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bambu espelho

20/05/2018

outras identidades

20/05/2018

Quando o Orkut apareceu, como brincadeira anti identidade, eu trocava o texto da minha descrição pessoal frequentemente. Este aqui foi o que ficou publicado por mais tempo:

“Detesto do fado. Detesto o sebastianismo e a filosofia portuguesa. Detesto o Papa, os militares, os romances de Camilo. Detesto o Wagner, o Cristo-Rei e a Elizabeth Taylor. Detesto os sonetos de Florbela e as praias do Algarve. Detesto o bispo de Braga, as iscas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Tatcher. Detesto o Almada Negreiros, os ranchos folclóricos, os travestis, as majorettes, os pupilos do exército. Detesto o exibicionismo, o sentimentalismo, o surrealismo e o caldo galego. Detesto a poesia barroca, a arquitectura do Taveira, o Pedro Almodóvar, os pastorinhos de Fátima. Detesto a poesia do Ginsberg, o carnaval carioca. Detesto a pintura do Rubens e os acrósticos. Detesto o Retrato de Dorian Gray, o Andy Warhol, a loiça de Caldas. Detesto a Madonna. Detesto os castelos da Baviera. Detesto anedotas. Detesto jantar com mais de uma pessoa.”

Amigos ficaram espantados. Alguns acreditaram, mesmo com tantas referências lusitanas, que era mesmo a lista de meus gostos, ou desgostos, pessoais, refletindo minha identidade.

Poderia ter continuado com a sequência:

“Então de que é que gosta?

De framboesas. Do Mozart. Do Moby Dick. Do Walt Whitman. Das infantas de Velázquez. Gosto das Geórgicas e da Ilíada. De cerejas, de gatos e do Miguel. Gosto de Florença e Praga e Oxford. Gosto dois oiros e dos vermelhos de Rembrandt, das naturezas-mortas de Morandi. Gosto de Li Bai e da canção única de Meendinho. Gosto de Andrei Tarkovsky, dos versos de Pessanha, de Cesário. Gosto de espirituais negros. Gosto da sombra dos plátanos e das ilhas gregas. Gosto de muros brancos, de praças quadradas. Gosto dos madrigais de Monteverdi, da Casa sobre a Cascata de Frank Lloyd Wright. Das Variações Goldberg. Das Iluminations. Gosto do deserto, dos coros alentejanos. Gosto de minha mãe e de Virgínia Woolf. Da Via Ápia. Gosto dos esquilos do Central Park e das dunas de Long Island no inverno. Gosto de um verso do Cesariny: Conto os meus dias, tangerinas brancas. Gosto do aroma do feno e de Schumann. Gosto do cheiro dos corpos quando se amam. Hoje, não gosto de mais nada.”

Claro, não sou eu. Meus gostos são bem diferentes. Na verdade, o que me chamou a atenção, o que me atrai e me espanta nessas palavras, é a força do detesto e do gosto. A certeza (talvez um pouco quebrada pelo “hoje”, da frase final). Não sou tão firme assim. Aliás, não saberia ou seria capaz fazer lista semelhante. Meus gostos mudam a todo instante. E mesmo num único instante, não são convictos. Como a minha identidade pessoal remendada, mutante, instável. Gosto e não gosto das mesmíssimas coisas ao mesmo tempo (raro detestar), mantenho distância de absolutos, faço exercícios para me manter afastado de dogmatismos.

Mas continuo gostando dessa lista, anos depois do desaparecimento do Orkut. Leio toda ela como poesia (tenho meus versos preferidos: “Gosto de muros brancos, praças quadradas”), até porque são palavras de um dos poetas que mais admiro. Retirei esses trechos do livro “Rosto precário”, que reúne as entrevistas de Eugénio de Andrade.

Tive a sorte de entrevistar Eugénio de Andrade, na sua cidade do Porto, para o programa Além-Mar. Ele escolheu alguns de seus poemas para ler diante de nossa câmera. No final, fez questão de me entregar um livro para trazer para o Brasil com dedicatória para Maria Bethânia.

copiei Eugénio de Andrade em outras coisas, além de me apropriar com total afastamento da sua lista de gostos. Entre seus poemas, este aqui tem o poder de sempre me comover:

Deste jardim o que levo comigo

é um ramo de bambu para servir

de espelho ao resto dos meus dias.

Seu título é “Jardim de Lou Lim Ieoc”, lugar deslumbrante, que fica em Macau. Ali gravamos fado e um imigrante angolano lendo trecho de “Sobrados e mucambos” sobre os jardins chineses. Dali, copiando Eugénio de Andrade, levei comigo um ramo de bambu que me serve de espelho marcando páginas de “Rosto precário”.

