Lygia e Lina

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/08/2014

A exposição de Lygia Clark no MoMA de Nova York ficará em cartaz por apenas mais dez dias. Há quatro meses é principal atração naquele museu. Sua apresentação afirma tratar-se da primeira grande retrospectiva na América do Norte do trabalho da artista brasileira. Demorou. Mas a realidade é assim: segue caminhos não-lineares, com vários tempos convivendo ao mesmo tempo agora. Mais do texto da apresentação: “Embora no Brasil o legado de Clark seja profundo, esta exposição chama a atenção internacional para o seu trabalho.” Mais do que isso: revela como as questões propostas por seus bichos, terapias e tantos outros objetos/situações relacionais ainda apontam caminhos para o futuro da arte no Brasil e no mundo.

Bom aproveitar este momento de sintonia entre modernidades, a brasileira e a internacional. Não que ainda seja necessário qualquer aval de instituições poderosas do Primeiro Mundo para reconhecermos a importância do que aconteceu por aqui. Já tínhamos certeza: Lygia Clark é tão grande quanto qualquer artista moderno. Porém, esse conhecimento, que era “só” nosso, criava situação de isolamento triste. Por pura generosidade: o que é bom precisa ser compartilhado. Ou mais:  seu papel só é cumprido com justiça no compartilhamento mais amplo, quando é valorizado como obra prima do espírito humano.

O problema é que até bem recentemente o tal “espírito humano”, clássico ou moderno, era confundido com aquilo que era produzido nas terras mais ricas do Ocidente. Era como se o mundo que importa se resumisse ao centro econômico do mundo. Mesmo as melhores pessoas caíam nesse papo. Semanas atrás elogiei por aqui o livro “Só garotos” da Patti Smith. É o retrato de Nova York enquanto centro do mundo, quando “todo mundo” estava lá. Revi seu índice onomástico: as únicas pessoas “da periferia” citadas, muito na periferia da linha narrativa, são o casal Frida/Diego e os escritores Mishima e Mrabet. O resto era europeu ou americano do norte (excluindo México). Tudo o mais estava fora “do alcance”. A exposição de Lygia Clark mostra que algo mudou nessa geopolítica da criatividade contemporânea. Não é possível estabelecer limites claros entre centro/periferia como antigamente.

Essa mudança de visão de mundo desencadeia revisionismos históricos bem variados. Sim, a Nova York que educou Patti Smith e Robert Mapplethorpe era o centro (para quem precisava de centro) do mundo. Os nomes citados nas páginas de “Só garotos” são conhecidos no mundo inteiro. O Rio de Janeiro, da virada dos anos 1960/1970 (repito: mesmo no pior da ditadura), tinha vida artística igualmente intensa, mas só agora o mundo ouve falar e descobre a importância daquilo que Lygia, Hélio, Caetano e Gil – só para citar os hoje mais internacionais – fizeram por aqui. “Verdade tropical” não me deixa mentir.

É com alívio que vejo isso acontecer. O mundo merece essa descoberta, mesmo tardia. Outras sincronicidades podem ser exploradas. Por exemplo, algo bem periférico: Patti conta que, depois da morte de Robert, sonhou em ficar com seus chinelos, sua cadeira e sua escrivaninha. A escrivaninha foi desenhada por Gio Ponti. Gio Ponti – hoje provavelmente Patti e Robert saberiam – foi mestre severo de Lina Bo Bardi (no primeiro encontro de trabalho, ele disse para ela: “não vou pagar você, você é que tem que me pagar” – talvez tenha trabalhado de graça na escrivaninha depois leiloada na Christie’s).

Ainda bem que a genialidade da obra de Lina não é mais outro segredo brasileiro. Dias depois da abertura da exposição de Lygia Clark no MoMA, Martin Filler – um dos críticos de arquitetura mais influentes – publicou no New York Review of Books artigo absolutamente consagrador saudando o centenário de Lina e a publicação, nos EUA, de três livros sobre sua obra. Poucas vezes li texto tão lotado de elogios, começando pelo título perfeito: “Uma arquitetura da perfeita imperfeição.” Comentário sobre o MASP e sobre o SESC Pompéia: “Eles são de qualidade tão excepcional que pode-se facilmente entender a razão para sua criadora ter finalmente ganhado lugar de destaque num cânone dominado por homens.”

A vida de Lina já foi prenúncio de um mundo cada vez mais alegremente descentralizado em termos de cânones e identidades. Mesmo assim ela ficou do nosso lado: “1951. Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso o Brasil é meu país duas vezes, é minha ‘Pátria de Escolha’, e eu me sinto cidadão de todas as cidades, desde o Cariri, ao Triângulo Mineiro, às Cidades do Interior e as da Fronteira.” Ainda bem que agora o mundo valoriza essa cidadania que confunde Interior/Fronteira.

PS: Tenho certeza que estou batalhando aqui pelo Brasil que Eduardo Campos queria/admirava.

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