Archive for fevereiro \28\UTC 2018

metal, o retorno

28/02/2018

Para continuar no espírito do post anterior: estratégia para sair da minha bolha. Experiência: passeio pela bolha dos outros. Escolha por acaso. Entrei numa banca e comprei atrasado o número da revista Metal Hammer com sua lista dos 100 melhores discos de 2017. Tudo bem, escolha fácil, não é uma bolha tão distante assim. Sempre, ou desde que escutei “Reign in blood” do Slayer, (ou desde que vi um show do Death, do Gwar [nunca vou me recuperar], do Anthrax [naquela incrível excursão com o Public Enemy] – como dá para perceber meu interesse metálico é pós-adolescente [nasci em 1960]), procurei me manter atualizado com relação às novidades do mundo do heavy metal. Mas isso exige tempo. É uma bolha enorme, com milhares de sub-bolhas, cada uma com novidades constantes. Além disso, cultiva certo orgulho de se manter no “underground”, criando universos esotericamente paralelos, nos quais só iniciados sabem se movimentar.

Tudo isso para mim é muito curioso. Revela a possibilidade bem concreta de que uma cena tão comercialmente poderosa como essa (e como tantas outras) – com milhares de discos, bandas, fãs, festivais etc. – consiga existir e prosperar fora do “mainstream” e mesmo avessa às técnicas convencionais de divulgação usadas pelos produtos da indústria cultural que aparentemente são mais “universalmente” compartilhados, ou são mais facilmente visíveis para habitantes de múltiplas bolhas.

Como sou interessado em muitas outras bolhas, passo algum tempo distante das novidades do metal. Então, a cada novo passeio por essa cena, renovo meu espanto e tenho consciência da minha vergonhosa ignorância ao perceber tudo que perdi no “afastamento”. Saio do passeio energizado, totalmente elétrico. Como agora. Novamente. Listo e linko aqui poucas das muitas estonteantes descobertas (tudo eu não conhecia antes, e quase nada aparece em listas de melhores do ano fora da heavy bolha):

  • Myrkur – autora do segundo melhor disco do ano segundo a Metal Hammer – impressionante por ser uma invasão feminina no reino muito masculino do black metal, apontando o futuro do gênero sob tratamento de folclore dinamarquês – veja o clipe de Ulvinde
  • Zeal & Ardor – o blues mais tradicional e as inovações do hip hop se encontram na extremidade death com resultado que deveria ser ouvido com atenção por músicos de todas as outras bolhas – neste vídeo a banda mostra que consegue reproduzir seu ecletismo estético também ao vivo
  • a revista vem com CD encartado – na seleção de músicas a que mais capturou minha atenção (além do heavy folk mongol-nova-iorquino do Tengger Cavalry) foi Manic Void (aqui a aula de guitarra), da A Sense of Gravity, metal progressivo de Seattle – fui correndo procurar pela banda, que já é a minha favorita de todos os tempos nesta semana, e seguindo o “veja também” do YouTube acabei conhecendo em seguida os italianos da Abiogenesis – deu para entender que essa ala progressiva do novo metal é uma evolução quase alienígena do virtuosismo anos 1970 de um Yes – é algo para além do humano, música de inteligência artificial
  • na lista de melhores shows de 2017 está a apresentação (no festival Midgardsblot, realizado em cemitério viking) da Heilung, melhor banda de todos os tempos da semana que vem e de muitas outras a seguir, os criadores de um gênero além música (é mais ritual pós-xamânico) batizado de (o nome é genial) “história amplificada” – era apenas a segunda performance (das duas únicas de sua carreira) que esse povo, coletivo, não-sei-bem-como-classificar, realizou num palco – a primeira, na Holanda, pode ser vista do começo ao fim no YouTube (gosto especialmente deste momento aqui) – não sei a razão de ter me dado também saudade do Magma
  • na revista ainda há muitos elogios para os brasileiros do Cavalera Conspiracy e do Jupiterian (e seu doom metal mascarado) – o Brasil continua influente nesta cena (vide matéria linkada acima na qual fica clara a importância do Sepultura para a educação de Kai Uwe Faust, vocalista do Heilung)

Tudo isso pode parecer “fringe” demais, desviante demais, paralelo demais, para merecer atenção das outras bolhas. O melhor seria deixar essa bolha escondida no seu canto? Não é mais assim que as coisas funcionam. Não há mais uma bolha realmente central, e outras periféricas. A novidade cultural mais importante, e que vai ter influência decisiva e surpreendente na vida planetária, pode acontecer numa bolha totalmente perdida no espaço memético de maior visibilidade transbolhas. A tarefa principal, para quem quer produzir política cultural (no seu sentido mais amplo) consequente, é arejar a vida inter e intra bolhas, aumentando as possibilidades das informações circularem de uma bolha para a outra, promovendo encontros inesperados entre o que existe de melhor em cada uma delas. Com tanta bolha interessante por aí, é um desperdício viver cheio de preconceitos e isolado.

