inteligência? consciência?

Voltando a pensar na antropofagia da inteligência artificial: é cada vez mais fácil desenvolver um chatbot. As principais empresas do ramo disponibilizam ferramentas para quem quiser ter uma Siri ou uma Alexa para chamar de sua, com a “personalidade” que o(a) desenvolvedor(a) for capaz de criar. Quer um bot Riobaldo? Ou um transbot como Diadorim? É só começar a programar. E programação não é algo só para nerds. Há até um projeto que ensina criação de chatbots e outras habilidades de IA para crianças.

Mas antes de mergulhar nessa aventura, um aviso singelo: os chatbots, mesmo os mais inteligentes do mercado, não têm a menor ideia do significado daquilo que perguntamos para ele(a)s. Apenas transformam nossas frases em fórmulas estatísticas e chutam de volta a melhor resposta que há em seu repertório. Erram muito no início do seus aprendizados. Reconhecem sua ignorância, muitas vezes. Mas seus chutes ficam cada vez melhores, e passam a conseguir até simular conversas muito “humanas”. Claro: quando pedimos para uma Alexa comprar uma passagem ou reservar uma mesa num restaurante, ela pode até realizar a tarefa com louvor, mas não sabe diferenciar um prato de comida de uma asa de avião. Coitada, ela não sabe o que faz, não “pensa”, é totalmente sem noção.

Mas pense bem, se você é capaz: também não sabemos como pensamos. Na maior parte de nossas conversas, chutamos adoidado, fingimos que estamos entendendo o que os outros falam, fingimos que sabemos do que estamos falando (como eu aqui neste blog chutando filosofia ou conhecimento sobre IA). Aparentemente conhecemos o significado de comida ou de avião, mas talvez isso seja apenas uma camada a mais, entre as milhares de milhares, no learning de nossa machine cerebral. Tudo criando ilusão de consciência. Pois todos sabem, ou têm consciência disso, talvez em segredo: não há ainda boa pista para se entender realmente como nossos miolos processam essas informações, como palavras se transformam em impulsos elétricos ou em comércio de serotaninas (etc.) ou em pique-esconde quântico nos microtúbulos dentro de nossos bilhões de neurônios.

Quando tento meditar, concentrado na respiração, chego a desconfiar que os pensamentos não são “meus”, aparecem por ali como fantasmas, sabotando meu atalho para o Nirvana, ocupando meu cérebro com preocupações artificiais, que nada têm a ver com meu verdadeiro eu. Quem é esperto já descobriu que estou citando Lacan, naquele texto para mim eternamente incompreensível “A instância da letra no inconsciente ou a razão depois de Freud”, diante do qual sou tão tapado quanto uma Alexa. É ali que Lacan chutou uma de suas frases mais citadas: “eu penso onde eu não sou, ou eu sou onde eu não penso.” E depois minha versão preferida (eu traduzindo traidoramente Lacan sem saber falar nem lacaniano nem francês…): “eu não sou, lá onde sou o brinquedo de meu pensamento; eu penso no que eu sou, lá onde eu não penso pensar.” Esse texto, de 1957, falava de algoritmos como fundamentos da modernidade e da revolução do conhecimento. Profecia que se auto “cumpriu”, num mundo de redes sociais e seus algoritmos com egos do tamanho do mundo. Ou ainda se auto cumprirá: Alexa só vai pensar quando fizer análise, e assim pensando deixará de ser Alexa.

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