente! Faz pena. E a gente aqui cheio de coisas para fazer e as pessoas reclamando que não têm 200 reais. Ah, vá trabalhar, vá propor coisas, vá se empoderar e empodere os outros! Vire outro!”

Bom constatar que há muitos outros, Brasil afora, deixando de lado a reclamação e mudando realidades. Exemplos recentes: pelo informativo da Jovens Escribas, editora do Rio Grande do Norte, sou lembrado que a DoSol, iniciativa transplataforma potiguar (inclui TV, Net Label, produtoras de eventos) já comemora seus dez anos de atividade. Vai ter festival de aniversário em novembro, circulando pelas cidades de Natal, Caicó e Mossoró. No início do ano o DoSol realizou a quarta edição do “Pensando Música”, com palestras, debates e shows das bandas Sonic Angels (França), Perrosky (Chile) e as locais Red Boots e Camarones Orquestra Guitarrística, mostrando como conexões internacionais são estabelecidas agora sem precisar da mediação dos “grandes” centros culturais do Brasil.

Também recentemente recebi convite para colaborar com o Porto Iracema das Artes e sua escola de formação, nova proposta do Centro Dragão do Mar, de Fortaleza, que já completa um ano com cursos de quadrinhos, games, curadoria, pesquisa teatral, TV e muitas outras matérias criativas. Deveria haver instituição como essa em todas as cidades brasileiras.

Para não dizer que só falei do Nordeste: aproveito o embalo para dar parabéns também para o Mate com Angu, (de Duque de Caxias, aqui do lado mas muitas vezes tão “distante” quanto Teresina, Natal ou Fortaleza), por seus 12 anos de muita batalha. Esta semana, para comemorar, esse cineclube (e muito mais) realizou o Festival Curta Caxias, ocupando vários espaços do município da Baixada Fluminense.

Esses exemplos revelam variedade enorme de estratégias de sobrevivência, as vezes com governos ou contra governos, com ou sem patrocínio privados, com ideologias bem diversas. Em comum: dá muito trabalho manter tudo isso vivo. Mas tem muita gente trabalhando. Apesar de tanta outra gente que teima só enxergar vazio cultural no país.

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