ainda Roma

Ou, para ser mais exato, perto de Roma. Nos últimos dias de sua vida, Sêneca viveu em suas casas de campo. Foi ali que escreveu as cartas para Lucílio, (re)leitura essencial para confinamento desconfinado e interminável. Preciso citar os primeiros parágrafos da primeira carta (segundo a tradução de J. A Segurado e Campos para a edição da Fundação Calouste Gulbenkian), que vai direto ao nosso ponto:

“Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tais como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo, aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a vida pretérita é já do domínio da morte!

Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso.”

Que fazer? Como não sermos negligentes? Como aproveitar bem estes nossos dias, quando a morte não está à nossa frente, mas por todos os lados? Com espaços tolhidos, nada pode ser mais claro: temos apenas o tempo, essa “coisa transitória e evanescente” para experimentar, para tomar nas mãos – e o amanhã depende de uma vacina. Como não desperdiçar o que nos resta, o que sobrou?

No meu caso é mais difícil; como a Maria da música da Timbalada (ela também gosta de filosofia) eu gosto de muita gente. Gosto de réveillon em Copacabana, gosto de carnaval em qualquer lugar. Sêneca preferia distanciamento social: “É-nos prejudicial o convívio com muita gente: não há ninguém que não pegue qualquer vício, nos contagie, nos contamine sem nós darmos por isso. Por isso, quanto maior é a massa a que nos juntamos, tanto maior é o perigo.” (Carta 7) Por isso se afastou de Roma – mas Nero não permitiu aposentadoria tranquila, exigindo sua condenação ao suícidio.

Essa morte medonha e o elitismo aristocrata (autenticamente patricinho) não invalidam os bons e necessários conselhos das outras cartas. A coragem para sermos dignos daquilo que nos acontece. O sábio como “especialista em fazer amizades” (Carta 9), apesar de bastar-se a si mesmo. As práticas de controle das paixões. A organização heróica de cada dia como “se fosse o final da batalha, como se fosse o limite, o termo de nossa vida.” (Carta 12) Claro que voltarei a citar Sêneca, muitas vezes. Ele, estóico, adorava citar Epicuro. Cada citação era um “brinde”. E uma apropriação: “Tudo quanto é verdade, pertence-me”. Ou generalizando: “as ideias correctas são pertença de todos.” (Carta 12)

Então esta ideia aqui pertence-me, ou é a própria razão para a existência deste blog: “aprender dá-me sobretudo prazer porque me torna apto a ensinar! E nada, por muito elevado e proveitoso que seja, alguma vez me deleitará se guardar apenas para mim o seu conhecimento. Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação.” (Carta 6)

Uma resposta to “ainda Roma”

  1. wuwei | Hermano Vianna Says:

    […] « ainda Roma […]

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