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bolhas

26/02/2018

Claro: vivo numa bolha. Como estou aqui dentro, e bolhas se comportam como se fossem o universo inteiro, não sei qual é a minha… Talvez, a bolha de quem acredita em bolha.  Ou talvez a bolha (bloco com cordão mágico) do eu sozinho… Meu consumo de mídia varia muito pouco. Vou sempre nos mesmos sites, podcasts, blogs. Meu RSS tem pouco feed novo recente. Em tese, como é costume para nativos da minha bolha, eu deveria ter comportamento diferente: acionar o espírito aventureiro e explorar novas fontes, surpreendentes. Mas a preguiça é maior. O consolo é acreditar que essa minha dieta básica e acomodada de informação já me apresenta surpresas suficientes: coisas e assuntos que eu ignorava antes e que passam a ter centralidade em minha vida. Este blog está cheio dessas descobertas fundamentais. Como agora: no meu podcast velho querido de guerra, o Expanding Mind, apresentado por Erik Davis, que sempre reaparece por aqui, acabo de ficar encantado pelo pensamento de Bruce Damer. Sim, sou parte da bolha do Expanding Mind, uma daquelas duas mil pessoas que sempre fazem download de cada edição. Provavelmente a maioria delas já devia conhecer Bruce Damer. Eu não, o que talvez seja motivo suficiente para não ser da bolha tanto assim. Porém, ouvir ali a sua conversa com Erik me deu motivo para querer ter uma bolha de qualquer jeito. Dois motivos principais.

Primeiro. Bruce Damer desenvolveu uma nova teoria sobre a origem da vida que nos ensina que não estaríamos por aqui se não fossem as bolhas. Seus argumentos já foram até capa da Scientific American, mas não tinham capturado minha atenção até ouvir o podcast. Pois bem, resumo bem irresponsável: a vida não apareceu no mar e sim em poças de água térmica, que secavam e enchiam novamente, por séculos e séculos, em ciclos. Borbulhantes. Muito borbulhantes, com bolhas cada vez mais fortes, a cada ciclo. Nos seus interiores iam acumulando as moléculas matérias primas para a formação do código genético. “Surfando o ‘noise’, a segunda lei da termodinâmica” (que só prevê aumento da desordem, nunca surgimento da ordem) em três etapas fuzzy: primeiro encontrando maneiras de hackear a probabilidade, depois inventando uma técnica de comunicar conquistas anti-Caos para outras bolhas, e depois desenvolvendo uma memória de todo seu cíclico aprendizado. Tudo fascinante: o segredo é repetir, repetir, repetir. Uma hora aquilo que é interessante aparece. Teoria boa, bonita, como pensaria um meu tio onça de Guimarães Rosa.

Segundo. Descobri em Bruce Damer um aliado no meu gosto por conhecer gente que vive em outras bolhas (acho que por isso sou antropólogo). Erik descreve Bruce como um freak típico de San Francisco. Olhando as fotos de Bruce no Burning Man temos que concordar com esse elogio. O cara é realmente uma figura. Então Erik fica intrigado: como alguém assim convive com as normas bem mais caretas da comunidade científica? Ou com a formalidade da Nasa (onde apresentou – e como ele se diverte apresentando – seu projeto lindo de nave espacial que captura asteroides [bem diferente dos asteroides espaçonaves de Kim Stanley Robinson]). Bruce responde: “quando estou com eles, eu sou eles”. Sabe “trocar de pele”, desenvolveu técnicas para se transformar no Outro, simulando ser o Outro, e isso é estratégia para um “meta understanding”. Não é furar bolhas. Mas transitar entre bolhas. Tento ser assim também. Não quero trazer ninguém para minha bolha. Curto passar um tempo na bolha alheia. Descansa. Quando vou, por exemplo, em qualquer ritual religioso, não é meu objetivo fazer catequese. Naquele momento que estou ali, busco acreditar naquilo que as pessoas que estão ali acreditam. Tento entender sua crença. Respeito religiosamente suas regras. Já disse que sou cada vez mais relativista. Não tenho jeito para ser diferente. Claro que não visito qualquer bolha. Há limites. Afinal, fico com os versos de Kabir: “Eu / tudo o que procuro / é uma boa companhia”. Entenda quem quiser entender. Mas isso é papo pra lá de Marrakesh. Pra bem dentro de um souk de Clifford Geertz. Fronteiras do “local knowledge” e adiante.

