Cingapura novamente

Um de meus discos preferidos da década passada (os anos 2010, que agora – tenho que repetir o lugar comum – parecem muitos séculos atrás) é o Ikhlas, do Fauxe, músico/DJ de Cingapura. Primeiro fui com a cara do Fauxe, os traços malaios, a roupa (ele adora usar sarongue), a expressão nas fotos. Tudo fora de qualquer padrão. Quando escutei Ikhlas (um jeito super sincero de dizer sinceridade em malaio, uma das línguas de Cingapura) fiquei mais fã. A descrição do processo de criação já é interessante: enquanto estava morando em Kuala Lumpur (tenho uma camiseta do Hard Rock Café de Kuala Lumpur, uma “homenagem” não tão sincera a uma globalização que não existe mais…), ele sampleava o que descobria no YouTube procurando por “old malaysian music” e a partir desse material produzia faixas com subgraves de arrasta-pés periféricos transglobais (uma outra globalização era até bem pouco tempo possível…), incluindo traços do pancadão carioca (agora de qualquer cidade do Brasil e do planeta). Eu também gosto de P Ramlee e Saloma, além pop tamil feito na Malásia – então aquela mistura tinha todos os ingredientes para me agradar.

Descobri no confinamento que Fauxe lançou novo disco no final de 2019. No lugar da sinceridade, o altruísmo. Altruism é o nome de seu “grupo comunitário” de música improvisada. E também a parte principal do título deste lançamento do Fauxe: Altruism, the beginning (outra capa fora de série: algo assim como eu e meu violão…) A Malásia deixa de ser a referência principal. É apenas um dos elementos de um experimento sonoro radical que tem na sua base o hip hop mais experimental (experimentar o experimental, como queria Hélio Oiticica), mas que pode muito bem ser ouvido também como jazz ou música concreta. Há ecos de JPEGMafia (sem o rap, só a barulheira), DJ Shadow, El-P, Squarepusher, o quarto mundo de Jon Hassell (que anda passando por problemas de saúde, há um fundo para ajudá-lo), Gabber Modus Operandi, algo de Ornette Coleman, o gamelão segundo Debussy. Muitas camadas, sobreposição e justaposição. A cada audição, uma nova revelação. Talvez inesgotável.

PS: Pesquisando sobre Fauxe na internet encontrei o artigo da Bandwagon citado acima. Não resisti e fui dar uma espiada no resto do site. Assim descobri a .gif, uma dupla voz e eletrônica. Gostei da foto e da conversa. Comprei o Hail nothing (bom título, parente do No future dos Sex Pistols), lançamento agora de abril. Mas o disco tem um problema: começa com a faixa Only yours. Logo no meio da música aparece a voz de Bani Haykal. Que voz é essa – linda, única, emocionante (suplicando: “come home”) – que nunca ouvi antes? Larguei o disco do .gif e fui stalkear o cantor. Muito mais que cantor: aqui sua arte sonora na Bienal de Cingapura 2019, aqui a monografia sobre seu trabalho, aqui sua poesia, aqui as informações valiosas do seu twitter que desvenda a incansável variedade de seus interesses. Mas eu queria mais daquela voz e agora escuto os maravilhosos discos do B-Quartet. O primeiro se chama Tomorrow is our permanent address (numa entrevista Bani Haykal diz que em malaio não existe palavra para futuro – continuo procurando o futuro, desde o post sobre o BaianaSystem, ou desde sempre…) Muita coisa para ouvir, ler, pensar. A internet ainda pode ser um bom lugar apesar da maluquice-rede-social aparentemente dominante.

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Uma resposta to “Cingapura novamente”

  1. Rita Indiana | Hermano Vianna Says:

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