Thiago Amud

Thiago Amud lançou seu terceiro e mais recente disco, O cinema que o sol não apaga, em junho de 2018. Suas canções, e o trabalho como um todo, ganham mais urgência com o passar destes tempos, a cada um dos muitos acontecimentos trágicos que somos obrigados a enfrentar. Escutar novamente, ou pela primeira vez, cada um de seus acordes e versos é um bom exercício para pensar o presente e o futuro do Brasil, incluindo o lugar do país num mundo irreconhecível e assustadoramente indecifrável (não só por causa de vírus).

Tudo começa com uma batucada poderosa, imaginamos que estamos na Bahia, mas a geolocalização samba-reggae dura segundos: logo os instrumentos de percussão ganham outra arrumação e percebemos que estamos em sambódromo carioca paralelo, tão lento quanto um bloco tradicional maranhense ou aquela Portela que encerra de forma deslumbrante o Rio 40 graus. As primeiras palavras cantadas citam o filme seguinte de Nelson Pereira dos Santos, Rio Zona Norte, entre a voz de Angela Maria e a lágrima de Grande Otelo. Um possível refrão, com coro de pastoras, afirma que “o Brasil tem que ter jeito” e espera um “novo canto”, entre a “contemplação” e o “chute”, entre o “panteão de mentira” e o “vasto sonho”. Sobre a batucada inicial vão se sobrepondo trombone, trompetes e tuba, depois flautas e depois cordas, numa convivência big band arriscada que só os arranjos de Thiago Amud sabem propor e cultivar.

Nada é previsível. Cada canção tem um estilo diferente, reunindo climas, timbres e ritmos diferentes. Tênias e falenas – a das “musas que criam tênias de dez metros” – tem apenas baixo e vibrafone. Cantilena alada é construída só com vozes. Minimalismo e maximalismo sonoros se misturam corajosamente, sempre acompanhados por uma saudável verborragia lírica, que apontam tanto para uma nova canção de protesto que incorporou lições tropicalistas quanto para ficção científica de cantador nordestino, passando por poesia impressionista que descreve o tremor de amendoeiras. Maracatu com guitarra pós-Bill-Frisell, sons sampleados da zona de Tarkóvski, clarones, congada, tubas, violoncelos, theremin, frevo, prato e faca, viola capira (e a citação no more, no more, no more em Catirina desejosa, o mais fiel retrato dessa heroína punk do nosso folclore).

E junto com Catirina, a turma de Thiago Amud baixa no terreiro (ou no Liso do Sussuarão, ou no Monte Santo) outra vez mais: Dom Sebastião, Dom Bosco, Manaape e Jiguê, São Tomé Apóstolo, Falange Zumbi, o “povo em transe”, Malasartes e companhia. Todo mundo no precipício, que pode ser um início, onde “a barra quebra na minha cara”, o mundo pode novamente nascer (alegria! aleluia!) e o país pode emergir “por um triz”. É uma estratégia estética radical e fundamentalmente modernista: “tudo se concentra ali mesmo no mesmo ponto”.

Curioso recordar que neste 2020 sombrio deveríamos comemorar os dez anos de lançamento de Sacradança, o primeiro disco de Thiago Amud. Tudo já era bem concentrado ali: “as coisas estavam cheias de Espírito Santo”, a sentinela do aberto, a cabra tonta, os batuques de Elêusis e os mistérios de Donga, Dom Sebastião, “meu olho em transe”, frevos pernambucanos e baianos, e até uma Gnose song. Fiquei impressionado agora com da dinâmica King Crimson de Sal insípido, a canção mais “purgatorial”, a que identifica a “vanguarda da apatia”, mas encontra “a roda no seu ponto extremo” e decreta: “já bloqueamos a porta de entrada”.

A arte de Thiago Amud se equilibra nesta corda-bamba-terra-de-ninguém tropicalista entre o horror e a promessa/profecia de redenção, de não apenas “o Brasil tem que ter jeito” mas que pode indicar o futuro melhor para a humanidade. Pensar assim é agora ainda maior desafio (por isso a recomendação de escutar várias vezes esses discos, mais o De ponta a ponta tudo é praia-palma, como lição de quarentena): sem aglomeração, com distanciamento social, cuidados absolutamente necessários ninguém sabe por quanto tempo, quando a nossa dor vai voltar a balançar o chão da praça?

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Uma resposta to “Thiago Amud”

  1. peço licença | Hermano Vianna Says:

    […] semana recebi mensagem da Mônica Ramalho, elogiando o texto que publiquei sobre Thiago Amud e sugerindo, sem maiores informações, que eu escutasse Sylvio Fraga. Não reconheci o nome. Não […]

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