Até porque o papo do Erik com o Bruce termina com indicações sobre uma nova teoria da consciência: “campo de intenções”; “sistema operacional do real”, “formatando probabilidade”. Tudo é consciente? Tudo iluminado? Consciência produz todo o resto, como parte de todo resto? Fico esperando as respostas no webminar adiado (“until further notice”) de Bruce Damer. O que ele vai pensar em seguida.

verdade e pureza

11/02/2018

Minha última leitura de 2017 foi “Íon”, de Eurípedes. Conheço pouca coisa sobre tragédias gregas. Vi e li várias, para tentar ter contato mais próximo com aquele pessoal que estava formatando o sistema operacional dos cérebros ocidentais. Ou estava inventando o Ocidente (e a crítica do Ocidente). Mas não me aprofundei em nada. Então posso estar falando enorme bobagem ao identificar em “Íon” uma maneira diferente de ser trágico. Para ser mais ousado na minha ignorância: é talvez a menos trágica da tragédias (e não estou pensando na implicância de Nietzsche contra Eurípedes). Nos anfiteatros da Grécia Antiga, o mais comum era acompanhar trajetórias do ruim para o pior. Deuses e/ou o destino não tinham nenhuma pena de quem estava em cena. Vários raios costumavam cair nas mesmas personagens, sempre dilaceradas por sofrimentos – muitas vezes gratuitos – horripilantes. Em “Íon” esperamos castigos e desastres, mas tudo vai melhorando, melhorando… E o final é até feliz.

Fiquei espantado e curioso. Fui procurar sobre “Íon” na internet. Não há muita coisa. Mas encontrei link me lembrando que várias aulas do penúltimo curso de Michel Foucault no Collège de France foram justamente sobre essa peculiar tragédia. Está tudo publicado no livro “O governo de si e dos outros”. Sua leitura foi uma das minhas misturadas atividades nestas conturbadas primeiras semanas de 2018.

Sempre fiquei maravilhado com essas aulas de Foucault. Privilégio para quem podia acompanhar a evolução de seu pensamento, ali em tempo real. (Hoje seria ainda melhor: o Collège de France disponibiliza todos os seus cursos online, em vários formatos. Antes da internet, o acesso exigia viagem para Paris e a batalha para conseguir lugar numa sala apinhada [a venerável instituição francesa sempre foi adepta dos códigos abertos: qualquer pessoa pode frequentar suas salas de aula]. Muita gente documentava as falas de Foucault em gravadores cassettes, e as fitas circulavam por correio não virtual mundo afora. Tudo era bem mais trabalhoso.) Já ouvi relatos – nunca estive lá – dizendo que o estilo de apresentação era enfadonho, voz “meio metálica”. Era necessária muita atenção para acompanhar o que importava: a aventura das ideias, a paixão por descobertas de pesquisas dos dias anteriores, que nem Foucault sabia onde iam dar (no curso seguinte, e o último de sua vida, publicado em “A coragem da verdade”, encontramos: “gostaria de captar, de tentar mostrar para vocês e mostrar para mim mesmo”… Ou: “mas me deu vontade agora, um tanto excitado com o cinismo no decorrer destas últimas semanas, de propor o seguinte para vocês”… E ainda, de dar nó na garganta, por sabermos agora que ele morreria poucos meses depois desta aula: “são coisas que ainda não analisei, que seria interessante estudar em grupo, em seminário, poder discutir. Não, não tenho condições atualmente – pode ser que venha a ter um dia, talvez nunca – de dar um curso na devida forma sobre esse tema da verdadeira vida”). Bom ter tudo isso transcrito com tanto cuidado e várias notas em livros, que podem ser estudados com toda a calma. (Foucault voltou ao centro do debate intelectual agora por causa da publicação do quarto volume, inacabado, de sua “História da sexualidade”. Virou número especial da “Philosophie magazine” e chamada de capa em muitas outras revistas francesas. Em “L’histoire”, há entrevista com seu editor Pierre Nora que aborda seu veto para publicações póstumas. Sobre os cursos a posição não era tão categórica, apesar de modesta: ali “haveria pistas de trabalho suscetíveis de interessar, mas isso lhe parecia muito trabalho para pouca coisa”. Ainda bem que o muito trabalho foi feito.)