Copiar é bom. Faz bem. Ajuda a dissolver nosso ego na matéria em movimento (aqui copio Fausto Fawcett). Tenho também que copiar a Maria da canção da Timbalada: existe letra melhor, mais alegre? E eu disse que não tenho opiniões firmes… Quod erat demonstrandum…

PS: lembrei disso tudo pois, ainda copiando Eugénio de Andrade, estou lendo  maravilhado, Poesia, de Mario Cesariny, o das “tangerinas brancas”, lançamento de 2017 da Assírio & Alvim. Volto a Mário Cesariny qualquer hora destas.

identidades

19/05/2018

Sonhos foram terrenos férteis para o pensamento alegre de Clément Rosset. Houve aquele de uma noite de maio, que deu no livro sobre o desejo. Houve, antes, outro sonho importante, na manhã de 28 de janeiro de 1998. Nele, o próprio Clément Rosset falava para um círculo de conhecidos sobre a diferença entre seu eu oficial, dos documentos, e seu eu “real mas misterioso” – pregando portanto a existência de uma diferença entre a identidade social, falsa, e a identidade pessoal, verdadeira. O espanto de aparecer em seu próprio sonho pregando uma ideia que sempre repudiou foi motivo para, quando acordado, escrever um de seus livros que mais gosto, “Longe de mim“. São apenas 80 páginas, que defendem com clareza e firmeza a alegria de não existir identidade pessoal nenhuma, mas sim – e somente – processos de produção de identidades sempre sociais, muitos e mutantes para cada pessoa, a partir das relações com outras pessoas ou grupos de pessoas.

Nada, então, de unidade. Somos, como disse Montaigne, feitos de “peças remendadas”. O efeito de conjunto é uma ilusão, produto da vontade – verdadeira – de ilusão, desse tipo de ilusão fundamental, em sua tentativa desesperada de criar fundamentos sólidos onde não é possível existir solidez alguma. Tudo ganha a aparência de um filme de terror bem delicado: “A identidade pessoal é algo como uma pessoa fantasma que assombra minha pessoa real, frequentemente próxima mas jamais tangível nem atingível […] Meu fantasma o mais familiar sem dúvida, mas enfim meu fantasma; e um fantasma nunca é mais que um fantasma mesmo se ele o visita sempre e decide algumas vezes a tomar seu lugar”. Quem parece ter personalidade firme, previsível, tem um fantasma dominante, forte ou domesticado, sempre disponível, nos mais variados ambientes, circunstâncias e companhias. Gente talvez confiável, mas sem graça.

Pois identidade de gente normal, de carne e osso, é resultado de apropriação, remix, cut and paste de vários traços psicológicos, memes vindos de fora para colonizar seus (nossos) cérebros. Até virar algo “original”:  “Copie, e se assim copiando você permanecer você mesmo, é que você tem algo a dizer, esse é o conselho que dava Ravel para seus raros alunos. A fórmula parece poder ser tomada em sentido mais amplo e se aplica à psicologia em geral: copie, e se copiando você permanecer você mesmo, é que você conseguiu forjar uma personalidade, algo como a roupagem (pelo menos aparente) de um eu.”

Em determinadas situações é vantajoso ter essa fantasia ou fantasma de personalidade. Porém, nem sempre. Na conferência mexicana “Quem sou eu?”, que veio a fazer parte do livro “Tropiques“, Clément Rosset terminava falando da astúcia de Ulisses, que escapou do ciclope Polifemo dizendo: “eu sou ninguém”. Parece truque, enganação. Não é, apenas: “a trapaça é ao mesmo tempo um triunfo da verdade; pois Ulisses, como todos nós, não é outro, no seu foro íntimo, que ninguém.”

Toda a filosofia de Clément Rosset pode ser considerada um guia para todos nós enfrentarmos esse tipo de verdade radical. Sem empulhação, ou trapaça de outro nível. Com alegria de seguir a verdade. Preciso citar aqui o epitáfio de Martinus von Biberach, que aparece no final de “Longe de mim” (e que apareceu antes em “A força maior“):

Eu venho não sei de onde,

Eu sou não sei quem,

Eu morro não sei quando,

Eu vou não sei para onde,

Eu me espanto de ser tão alegre.

