Cabelo Cobra Coral

Estava publicando o post anterior, sobre amigos mostrando trabalhos na pandemia, quando chegou mensagem do amigo Cabelo anunciando o lançamento do seu disco Luz com trevas.

Demorou: estava esperando esse disco há muito tempo. Cobrava sempre, quando tinha oportunidade. E chega logo agora, nesta nossa situação desesperada, cada vez mais “do nada para lugar nenhum” (como diz a letra de Je Vous Salue Marie). Aquele velho ensinamento: onde há perigo cresce o que salva. Luz com trevas, com sua descrição do abismo (e tendo o Rio como capital do abismo, percorrido de mototáxi), aponta possibilidades para abrir caminhos, por onde a luz possa escapar.

Porém, como escreve Fred Coelho no release: o pensamento de Cabelo é não binário. Não é luz e trevas. É luz com trevas. Sem separação, sem fronteira clara entre os domínios da claridade e da escuridão. Tudo trans, incapaz por princípio de estabelecer em qual momento termina a celebração e começa a transgressão. É sempre celebração transgressora, rebelião sem trégua, fim pra frente ou pra cima, propondo acelerações com muitos desvios, cada degrau dando em estradas bifurcadas, onde encontramos muitas personagens mutantes (o mototaxista, a abusada, o avô etc.), entidades que, mais que ouvidas, podem ser incorporadas (continuo seguindo Fred Coelho).

Tudo EXUberante. Tanto que começa com um novo ponto para Exu, orixá que abre caminhos, coloca as diferenças em comunicação/confusão, destruindo maniqueismos e soluções simples. Portanto, esse é um disco que foi/é/será uma exposição, que era/é/será “cinema expandido”, e assim por diante, em expansão constante e explosiva – como ovos-bombas.

Na primeira audição, agora neste momento, minha canção preferida é Raio de Amor, funk bem raiz (sim tudo pode virar raiz, a raiz não está no início: fundamentos a gente inventa) que, diante de uma Amazônia em chamas, chama xamã. O disco invoca portanto o encontro de orixás e xamãs, estratégia na qual a cultura brasileira deveria se especializar para se salvar. O orixá baixa para o mundo humano. O xamã sobe para o mundo espiritual. Em algum lugar, no meio do caminho bifurcado, dessa Stairway to Heaven tropical(ista), pode estar a solução.

Enquanto a solução/salvação não chega, e – antes disso – enquanto também não aprendemos que “o novo normal é não haver normal”, melhor seguir as lições de Cabelo Cobra Coral, aproveitando o lançamento deste grande disco: para tirar o mau olhado, para proteger a nossa casa, é preciso mandar brasa, em todos os sentidos e direções, lançando muitos raios de amor por aí.

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