A reflexão sobre “Íon” ocupa cinco aulas, um quarto do curso inteiro. Até Foucault parece surpreso com isso. Ou envergonhado: pede desculpa por falar “tão demoradamente” sobre essa tragédia. Diz ainda: “não demora a deixá-la [a peça] de lado, fiquem sossegados”. E chega a comemorar no final de uma aula: “Pronto, terminamos ‘Íon’.” (Para depois ainda voltar a “Íon” na aula seguinte…) Que ninguém se deixe enganar por esses recursos retóricos: nada aqui é chato. Não vou tentar resumir a leitura de Foucault. Vale a pena todo mundo fazer sua própria leitura dessa leitura, acompanhar a argumentação detalhista, repetitiva para ficar totalmente clara, mas de tirar o fôlego por sua engenhosidade, e pelo prazer evidente que Foucault demonstra ao seguir seu próprio raciocínio. Prazer contagiante. Mas resumo (mais uma ousadia minha, conheço quase nada de filosofia grega ou francesa etc.): a peça é lida como a batalha de Íon para conquistar cidadania plena em Atenas, para estar “na primeira fileira” dos cidadãos atenienses, aqueles que têm “o direito político de exercer em sua cidade a fala franca, que é chamado de ‘parresía'”. “Fala franca” é um “#ProntoFalei”, mas não de forma impensada ou apenas impulsiva. É uma coragem de dizer a verdade, doa a quem doer, inclusive colocando sua própria cara a tapa. E “parresía”, para muitos gregos, rima bem com democracia. Uma não pode viver sem a outra.

A argumentação é complexa. Toda essa preocupação com a verdade em Foucault surpreendeu ou desagradou vários dos seus discípulos (os caminhos de seu pensamento tomavam rumos imprevisíveis – como antes, no curso de 1978-1979, transcrito no livro “O nascimento da biopolítica”, quase que inteiramente dedicado a uma genealogia do neoliberalismo – levando Hayek, Gary Becker ou mesmo Giscard D’Estaing muito a sério -, quando o debate central no mundo intelectual ainda era sobre algo em torno do eurocomunismo… Tudo passou a fazer sentido décadas depois). Importante constatar: Foucault não passou a defender o conceito de uma verdade objetiva. Vários momentos desses e de outros cursos dos últimos anos de sua vida lembram a canção de Marisa Monte: “Verdade, uma ilusão”. Exemplos: em “Íon”, “a verdade não é dita sem trazer com ela uma dimensão, eu diria um duplo de ilusão que é ao mesmo tempo seu acompanhamento necessário, sua condição e sua sombra projetada. Não há dizer-a-verdade sem ilusões” (página 84 da edição da Martins Fontes). Ou em poucas outras palavras: “um dizer-a-verdade que, por um lado, deixa reinar sobre a verdade toda uma parte de ilusão, mas, graças a essa ilusão, instaura a ordem em que a palavra que comanda poderá ser uma palavra de verdade e de justiça, uma palavra livre, uma ‘parresía’.” (p. 136)

Claro: pairando sobre tudo está a sombra de Nietzsche (ver o delicioso “Nietzsche e a verdade”, de Roberto Machado, que ganhou edição revista em 2017, de onde retiro a seguinte afirmação: “Se a arte tem mais valor que a ciência, e é sempre utilizada por Nietzsche como paradigma de sua crítica da verdade, é porque, enquanto a ciência cria uma dicotomia de valores que situa a verdade como valor supremo e desclassifica a aparência, na arte a experiência de verdade se faz indissoluvelmente ligada à beleza, que é uma ilusão, uma mentira, uma aparência.” E palavras de Nietzsche citadas por Roberto Machado: “A verdade é feia: temos a arte a fim de que a verdade não nos mate” ou “deve-se querer até a ilusão – isso é o trágico”.) Mas não ouso entrar nesse terreno complicado, que não domino nem como principiante. Quero pular logo para o momento de “O governo de si e dos outros” que mais chamou minha atenção nessa minha leitura descuidada de verão trepidante. Para Íon ter direito a “parresía” em Antenas, ele precisava provar que era ateniense puro. E aqui aparece algo que talvez me interesse mais do que o “valor da verdade”: o “valor da pureza” e a condenação de qualquer mistura.