*****

Pulo, espantado e alegre, e sem saber de nada, de Clément Rosset para François Jullien, especialista francês no pensamento chinês, ou especialista no pensamento europeu a partir do pensamento chinês. Eu nunca, em meu foro íntimo, acreditei em identidade pessoal, nunca quis possuir uma, assim como nunca acreditei também em identidade cultural. Por isso fiquei alegre quando encontrei o livro, também de cerca de 80 páginas, “Não há identidade cultural” de François Jullien. Leva as verdades radicais de “Longe de mim” para outro ambiente, talvez mais ressonante diante de debates políticos de agora. Com propostas bem engenhosas para mudar o rumo da conversa…

Vamos ao que interessa. Primeiro, um resumo de todo o resto: “no lugar da diferença invocada, eu proponho abordar as diversas culturas em termos de afastamento; no lugar da identidade, em termos de recursos ou de fecundidade.” Se a diferença trabalha com distinção, classificação, criando mundos fixos, isolados, fechados uns para os outros, com fronteiras nítidas entre si, e regime de produção de sentido autossuficiente, o afastamento incentiva a exploração daquilo que ficou distante, a prospecção do território desconhecido, criando tensão entre o que está separado – é portanto uma figura mais aventureira, que não fica na defensiva. O “entre” que aparece no afastamento é ativo, convidativo. Na diferença identitária, cada um se vira para o seu lado, não se interessa pelo que ficou de fora. Tudo que está fora é uma ameaça. No afastamento, o distante está sempre visível, e atrai a atenção geral.

Difícil a posição afastada, claro. François Jullien lembra: não sabemos pensar o “entre”, aquilo que não é isso nem aquilo, o que não tem “em-si”, o que não tem essência. Os gregos pensaram o “ser” (fica mais bonito ou divertido em francês – a diferença entre “être” e “entre”), tinham horror ao indeterminado (aqui François Jullien simplifica o pensamento grego?) Talvez valha a pena o esforço. Sair do ser, ir para território desconhecido, arriscado. Estamos cercados pelas armadilhas do ser, cada vez mais assombrados por seus problemas bélicos. Como o Ulisses de Clément Rosset: seria outro triunfo da verdade: afinal, cultura vive em constante mudança e transformação: se não muda, se não tem ambiguidade, contradição, morre, desaparece sem deixar saudade.

Cultura é complexa, heterogênea. A simplificação – e a homogeneização forçada – é arma inútil para qualquer batalha, mesmo a mais bem intencionada. É preciso aceitar o desafio da complexidade. François Jullien: “como caracterizar a cultura francesa, fixando sua identidade? Sob a figura de La Fontaine ou de Rimbaud? Sob a figura de René Descartes ou de André Breton? A cultura francesa não é nem uma coisa nem outra, mas ela está, certamente, no afastamento entre as duas: na tensão das duas ou digamos no entre que se abre entre elas. É esse entre aberto entre elas – desmesurado, vertiginoso – que faz a riqueza da cultura francesa, ou diremos seu recurso.” Ou ainda, mais claro e importante: “o que faz a Europa, é que ela é ao mesmo tempo cristã e laica (e mais). É que ela se desenvolve no afastamento entre os dois: no grande afastamento da razão e da religião, da fé e do Iluminismo. No entre os dois, “entre” que não é compromisso, simples intermediário, mas coloca os dois em tensão, fortalecendo um e outro. Daí vem que a exigência de fé é afiada pelo afastamento com a exigência da razão (isso mesmo numa mesma mente: Pascal): daí vem a riqueza e o recurso que faz a Europa ou melhor que “faz Europa”. Diante do qual toda definição de cultura européia, toda abordagem identitária da Europa, não é apenas terrivelmente redutora ou preguiçosa. Mas ela também fragiliza, decepciona e desmobiliza.”

Afastamento não combina com pertencimento, divisão entre o que é meu e seu. Os recursos são criados muitas vezes em um ambiente específico (penso na maioria dos estilos musicais, quase sempre nascidos em cidades bem determinadas, ou mesmo em determinados bairros dessas cidades), mas depois se tornam disponíveis para todos (a house de Chicago nos EUA vai gerar o gqom de Durban na África do Sul e assim por diante). Sim, há necessidade de politicas culturais espertas: “defender os recursos, é prioritariamente ativá-los, mais que compreender esse “defender” apenas no modo amedrontado ou defensivo.” Os recursos param de existir, desaparecem, se não são ativados, promovidos, colocados em circulação.

Tudo tendo em vista a construção de um “comum”: “uma inteligência mútua pode emergir nesse entre tornado ativo.” Não se trata de relativismo fácil, de ignorar relações de poder (que torna todo afastamento ainda mais tenso). É sim a aventura de criação de estratégias ágeis, alertas (contra a inércia): “Nem misturando (confundindo) o diverso das culturas e das formas de inteligência, nem, o que dá no mesmo, o reduzindo a uma versão mais consensual e declarada mais “tolerante”: uma forma cultural é significativa por aquilo que ela produz de afastamento e de singular e, por conseguinte, de inventivo.”

