valores russos

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/10/2014

 

Quando tudo está confuso, e as pessoas ao redor parecem vítimas de crise histérica, muitas vezes vale a pena observar uma situação onde a confusão parece maior. Nossos miolos recebem tratamento de choque de atrapalhação e talvez daí possa surgir alguma lucidez, ou apenas momento de distração. Tenho pensado muito na Rússia ultimamente. Talvez influenciado por visitas às livrarias onde sempre encontro, entre os lançamentos, títulos como “Antologia do pensamento crítico russo” (Editora 34), organizado por Bruno Barreto Gomide, ou “Lições de literatura russa” (Três Estrelas), de Vladimir Nabokov, lembrando-nos que os russos, como os brasileiros, também sofrem com debates intermináveis sobre a identidade de seus “grotões”. As leituras mais “abstratas” são acompanhadas por outras bem mais “práticas”, em jornais que, desde a “reintegração” da Crimeia, e agora com o impasse ucraniano, assustam um Ocidente que pensava ter vencido o Kremlin com a queda do Muro de Berlim.

Salvo engano, o nome Vladimir Putin só apareceu nesta coluna uma vez, quando fiz comentários sobre o filme “Fausto”, de Sokurov. Citei declaração do produtor Andrey Sigle revelando como o apoio de Putin foi fundamental para o filme ser financiado com oito milhões de euros. Era 2008, final do seu segundo mandato como presidente, logo assumindo cargo de primeiro ministro. Tempos bem diferentes dos atuais. O desenvolvimento econômico criou uma enorme classe média que se imaginava cosmopolita, tanto em termos de ideias quanto de consumo, e podia conduzir suas vidas privadas sem controle rígido de patrulhas ideológicas.

O apoio de Putin para um filme de vanguarda, falado em alemão, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, mostrava uma abertura maior para o culturalmente arriscado, com o objetivo explícito de aproximação com a Europa. As palavras de Sigle: “O filme é um grande projeto cultural russo e para Putin isso é muito importante. Ele o vê como um filme que pode introduzir a mentalidade russa na cultura europeia; promover a integração entre as culturas russa e europeia. A Rússia não é apenas uma potência militar ou uma potência do petróleo e do gás, ela tem uma enorme herança cultural e o filme pode ajudar o povo europeu a enxergar melhor o rosto da Rússia.”

Esse projeto tinha raízes pessoais mais antigas. Putin passou cinco anos como agente da KGB na Alemanha do Leste. Voltou para a então Leningrado no momento em que a Alemanha reunida virava membro da Otan, fato encarado como uma vitória do Ocidente. Em entrevista dez anos depois, ele deixou transparecer a amargura ao lembrar de como “a União Soviética perdeu sua posição na Europa.” Nos seus dois primeiros mandatos como presidente parecia, como mostrou com “Fausto”, batalhar pela reconexão. Porém, a geopolítica planetária e a conjuntura interna russa mudaram muito desde 2008.

Crise econômica mundial. A Otan namorando com a Ucrânia (quase considerando a Rússia como periferia sem importância). As sanções econômicas da Europa e dos Estados Unidos contra empresas de amigos do Kremlin. A classe média nas ruas e a Pussy Riot na igreja contra sua decisão de concorrer por um terceiro mandato para a presidência (em 2012). Putin deve ter se sentido traído, humilhado. Sua reação tem sido se aproximar de movimentos ideológicos que tentam reconstruir os ideais de uma “Rússia Profunda” independente do Ocidente, muito ligados a um lado mais místico (e ao mesmo tempo pragmático) da Igreja Ortodoxa, que vive novo esplendor depois do fim do regime comunista (Putin foi batizado escondido, pois sua mãe era devota clandestina). Tanto que as integrantes do Pussy Riot cantaram que o patriarca ortodoxo “acredita em Putin e não em Deus” – e por isso foram presas por “vandalismo em grupo organizado animado por ódio religioso.”

David Remnick, em artigo na New Yorker sobre o “Putin imperial” (mas que trata até mais das improvisações da diplomacia dos EUA), fala de rumores que apontam Tikhon Shevkunov, sacerdote do mosteiro Sretensky (localizado quase ao lado do quartel-general da KGB), como conselheiro espiritual do presidente. Shevkunov apresentou e produziu um docudrama para a TV estatal chamado “A destruição de um império: a lição de Bizâncio”. O Ocidente, e não os turcos otomanos, foi responsável pela queda de Constantinopla em 1453. O Ocidente continuaria a ser o grande inimigo dos “valores tradicionais russos”.

Como cantou Cazuza ou escreveu Hobsbawn, nossos amores e nossas tradições “a gente inventa”. E reinventa o tempo todo. Por isso é bom ler, daqui do Brasil, Tolstoi (sobre crianças camponesas) ou Nabokov (sobre os filisteus), para buscar no perigo dos outros nossa salvação.

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