metal, o retorno

Para continuar no espírito do post anterior: estratégia para sair da minha bolha. Experiência: passeio pela bolha dos outros. Escolha por acaso. Entrei numa banca e comprei atrasado o número da revista Metal Hammer com sua lista dos 100 melhores discos de 2017. Tudo bem, escolha fácil, não é uma bolha tão distante assim. Sempre, ou desde que escutei “Reign in blood” do Slayer, (ou desde que vi um show do Death, do Gwar [nunca vou me recuperar], do Anthrax [naquela incrível excursão com o Public Enemy] – como dá para perceber meu interesse metálico é pós-adolescente [nasci em 1960]), procurei me manter atualizado com relação às novidades do mundo do heavy metal. Mas isso exige tempo. É uma bolha enorme, com milhares de sub-bolhas, cada uma com novidades constantes. Além disso, cultiva certo orgulho de se manter no “underground”, criando universos esotericamente paralelos, nos quais só iniciados sabem se movimentar.

Tudo isso para mim é muito curioso. Revela a possibilidade bem concreta de que uma cena tão comercialmente poderosa como essa (e como tantas outras) – com milhares de discos, bandas, fãs, festivais etc. – consiga existir e prosperar fora do “mainstream” e mesmo avessa às técnicas convencionais de divulgação usadas pelos produtos da indústria cultural que aparentemente são mais “universalmente” compartilhados, ou são mais facilmente visíveis para habitantes de múltiplas bolhas.

Como sou interessado em muitas outras bolhas, passo algum tempo distante das novidades do metal. Então, a cada novo passeio por essa cena, renovo meu espanto e tenho consciência da minha vergonhosa ignorância ao perceber tudo que perdi no “afastamento”. Saio do passeio energizado, totalmente elétrico. Como agora. Novamente. Listo e linko aqui poucas das muitas estonteantes descobertas (tudo eu não conhecia antes, e quase nada aparece em listas de melhores do ano fora da heavy bolha):

  • Myrkur – autora do segundo melhor disco do ano segundo a Metal Hammer – impressionante por ser uma invasão feminina no reino muito masculino do black metal, apontando o futuro do gênero sob tratamento de folclore dinamarquês – veja o clipe de Ulvinde
  • Zeal & Ardor – o blues mais tradicional e as inovações do hip hop se encontram na extremidade death com resultado que deveria ser ouvido com atenção por músicos de todas as outras bolhas – neste vídeo a banda mostra que consegue reproduzir seu ecletismo estético também ao vivo
  • a revista vem com CD encartado – na seleção de músicas a que mais capturou minha atenção (além do heavy folk mongol-nova-iorquino do Tengger Cavalry) foi Manic Void (aqui a aula de guitarra), da A Sense of Gravity, metal progressivo de Seattle – fui correndo procurar pela banda, que já é a minha favorita de todos os tempos nesta semana, e seguindo o “veja também” do YouTube acabei conhecendo em seguida os italianos da Abiogenesis – deu para entender que essa ala progressiva do novo metal é uma evolução quase alienígena do virtuosismo anos 1970 de um Yes – é algo para além do humano, música de inteligência artificial
  • na lista de melhores shows de 2017 está a apresentação (no festival Midgardsblot, realizado em cemitério viking) da Heilung, melhor banda de todos os tempos da semana que vem e de muitas outras a seguir, os criadores de um gênero além música (é mais ritual pós-xamânico) batizado de (o nome é genial) “história amplificada” – era apenas a segunda performance (das duas únicas de sua carreira) que esse povo, coletivo, não-sei-bem-como-classificar, realizou num palco – a primeira, na Holanda, pode ser vista do começo ao fim no YouTube (gosto especialmente deste momento aqui) – não sei a razão de ter me dado também saudade do Magma
  • na revista ainda há muitos elogios para os brasileiros do Cavalera Conspiracy e do Jupiterian (e seu doom metal mascarado) – o Brasil continua influente nesta cena (vide matéria linkada acima na qual fica clara a importância do Sepultura para a educação de Kai Uwe Faust, vocalista do Heilung)

Tudo isso pode parecer “fringe” demais, desviante demais, paralelo demais, para merecer atenção das outras bolhas. O melhor seria deixar essa bolha escondida no seu canto? Não é mais assim que as coisas funcionam. Não há mais uma bolha realmente central, e outras periféricas. A novidade cultural mais importante, e que vai ter influência decisiva e surpreendente na vida planetária, pode acontecer numa bolha totalmente perdida no espaço memético de maior visibilidade transbolhas. A tarefa principal, para quem quer produzir política cultural (no seu sentido mais amplo) consequente, é arejar a vida inter e intra bolhas, aumentando as possibilidades das informações circularem de uma bolha para a outra, promovendo encontros inesperados entre o que existe de melhor em cada uma delas. Com tanta bolha interessante por aí, é um desperdício viver cheio de preconceitos e isolado.

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Uma resposta to “metal, o retorno”

  1. bolhão | Hermano Vianna Says:

    […] breve à bolha dos games. Bolhão enorme, bem maior que a bolha metálica de dois posts atrás. A primeira publicação neste blogue, e na minha coluna de cinco anos no Segundo Caderno d’O […]

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