Sendo assim, só resta uma saída: constante invenção.

noites de maio

16/05/2018

Continuando a celebrar o pensamento alegre de Clément Rosset: há 10 anos ele publicou um livrinho de menos de 40 páginas chamado “A noite de maio“. Tudo começou com um sonho tido numa noite de maio de 2007, no qual chegava em Nice de avião, vindo de Paris, e ia direto para a casa de Agnès Varda (várias interrogações aparecem no texto, ao lado desse nome – não fica claro se Clément Rosset a conhecia na “vida real”). Lá descobre que terá que fazer uma palestra sobre o desejo. Sua primeira reação foi entrar em pânico, pois não tinha nada preparado para falar. Outra pessoa o acalma sugerindo um roteiro: seria preciso dizer que o desejo é algo muito complexo, citando Proust, passando por Deleuze e terminando com Balzac. Ao acordar, Clément Rosset começou imediatamente a escrever o texto do livro baseado nas instruções que recebeu no sonho.

Óbvio, o início é a madeleine de Proust, detonadora de um prazer “extraordinário” e “delicioso”. Mas “sem noção de causa”, pois não estava relacionado com um único acontecimento, ou objeto, mas sim com uma experiência múltipla, uma pluralidade de emoções experimentadas em Combray. Nenhuma alegria é solitária, sempre vem acompanhada. Nunca podemos descobrir o que sozinho nos deixou alegre. Há em cada momento alegre uma aprovação geral da existência. Pois, afirma Clément Rosset, como uma onça de Guimarães Rosa: “Se eu estou feliz é porque tudo vai bem e porque tudo é bom; se estou feliz mas ao redor desta felicidade certas coisas não estão indo bem, é porque eu não estou.” Gosto dessa radicalidade, dificílima, que vai contra tudo o que parece em voga hoje, quando perdemos mundos a cada dia.

Indo adiante, com coragem: alegria e desejo são “termos complementares”, que estabelecem entre si uma “quase-identidade” – o que se diz de um se pode também dizer do outro. Então uma pessoa alegre é uma pessoa que deseja, e “no limite deseja tudo”. Uma pessoa deprimida chega a não desejar nada. Ou deseja uma coisa só, como ideia fixa, que pode desaparecer a qualquer momento. Boa lição: “o objeto desejável só é desejado quando acompanhado da perspectiva, mesmo fugaz, de uma multidão de outros objetos desejáveis”. E ainda: “ele é móvel, sem conseguir parar em lugar nenhum, como o mercúrio.” O desejo é necessariamente plural.

Esses são elementos importantes para uma também (ou talvez ainda mais) mercurial teoria da identidade, ou da ausência/impossibilidade de identidade, proposta por Clément Rosset, onde eu quero chegar. Mas fica para um outro post, talvez em outra noite deste maio.

Kenric McDowell

02/05/2018

Em suas palestras, Kenric McDowell sempre repete a história da criação do programa para conectar artistas e máquinas no departamento de pesquisa do Google, gerando a ala mais psicodélica dos estudos de inteligência artificial. Tudo começou por acaso. Ou melhor: com um vazamento. Uma imagem produzida com ferramenta deep dream escapou dos laboratórios e viralizou nas redes sociais. Isso obrigou a empresa a explicar o que era aquilo, antes que teorias mais que conspiratórias ganhassem força incontrolável. Logo uma exposição com aquele tipo de imagem foi organizada em San Francisco. E seu sucesso abriu as portas de espaços antes ocupados apenas por cientistas e engenheiros para experimentações em diferentes práticas artísticas, com Kenric – “tecno produtor gnóstico” – como principal mediador entre esses mundos (vários nas duas pontas).

Vale a pena ouvir as novidades dessa empreitada na entrevista de Kenric para o podcast “Team human”, comandado por Douglas Rushkoff. Muito do que eu imaginava que só brasileiros poderiam fazer com a antropofagia da inteligência artificial já está em andamento mundo afora, a partir de outros xamanismos (vide o próprio Kenric cantando em trans-havaiano no final de sua palestra no Sonar 2017), ou precisando ir além do humano ou do antropocêntrico para chegar a algum lugar realmente interessante ou inteligente (nesse ambiente, preciso saudar a influência cada vez mais poderosa das ideias do filósofo Timothy Morton sobre inteligências não humanas, e sobre a provável solidariedade entre inteligências humanas e não humanas – as conexões com várias tendências pós-caóticas do ocultismo também são promissoras).

As coisas estão ficando bem divertidas, surfando em espaços-tempos de milhões de dimensões.


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