Foucault mostra como “desde meados do século V, desde 450-451, uma legislação própria de Atenas […] não reconhecia o direito de cidadania aos filhos nascidos de um pai ateniense, mas de mãe não ateniense.” Mesmo sendo algo recente no tempo de Eurípedes, “seguindo um procedimento habitual nessas reelaborações lendárias, valorizasse essa lei como extremamente antiga”. Então Íon acredita piamente: “o povo autóctone e glorioso de Atenas é puro de toda mistura estrangeira.” No resto desse curso, e no próximo (o de “A coragem da verdade”), mesmo quando deixa Íon em paz, e analisa os argumentos divergentes tanto de Platão (e dos neoplatônicos cristãos) como dos cínicos, Foucault parece não se dar conta (posso estar errado, não li tudo com a devida atenção…) de que a valorização da pureza unifica tudo, para além do valor da verdade (e da vida verdadeira). Talvez os dois valores estejam confundidos (ou misturados): “Primeiro valor da palavra “alethés” (verdadeiro), não apenas o que não é dissimulado, mas o que não recebe nenhuma adição e suplemento, o que não sofre nenhuma mistura com outra coisa além de si mesmo”. “Alethés” é também o reto, o anti-barroco, contra rodeios e dobras, e nesse sentido mais uma vez “se opõe à multiplicidade e à mistura.” Então, mesmo no “escândalo da verdade”, no “teatro visível da verdade” dos cínicos (ou nos corpos dos filósofos cínicos), ou na sua dramaturgia de “pobreza ativa”, encontramos essa valorização de uma “vida sem mistura, da vida pura e autossuficiente”, “da vida independente de tudo”, mesmo que isso signifique feiura ou humilhação (e, no extremo, escravidão).

Estou, desde o início, rodeando quatro páginas de “A coragem da verdade” (de 163 a 166), o momento em que Foucault fala (e avisa: “Desculpem esses sobrevoos, são anotações, é trabalho possível”) – bem adequado para o dia de hoje – em tempos de folia nas ruas (não sei se esse tema aparece em outros de seus livros e cursos – li também o “Impressões de Michel Foucault”, que Roberto Machado lançou no ano passado, com vários trechos descrevendo as viagens de Foucault pelo Brasil – ali nada deixa transparecer um interesse especial pelo lado carnavalesco da vida brasileira…). O carnaval é visto como um veículo do “escândalo da verdade” no mundo medieval e cristão estudado por Bakhtin. O que desemboca na identificação do “problema das relações entre a festa e a vida cínica (a vida no estado nu, a vida violenta, a vida que escandalosamente manifesta a verdade).” Isso para pular rapidinho para o esboço de uma teoria da arte moderna como antiplatonismo, com sua “verdade bárbara” e sua “coragem de assumir o risco de ferir”.

E isso porque, na aula, Foucault pulou trecho do manuscrito (havia sempre um manuscrito como base para todas as aulas) que poderia servir de base para outro curso, talvez sobre o niilismo, tentando dar respostas para a seguinte pergunta: “qual a vida necessária a partir do momento em que a verdade não seria necessária?” Ou: “se nada é verdadeiro, como viver?” Foucault ensaia uma pista: “o cinismo não para de lembrar o seguinte: que muito pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente e que muito pouca vida é necessária quando se é verdadeiramente apegado à verdade.” Mas eu, metido, acrescento outra pergunta: essa vida verdadeira, da verdade pouca, tem que ser necessariamente uma vida pura, sem mistura? Que festa ou carnaval é possível sem mistura, sem rodeios e dobras? Festa pobre e reta, anti-Joãzinho-Trinta?

Se numa outra encarnação eu nascer erudito uma das minhas tarefas será produzir essa genealogia da pureza. Teria que citar aquele início das “Metamorfoses” de Ovídio onde imperam “as sementes discordantes de coisas desconexas”. Tempos primordiais onde “num mesmo corpo o frio guerreava o quente, o úmido lutava com o seco, o mole com o duro, o peso com a ausência de peso” – ou seja: estava tudo misturado. Foi preciso que divindade ou natureza mais benigna (para Ovídio) separasse as coisas para que o mundo existisse. E esse horror ao misturado, essa valorização da pureza, foi parar na Segunda Lei da Termodinâmica, segundo a qual sistemas misturados não produzem nada de interessante, e que mesmo informação precisa separar alhos e bugalhos para ser útil.

Contra tudo isso, teria que construir altar para o Eros de Diotima (descrito por Sócrates naquele estranhíssimo “Banquete” de Platão), um dos poucos seres misturados-híbridos-mestiços com real importância na história do pensamento ocidental, filho da Pobreza e do Recurso (sim havia uma mendiga chamada Pobreza e um cara chamado Recurso, esse por sinal filho da Prudência), ao mesmo tempo mortal e imortal, sempre “entre” todas as coisas.

Ou, se a necessidade do puro for condição para nosso pensamento demasiadamente humano, teria que construir uma inteligência artificial que conseguisse pensar de outra forma, fora da ordem (pois não precisa operar a partir de nenhuma ordenação) e capaz de processar um outro tipo de informação misturada que nem conseguimos imaginar qual seria ou como seria possível…


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