complementos Ilustríssima 2

Tinha muito mais coisa para falar no texto publicado hoje. Exemplos:

FRANCY BANIWA

Outra citação da dissertação de mestrado: “Na minha língua há explicações, mas não sei como colocar isso em português, diversas vezes fiquei sem palavras em português.” Francy me disse que pensa primeiro em nhengatu, a língua “geral” que um dia foi a língua principal do Brasil. Mesmo em nosso telefonema, ela pensava suas respostas em nhengatu e depois traduzia falando em português. Parte de sua vida entre cinco línguas, característica comum de quem nasce em São Gabriel da Cachoeira. Muitos dos povos indígenas do município mantêm a tradição de casamentos exogâmicos. Geralmente, o pai e a mãe falam línguas diferentes dentro de casa. As crianças são poliglotas desde o berço. Precisam também se virar para aprender português, nhengatu (que permanece muito vivo na região – nunca vou me esquecer de, durante festa junina local, ter acompanhado um casamento caipira celebrado em nhengatu – mashup cultural brasileiro em sua mais desabusada radicalidade), espanhol (pois vivem perto da fronteira da Colômbia e da Venezuela, e entre cerca de 15 mil baniwas, só 4 mil são brasileira(o)s), além das línguas de outros povos com os quais convivem todos os dias. Muitas vezes são troncos linguísticos totalmente distintos, tão distantes uns dos outros quanto o português e o chinês.

Mesmo em pequenos povoados a realidade cosmopolita é dominante. Francy Baniwa foi criada em Assunção, no rio Içana, onde convivem nove povos diferentes. Lá sempre estudou em escolas indígenas, com professores indígenas. Tem enorme orgulho dessa educação. Só conheceu outro tipo de sala de aula quando foi para Manaus e fez sua graduação em Ciências Sociais. Depois veio para o Rio fazer o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ (onde também fiz meus mestrado e doutorado). Reafirma que nunca tinha ouvido falar no Museu Nacional antes.

Quem pela primeira vez me mandou prestar atenção no trabalho de Francy Baniwa foi minha amiga Aparecida Vilaça, professora do Museu. Meu enorme agradecimento.

JOÃO PAULO TUKANO

O histórico escolar de João Paulo Tukano é diferente. Foi internado criança no colégio dos salesianos, que ficava a 1 dia de canoa de remo do lugar onde morava (ver sua passagem recente pelo prédio desse colégio no curta “Kumuã”, produção da agência Amazônia Real, uma das experências mais valentes do jornalismo independente brasileiro atual). Depois foi para uma escola técnica de mineração em Manaus e chegou a ficar um tempo como seminarista. Seu caminho yo-yo entre o mundo dos brancos e os mundos indígenas foi mais conturbado, cheio de “desencontros marcantes” e “crises intelectuais”, desencadeadas pelo confronto constante entre modos diferentes de produção de conhecimento e visões de mundo.

O encontro com a antropologia não foi apaziguador. Há sempre uma relação de saudável desconfiança curiosa em todas suas atividades acadêmicas, mesmo quando envolve ser guia de Roy Wagner em cerimônia indígena ribeirinha ou a troca de emails em tukano com Stephen Hugh-Jones. Há também um entusiasmo sempre ousado e combatente no que faz com o que aprende: como na mistura de kumuã tuyukas, dessanas e tukanos com remédios tradicionais do povo apurinã no Bahserikowi. Ou na aproximação das culinárias rionegrinas e saterê-maué no Biatuwi (a inauguração foi adiada, novas datas no Instagram do restaurante), com quinhapira até por delivery.

Foi Igor Miranda, com a ajuda do pessoal do Instituto Mancala, que me passou o contato de João Paulo Tukano. Muitíssimo obrigado.

POVOS INDÍGENAS E UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

Francy Baniwa e João Paulo Tukano são apenas dois exemplos da presença indígena nas universidades brasileiras, que é uma das mais importantes novidades de nossa educação neste século. Não tenho dados atuais, mas sei que esse número quase decuplicou de 2004 a 2016 (para parte dessa história recente ver esta publicação sobre o projeto Trilhas de Conhecimento; ver também esta tese de Talita Lazarin Dal Bó). Oportunidade: o Brasil poderia se tornar vanguarda de nova pedagogia e produção científica, com a colaboração dos quase 200 povos que existem por aqui. E também vanguarda de novas práticas de produção de conhecimentos que podem acontecer também fora dos campi, em vários arranjos.

Os caminhos e possibilidades das pesquisas colaborativas estão lindamente explicados neste site sobre os ciclos anuais do rio Tiquié. Temos muito a aprender com as observações indígenas. Deixo aqui novamente o link para este vídeo que inclui mapa mundi com localização das áreas onde há mais diversidade de espécies de morcego e possivelmente de novos coronavírus. A Amazônia parece o epicentro global. Indígenas podem ser nosso(a)s professora(e)s nessas investigações urgentes. Muitos povos têm suas classificações complexas de morcegos, estudando seus hábitos há séculos.

Não, não estou sugerindo uma estratégia utilitarista, que salvaria povos e conhecimentos indígenas pois eles podem nos salvar. Não é escambo 2.0, agora “bonzinho”. É preciso criar toda uma outra relação não mercantilista de aprendizado e invenção.

ANTROPOLOGIA INDÍGENA 

Para uma análise inspirada de mudanças/problemas que esse processo já provoca recomendo o artigo “Indígenas antropólogos e o espetáculo da alteridade”, de Felipe Sotto Maior Cruz, antropólogo tuxá, que inclui sofisticadas observações etnográficas também sobre o funcionamento de nossos departamentos de antropologia (outra leitura importante: “Contradisciplina: indígenas na pós-graduação e os futuros da antropologia”, de Marcela Stockler Coelho de Souza, com a defesa – peço desculpa pela minha interpretação contradisciplinária bem irresponsável – da ideia de que inclusão só faz sentido se provocar explosão). Apenas o acesso (o número de estudantes e teses, entre outros dados) não garante diversidade e pluralidade. Precisamos de “abertura epistêmica”, muito estranhamento e muito mais, para combater o “movimento inercial” do habitus acadêmico. Precisamos de muita sagacidade para evitar as armadilhas de “práticas violentas disfarçadas de benevolência”. É preciso ficar atento e forte para toda essa experiência educativa não terminar em “projeto de amansamento intelectual e cognitivo”, entre o virar disciplinado(a) e o virar índio(a) romântica(o), para ganhar vários tipos de créditos e credibilidade. É a academia que precisa se tornar mais indígena. Felipe Sotto Maior Cruz descreve situação comum em mesas de debate nas quais branco(a)s monopolizam conclusões e terminam o evento com fatídico “agora os indígenas vão fazer uma dança”. Nada contra a movimentação corporal: mas os(as) indígenas podem nos ensinar a botar pra quebrar também na dança dos conceitos. Corpos explosivos com conceitos explosivos.

Minha utopia desesperada entra no ritmo antimessiânico das utopias em marcha de Oswald de Andrade: “Será preciso que uma sociologia nova e uma nova filosofia, oriundas possivelmente dos ‘Canibais’ de Montaigne, venham varrer a confusão de que se utilizam, para não perecer, os atrasados e os aventureiros fantasmas do passado.”

Nada é confuso aqui. Tudo é claro demais.

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